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Investigado pela Polícia Civil, o clube terá de se defender de acusações de irregularidades em transações financeiras para pagamento de dívidas

Wagner Pires de Sá, presidente do Cruzeiro
Reprodução / Cruzeiro
Wagner Pires de Sá, presidente do Cruzeiro

Um dos maiores clubes do país, o Cruzeiro tem atualmente um dos melhores elencos na disputa do Brasileirão e da Libertadores, mas um problema extracampo tem tirado o sossego da diretoria celeste. Investigado pela Polícia Civil, o clube terá de se defender de acusações de irregularidades em transações financeiras para pagamento de dívidas.

Em matéria veiculada domingo (26), pelo “ Fantástico ”, da TV Globo, há denúncias de diversas irregularidades da Raposa como transações ilegais de jogadores com empresários não cadastrados pela CBF , cessão de direitos econômicos de jogadores de base, abaixo da idade mínima, o que é proibido pela lei brasileira e esquema de pagamentos para torcidas organizadas com o intuito de defender e divulgar a marca do  Cruzeiro

A matéria, assinada pela repórter Gabriela Moreira, cita também o pagamento de mais de 3 milhões de reais para  Itair Machado , vice-presidente de futebol, autorizados por ele mesmo no ano de 2018, entre salários e premiações por conquistas de títulos.

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Zezé Perrela , ex-presidente do clube, e atual responsável pela gestão do conselho deliberativo, falou sobre as acusações de inércia do órgão em relação às denúncias do conselho fiscal.

"O conselho fiscal é a absolutamente autônomo. É eleito separadamente do conselho deliberativo. Eles têm, inclusive, a autoridade para contratar auditorias. Se a diretoria se recusou a entregar documentos, eles poderiam ter contratado uma auditoria e buscado esses documentos na Justiça", disse.

"Meu papel não é ter acesso às contas do clube, nunca foi, basta pegar o estatuto do Cruzeiro e verificar quais são as minhas atribuições. Minha função é conciliar as partes e trazer consenso ao Cruzeiro", completou Perrela.

Na segunda-feira (27), dia seguinte ao da reportagem da Globo, o presidente do Cruzeiro, Wagner Pires de Sá , e o vice-presidente do clube, Itair Machado de Souza, concederam entrevista coletiva para explicar os fatos.

Explicações

Itair Machado, vice do Cruzeiro
Divulgação
Itair Machado, vice do Cruzeiro

O presidente começou explicando sobre os pagamentos aos conselheiros , que segundo ele, acontecem há muitos anos, e trata-se de uma prática normal.

"Há mais de 50 anos o Cruzeiro adota a prática de contratação de conselheiros. Seria uma hipocrisia não contratar. Normalmente eles perdem direito de votação, então não há interferência, não há nenhuma proibição de que conselheiro seja funcionário do clube. Mas o presidente do Conselho me sugeriu que, a partir de agora, eles pediriam licença do Conselho. Achei conveniente e isso será colocado em prática", dise Pires de Sá.

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Já Itair Machado, que adotou uma postura mais agressiva durante a coletiva, afirmou que o clube sofre perseguição, e minimizou a dívida atual da instituição, que está na casa dos R$ 520 milhões.

"Aqui no Cruzeiro não tem desonesto. Estamos sendo perseguidos (...) O processo da polícia civil já existia e não chama processo, chama procedimento, dura meses, começou por denúncia anônima, foi fogo amigo, concluído e arquivado. Agora, com essas matérias, o procedimento foi reaberto. Mas o Cruzeiro confia na Polícia Civil. O Cruzeiro está tranquilo quanto a isso", disse.

"Teve um conselheiro que falou que o Cruzeiro está falido. O Cruzeiro jamais vai falir. Essa camisa não tem preço", completou Itair.

Dívida

Flávio Pena, diretor financeiro do Cruzeiro, explicou que a gestão herdou a dívida de outras gestões, e classificou como desespero a atitude de pegar dinheiro emprestado com o empresário Cristiano Richard .

"Eu entrei em julho, para ajudar. Sou um cara técnico, mas o que me impressiona na reportagem é que algumas coisas são explicáveis. Poderiam ter feito perguntas, que fizeram, mas não colocaram na íntegra. A dívida é alta, e o pior, é que tivemos valores de salários atrasados, dois ou três meses, mais meses de imagem atrasados, mais imposto de renda, o que obrigou uma antecipação de R$ 50 milhões. Isso gerou uma exposição de caixa do clube. O que fez o Cruzeiro pegar os R$ 2 milhões (com o empresário Cristiano Richard). É função de caixa, é desespero", disse.

Venda de menor de idade

Estevão Willian, o 'Messinho'
Reprodução / TV Globo
Estevão Willian, o 'Messinho'

Entre os atletas cujos percentuais foram prometidos ao empresário em troca do empréstimo de R$ 2 milhões está o garoto Estevão William , de apenas 12, conhecido nas categorias de base do clube como " Messinho ".

"Apelidaram ele de Messinho, acho até com razão, mas o Cruzeiro em momento algum vendeu um "de menor. Quero tranquilizar o torcedor sobre o Estevão, "Messinho". O Cruzeiro em momento algum vendeu menor de idade. O Cruzeiro entende que o jogador até os 14 anos vai pra onde quiser. O Cruzeiro jamais venderia, e nem o empresário era burro de comprar um jogador de 12 anos, porque sabe que não tem validade nenhuma. Ele (o garoto) entrou numa cesta de garantia", afirmou Itair Machado.

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Sobre a porcentagem do jogador que foi dada como garantia para Cristiano Richard, Itair garante que não é uma prática ilegal.

"Não é ilegal. Se você tiver aí o documento da CBF que fala que é ilegal, você me mostra. Não é ilegal. Não vendemos. Enquanto ele estiver vestindo o manto sagrado do Cruzeiro, ele, queira ou não, é patrimônio do Cruzeiro. Não ter contrato ainda é questão da lei. O Cruzeiro pode dar como garantia qualquer patrimônio dele. Nós não vendemos. É ilegal vender jogador para particular ou terceiros. Dar como garantia é outra coisa. Enquanto o jogador tiver no Cruzeiro, ele é nosso. Com ou sem contrato", afirmou.

Pagamento para organizadas

Torcida do Cruzeiro
Vipcomm
Torcida do Cruzeiro

De acordo com os documentos obtidos pela reportagem, o Cruzeiro realizada pagamentos para suas torcidas organizadas . Um dos diretores da Máfia Azul, Daniel Gomes Sales recebeu R$ 88 mil em 2018.

Os documentos obtidos pela reportagem também revelam pagamentos feitos pelo Cruzeiro a torcidas organizadas. Daniel Gomes Sales, conhecido como Quik, é diretor da Máfia Azul e aparece na contabilidade com o valor de R$ 88 mil recebido no decorrer de 2018. Ele possui contrato com o clube válido até dezembro de 2020 no valor de R$ 8 mil mensais.

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"A ideia foi minha. O Cruzeiro, na gestão passada, sempre tinha muita briga entre as próprias torcidas organizadas. Quando a Máfia Azul veio com o projeto de criar a TV Máfia Azul, o Cruzeiro fez um contrato de publicidade. E seria um bom retorno para o Cruzeiro apoiar o projeto. Vocês da imprensa não têm o Cruzeiro como foco, a TV Máfia Azul tem o Cruzeiro como foco. E ela tem dado retorno satisfatório. A China Azul tem um trabalho grande onde é situada a sede da torcida. Dentro disso tudo, o Cruzeiro pactuou com as torcidas que teria que ser obrigatório evitar as brigas nos estádios. Se vocês pesquisarem, depois que a gente fez isso, não houve nenhuma violência no estádio. Estamos colocando ingresso a 10 reais, famílias estão indo, crianças. A gente entende que o investimento não foi na organizada, foi para o Cruzeiro , para o torcedor", disse Itair.