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Favorita ao título na França, seleção dos Estados Unidos passeia na primeira fase e bate recorde histórico com goleada, mas decepciona na audiência

EUA
Getty Images
Seleção dos Estados Unidos teve a melhor campanha da primeira fase da Copa do Mundo

A seleção norte-americana confirmou a melhor campanha na primeira fase da Copa do Mundo de Futebol Feminino ao vencer a forte equipe da Suécia pelo placar de 2x0. Considerada a grande favorita, a atual detentora da taça fez uma primeira fase irrepreensível, com direito a uma acachapante goleada de 13x0 diante da Tailândia, a maior da história dos mundiais.

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Se dentro de campo as norte-americanas cumprem todas as expectativas, fora dele, no entanto, a melhor seleção de futebol feminino do mundo sofre com o mesmo problema que a maioria das equipes do esporte: a falta de engajamento de público.

A situação do país que mais vezes venceu a Copa do Mundo feminina, no entanto, é bastante particular. Com estrutura de base completamente diferente do resto do mundo, baseada nos campeonatos universitários, as norte-americanas também não sofrem com a mesma barreira cultural que as atletas de outros países, como o Brasil. Pelo contrário: na terra da NBA e da NFL, futebol é "coisa de menina".

Enquanto o Brasil dá os primeiros passos nas transmissões da Copa do Mundo Feminina da TV aberta, os Estados Unidos transmitem o torneio desde 1999. A Fox, casa do torneio em 2019, teve média de 2.63 milhões de espectadores ne partida entre Estados Unidos e Tailândia, que marcou a estreia das favoritas. O jogo também foi marcado pela maior goleada da história das Copas.

Não só a média de audiência foi menor do que os 3.31 milhões que assistiram a estreia da equipe na Copa de 2015, diante da Austrália, como também ficaram muito aquém de outros grandes eventos esportivos. 

Entenda as principais motivos para a falta de sucesso de público do futebol feminino nos Estados Unidos.

Concorrência com outros esportes

Serena
Reprodução/Twitter
A tenista Serena Williams é um dos maiores ícones do esporte norte-americano

Enquanto a Copa do Mundo começava, duas das maiores ligas americanas, a NBA, de basquete, e a NHL, de hóquei, finalizavam suas temporadas. Os seis jogos que consagraram os canadenses do Toronto Raptors como campeões da NBA diante do Golden State Warriors tiveram média de 15.14 milhões de espectadores nos EUA, mesmo com um time estrangeiro conquistando a taça.

Já o duelo vencido pelo St. Louis Blues diante do Boston Bruins em sete partidas teve média de 5.333 milhões de pessoas assistindo. No entanto, dois dos jogos foram transmitidos apenas na televisão fechada, levando o número médio para baixo. A partida que decidiu a taça teve 8,7 milhões de telespectadores. Entre as quatro grandes ligas dos EUA, a NHL é a menos assistida.

A MLB, maior liga de beisebol do mundo, teve média de 14.125 pessoas assistindo os cinco jogos que consagraram o Boston Red Sox como campeão da temporada passada. Já o último Super Bowl, jogo que decide o campeão da NFL, liga de futebol americano dos Estados Unidos, colocou 149 milhões de pessoas em frente à televisão para assistir o New England Patriots derrotar o Los Angeles Rams para conquistar mais um título.

Além disso, os Estados Unidos são a maior potência olímpica do mundo, colecionando medalhas em diversas modalidades.

Enquanto a seleção norte-americana estreava na Copa do Mundo, nossa reportagem foi às ruas de São Francisco, na Califórnia, para saber o quanto os torcedores estavam por dentro da competição. A imensa maioria das pessoas abordadas sequer sabia do torneio na França e estavam mais preocupadas com o Golden State Warriors, que ainda não havia perdido o título da NBA.

Entre os que se disseram "animados" para a competição, menos da metade soube dizer o nome de uma jogadora do time. A craque Alex Morgan foi a única citada, sendo lembrada por quatro torcedores. As já aposentadas Abby Wambach, com quatro menções e Hope Solo, com seis, também foram mencionadas.

Se no futebol os torcedores norte-americanos pareciam pouco interessados e informados, quando questionados sobre seus ídolos no esporte feminino, as repostas foram diversas e completas. Os times de ginástica, liderado por Simone Biles, e natação, puxado por Katie Ledecky, foram lembrados por dezenas de pessoas.

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As equipes de vôlei, tanto de praia quanto de quadra, também apareceram, assim como algumas estrelas da WNBA, torneio norte-americano de basquete, e do WWE, liga de luta-livre local.

No entanto, nenhuma outra atleta foi tão citada quanto Serena Williams. Considerada por boa parte dos especialistas como a maior tenista da história, a ex-número 1 do WTA foi lembrada pela imensa maioria das pessoas abordadas.

O remédio para competir com o sucesso dos outros esportes é um só: taças. Acostumados ao lugar mais alto do pódio, os torcedores norte-americanos são viciados em vitórias. Após audiências pouco impressionantes durante a competição, a final da última Copa do Mundo Feminina, em 2015, quando os Estados Unidos venceram o Japão, algoz das norte-americanas em 2011, colocou mais de 25 milhões de norte-americanos na frente da televisão, se tornando a maior audiência do futebol na história do país.

Esporte de entrada e plano de carreira

Wambach
Reprodução/Facebook
Abby Wambach é referência no futebol feminino dos EUA

O futebol feminino foi proibido no Brasil por uma lei assinada por Getúlio Vargas em 1941 e assim permaneceu até 1979. De acordo com o presidente da época, o esporte ia contra a “natureza feminina”.

Enquanto a legislatura absurda atrasava em décadas o esporte feminino no país do futebol, os Estados Unidos aprovavam a Title IX para fomentar a prática esportiva de mulheres em escolas e universidades. Em 1971, um ano antes de assinatura da lei, 700 meninas jogavam futebol competitivamente em escolas do país. 20 anos depois, esse número saltou para 121,722. Em 2018, já eram 390,482.

Por conta da popularidade dos outros esportes coletivos como o basquete e o futebol americano, o futebol ganhou rapidamente a estigma de "esporte para meninas" nos Estados Unidos.

Por conta da facilidade de se aprender a jogar e entender as regras em relações aos esportes americanos, o futebol geralmente é um dos primeiros esportes apresentandos às crianças nos Estados Unidos, em especial às meninas. Os meninos, por sua vez, também começam cedo a jogar o tee-ball, uma versão simplificada do beisebol. Essas modalidades são conhecidas como "esportes de entrada".

Competindo de igual para igual em número de atletas universitárias com o vôlei, o basquete e as modalidades olímpicas mais tradicionais, o futebol formou centenas de milhares de mulheres em universidades pelos Estados Unidos desde os anos 70. No entanto, a estagnação do esporte em nível internacional e a ausência de uma liga forte fez muitas dessas atletas mudarem de esporte ou desistirem de uma carreira no futebol em detrimento do mercado de trabalho, que também começava a abrir as portas para elas durante o mesmo período.

"Soccer" segue penando nos Estados Unidos

Ibra
Reprodução/Twitter/LAGalaxy
Organizada e cheia de craques, MLS não consegue bons índides de audiência

O problema do futebol feminino nos Estados Unidos não é isolado. O futebol masculino, ainda que tenha uma liga estruturada e recheada de nomes famosos como a MLS , não consegue engrenar no país.

A forte imigração latina ainda dá sobrevida ao esporte mais popular do mundo nos EUA, mas a verdade é que a audiência do masculino é ainda mais decepcionante. Na nossa passagem pela Califórnia, encontramos vários fãs do futebol masculino. Nenhum deles, no entanto, era norte-americano.

Em 2018, uma vitória do Atlanta United sobre o Portland Timbers entrou para a história e teve o maior público da MLS desde 1998. Apenas 1,56 milhão de pessoas assistiram ao jogo.

A final da última Copa do Mundo, disputada entre França e Croácia, teve uma média incrível de 3.572 bilhões de pessoas, metade da população mundial. Nos Estados Unidos, cerca de 11.3 milhões de pessoas assistiram ao duelo, menos de 3% da população total do país.

Falta de carisma e controvérsias

Morgan
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Alex Morgan é a melhor jogadora da atual geração dos EUA

Se uma série de fatores externos atrapalha o sucesso de público da seleção norte-americana, de acordo com alguns especialistas as próprias atletas são responsáveis por parte da falta de conexão com os torcedores. A equipe é considerada pela mídia local como pouco carismática e fechada por não dar muitas entrevistas.

Os frenquentes pedidos públicos por igualdade salarial também e de patrocinios também minaram a equipe com parte do público, que considera a exigência das atletas descabida por conta do mercado do futebol masculino ser muito mais lucrativo.

Outro problema aconteceu durante a goleada diante da Tailândia, a equipe acabou virando alvo de críticas pelas comemorações consideradas "exageradas" quando a partida já estava resolvida. "Eu me sinto ofendida como ex-atleta. É uma falta de profissionalismo e de humildade", disse a comentarista Kaylyn Kyle, que é ex-jogadora do Canadá.

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A também ex-atleta canadense Clare Rustad endossou o coro da colega. "São o melhor time do mundo. Eu estou enojada e envergonhada com esses comportanmento", comentou. A atitude do time de futebol feminino dos Estados Unidos também desagradou torcedores na internet, que consideraram as comemorações desrespeitosas. Considerada uma das maiores jogadoras da história, Abby Wambach defendeu as atletas. "Para muitas delas é a primeira Copa do Mundo e eles deveriam estar animadas, pois estão realizando um sonho", disse a ex-atacante.

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