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Ex-atacante do São Caetano tem um projeto social e atende mais de 100 crianças no interior paulista

Adhemar é o maior artilheiro da história do São Caetano com 68 gols anotados
Divulgação
Adhemar é o maior artilheiro da história do São Caetano com 68 gols anotados

Aí sim! Conversei com o ex-jogador Adhemar Ferreira de Camargo Neto, lembram dele? Que chute senhoras e senhores! Que patada, os goleiros não podiam ouvir falar o nome dele que já se arrepiavam todos. Adhemar tem 46 anos e nasceu em Tatuí, interior de São Paulo.

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O ex-camisa 9 do São Caetano tem um projeto social chamado “Bom de Bola, Bom na Escola”, em Porto Feliz, que fica a 112 km da capital na região de Sorocaba.  Adhemar cuida de aproximadamente 100 crianças, entre meninos e meninas, na faixa etária de 03 a 15 anos que jogam futebol três vezes por semana, sob os cuidados do craque.

Para conhecer o Projeto "Bom de Bola, Bom na Escola”, basta entrar em contato pelo telefone (015) 3261-6075 ou enviar mensagem para o email adhemar.neto@gmail.com.

Adhemar atuou em vários clubes: Estrela, Serrano, Lemense, São Bento, São José, Seongnam (COR), Yokohama Marinos (JAP) e se destacou no A.D. São Caetano e Stuttgart (ALE).

Abaixo a tabelinha com o "Canhão do ABC":

Maurício Bonato: Adhemar, o que vc faz atualmente?
Adhemar: Atualmente eu tomo conta de um projeto social chamado "Bom de Bola, Bom na Escola" e tenho acesso à base do Audax, trabalho com os jogadores até 17 anos, não está fácil, mas o projeto social me agrada demais, ver o sorriso de uma criança é demais, é o único no dia

MB: Fale sobre seu projeto social
A: No projeto temos crianças, meninos e meninas de 3 a 13 anos, as meninas até 15 anos, as crianças praticam futebol durante 3 horas semanais, de terça, quinta e sábado. A gente tinha um curso de espanhol com uma professora voluntária e sabemos que o esporte é preventivo para tirar os nossos jovens das drogas, de problemas de saúde.

Se tivermos um investimento dessa área social no esporte, teremos menos delinquentes e menos pessoas doentes, assim se gastará menos com saúde e segurança, se cada um fizer sua parte, com certeza, podemos melhorar esse planeta.”

Adhemar brilhou no São Caetano no início dos anos 2000
Arquivo iG
Adhemar brilhou no São Caetano no início dos anos 2000

MB: Em um clube de futebol, você gostaria de ser treinador ou trabalhar na administração
A: Eu gostaria de ser um dirigente, administrador, alguém que pudesse fazer a função de interligar jogador, treinador e presidente. Existe uma lacuna muito grande entre jogador e presidente, por exemplo, que é preenchida pelo empresário que nem sempre trata a coisa da melhor maneira. Até poderia ser criada uma outra função no futebol, além do gerente, pra deixar o atleta ciente do que é um clube, como defender as cores de uma agremiação, porque o atleta nem sabe como funciona um clube de verdade numa gestão profissional

MB: Você tem algum projeto para os próximos anos?
A: Tenho sim, em ser diretor ou trabalhar na parte administrativa do A.D. São Caetano. Poder passar para os jogadores mais jovens o que é participar de um Campeonato Paulista, jogar num time estruturado, o que pode ajudar a acelerar o amadurecimento de alguns atletas

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MB: Conte um pouco sobre a estória do seu filho
A: O Nikolas ficava narrando meus gols e ficou famoso, a gente ouvia os jogos na Rádio ABC de Santo André e ele escutava o narrador falando “Adhemarrrr” e ficava imitando, puxava o ‘erre”, sabe como é no interior né? Ficou mais famoso do que eu porque todo mundo pedia pra ele narrar meus gols, ele participou de toda a minha carreira.

Quando eu fui adotá-lo, ele foi apresentado a mais de 40 casais e ninguém quis. Dei entrada na adoção e a assistente social me perguntou se eu sabia o que ele tinha, eu disse que não e que eu só sabia que ele seria meu filho. E aí sem cadastro eu fiquei com a guarda provisória dele porque ele precisava de um tratamento. Ele era soro positivo e Deus opera milagres na vida da gente né?

Impressionante. Quando a gente repetiu o exame com 1 ano de idade, ele não tinha mais carga viral nenhuma, hoje ele vai completar 12 anos, está muito saudável, chegou em casa com 40 dias pesando 1 quilo e 800 gramas e hoje, por Deus, está saudável e curado, vai bem na escola. E não fui eu que o ajudei, ele quem me ajudou e me faz valorizar as pequenas coisas da vida, quando a gente acha que está difícil, ele me ensina que a vida tem coisas muito bonitas. Hoje ele está curado e é uma maravilha.”

Adhemar com os filhos Ayeska, Kaynan e Nikolas
Arquivo pessoal
Adhemar com os filhos Ayeska, Kaynan e Nikolas

MB: Sua passagem pelo São Caetano foi marcante no início dos anos 2000. A que se deveu tamanho sucesso do Azulão?
A: Realmente foi marcante. Um time de pequena expressão naquele ano, que teve a virada de mesa da Copa João Havelange, fizemos frente aos grandes e chegamos na final. Foi muito legal para todos os atletas, que buscavam algo maior jogando no São Caetano, nós buscávamos Europa, times grandes daqui e todos, na maioria, realizaram seus sonhos e também em chegar na seleção brasileira e eu fico muito feliz em ter feito parte daquela equipe

Adhemar comemorando gol pelo São Caetano
Arquivo iG
Adhemar comemorando gol pelo São Caetano

MB: Atualmente o São Caetano passa por dificuldades, na sua opinião, o problema lá é investimento?
A: Não é investimento. O clube tem uma estrutura por trás disso tudo ainda, eu acho que a forma com que estão encarando o clube, a metodologia, a maneira de se trabalhar, estão contratando jogadores consagrados no futebol nacional e de repente o jogador não se encaixa nesse perfil para buscar algo maior. O jogador faz o contrato e se preocupa em receber, o esquema de contratações hoje é bem diferente do que era na minha época

MB: Você já jogou futebol americano, conte essa experiência...
A: Eu fui chamado para fazer um teste como “kicker” (chutador) numa equipe americana e fiz o teste aqui no Brasil. De 10 bolas eu acertei 9 de 50 jardas, um bom índice né? Mas aí tinha todo o problema burocrático, tinha que ir pra Universidade lá pra ser “draftado”, aí eu preferi ficar no Brasil porque com família, ia ter uma série de problemas pra ter visto americano, eu optei ficar por aqui e joguei a Liga Paulista pelo São Caetano Blue Birds e consegui os 3 pontos da história do clube, um Fieldgoal de 43 jardas contra o Corinthians e foi marcante, além de maior artilheiro da história fui o primeiro pontuador do Blue Birds 

MB: E a experiência como comentarista?
A: Ah eu adorei, se tivesse um outro convite seria um prazer, porque a gente viveu ali, sabe as situações que acontecem dentro do campo, um jornalista que estudou, não tem a visão que a gente tem, claro que um jornalista aprende com a gente e a gente com ele, essa mescla fica legal, quando narrador te deixa à vontade.

Teve um fato interessante com o Sílvio Luiz, ícone da narração, no Bandsports. Num lance, um atacante alemão errou um chute e a bola foi por cima. E ele soltou o bordão “pelas barbas do profeta, essa até eu faria...” e eu pedi o replay do lance, porque eu achei que a bola tinha tocado em algum obstáculo e havia subido.

E realmente, quando veio o replay em câmera lenta, o zagueiro deu um carrinho e subiu uma placa de grama e a bola bateu na placa e subiu, quando o atacante fez o movimento pra empurrar pro gol, a bola bateu na canela e subiu, então a gente consegue ver uns detalhes que às vezes o jornalista por não ter vivido isso no campo não consegue, eu acho essa mescla perfeita entre ex-atleta e jornalista

Adhemar chegou a trabalhar como comentarista na Band. Na foto, com Silvio Luiz
Arquivo pessoal
Adhemar chegou a trabalhar como comentarista na Band. Na foto, com Silvio Luiz

MB: Você gostaria de voltar a comentar?
A: Ah claro, gostaria muito, o futebol é a minha vida, começo a assistir jogo do Holandês no sábado e vou terminar no domingo à noite assistindo o futebol americano. Futebol é muito bom, apesar do nosso estar muito burocrático, mas eu ainda sou daqueles saudosistas que amam realmente o futebol, precisamos melhorar muito para voltarmos a ser os primeiros no mundo, mas seria uma honra poder voltar a comentar.

Não “cornetando”, mas abrindo os olhos dos dirigentes e empresários que fazem do nosso futebol um comércio, só que logo a matéria prima nossa não será suficiente para a Europa

MB: Conte um pouco de sua experiência na Alemanha... tem alguma estória engraçada?
A: A minha experiência na Alemanha foi fantástica, eu já cheguei “quebrando”, cheguei no aeroporto em Frankfurt, o avião pousando e eu pensei comigo... falei para o tradutor: “cara, o pessoal aqui gasta muito sabão em pós pra lavar a pista de pouso do aeroporto, pra lavar essa pista é muito dinheiro e eu vi uma espuma no canto da posta, eu não sabia que era neve, nunca tinha visto neve.” Aí o tradutor falou: "nem vou falar nada porque vc vai começar errado".

Desci de blazer e achei que estava bem, quando saí na porta do aeroporto parecia que eu tinha tomado um soco no rosto, aquele vento gelado. Saí do Rio de Janeiro onde joguei a final do brasileiro com 40 graus e cheguei na Alemanha com -5 graus, foi uma loucura.

Além dessa estória da neve, tem outras tantas. Mas uma foi a da piscina, fui no hipermercado e comprei uma piscina gigante, paguei 20 euros, piscina inflável, bonita com armação. Montei no apartamento que eu morava, montei na varanda e a criançada começou a nadar e sabe como é brasileiro né, esmola demais o santo desconfia.

Aí quando eu fui pagar a conta de água, a piscina não tinha filtro e tinha que trocar a água toda hora e era muita água, quando fui pagar a primeira conta de água, quase 2 mil euros... Aí quando vc acha que tá levando vantagem, faz burrada, aí eu entendi porque a piscina era muito barata

Adhemar comemora gol pelo Stuttgart
Getty Images
Adhemar comemora gol pelo Stuttgart

MB: Você jogou na Coreia do Sul e Japão
A: Sim, na Coreia é muito boa a carne de cachorro

MB: Qual foi o goleiro mais difícil a ser batido?
A: Para mim foi o Dida, ele era muito frio, não demonstrava emoção nenhuma na falta, no pênalti e aí o batedor precisa conhecer a ação do goleiro para ter uma reação, os outros eu olha e via a movimentação e ele não me dava essa chance

Dida foi o melhor goleiro que Adhemar já enfrentou
Lucas Uebel/Getty Images
Dida foi o melhor goleiro que Adhemar já enfrentou

MB: Qual time você gostaria de ter jogado e não jogou?
A: Gostaria de ter jogado em qualquer clube grande do Brasil para sentir como é a torcida

Dica do Narrador

Mantenha a calma e serenidade quando acontecer qualquer problema na transmissão, lembre-se que você é o comandante e a voz do canal no momento do evento esportivo.

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Esse foi o papo com Adhemar . Exemplo dentro e fora de campo. O mundo precisa de mais "Adhemares".

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