Promessas, traições e mágoas: a cronologia do caso Ronaldinho

Segundo times, Assis deu “ok” para Palmeiras e Grêmio ao mesmo tempo. Mas foi o Flamengo que o levou

Paulo Passos e Pedro Taveira, iG São Paulo * | 10/01/2011 08:20 - Atualizada em 11/01/2011 09:55

Compartilhar:

Ingredientes de uma grande trama não faltaram. Promessas, traições, intrigas, mal-entendidos, juras de amor e, é claro, rompimentos e mágoas marcam as tratativas para Ronaldinho Gaúcho voltar a jogar no Brasil. Por meia de mensagens de celular, e-mails, conversas telefônicas e encontros ao vivo, Roberto de Assis Moreira negociou há mais de seis meses o retorno de seu irmão.

O interesse de Ronaldinho surgiu quando Leonardo o colocou no banco de reservas do Milan na última temporada. O substituto, o italiano Massimiliano Allegri, não mostrou a mesma boa vontade do brasileiro para tolerar as escapadas do astro. Sem a mesma condição física da época do Barcelona, ele acabou indo para a reserva, o que aumentou a “saudade” do Brasil.

Foto: AE

Quem dá mais? Através de seu irmão, Ronaldinho negociou com Palmeiras, Grêmio e Flamengo

Após 10 anos no exterior, Ronaldinho deu ao irmão Assis a missão de acertar sua volta para casa. Essa era a promessa do ex-jogador e empresário a quem o procurava. O “namoro” aconteceu com três pretendentes ao mesmo tempo – Palmeiras, Grêmio e Flamengo - e teve muitas idas e vindas até acabar em favor do clube carioca. Confira abaixo a cronologia da “novela” Ronaldinho:

Julho – Palmeiras e Flamengo flertam
O agente Roberto Tadeu apresenta ao Palmeiras um projeto para tentar trazer Ronaldinho Gaúcho. O presidente do clube paulista, Luiz Gonzaga Belluzo, gosta da ideia e dá “ok” para o agente negociar com o estafe do jogador . A partir daí, Tadeu, que atua há 16 anos no futebol e tem boas relações com o Palmeiras, iniciou a negociação com Roberto de Assis Moreira, irmão e agente do jogador.

Também no mesmo mês, o Flamengo fez a primeira investida no astro do Milan. Assis conversou com Patrícia Amorim, que se interessou pelo negócio, mas freou as tratativas quando soube que o Milan não abriria mão da multa rescisória, já que tem contrato com Ronaldinho até junho de 2011.

Segundo Roberto Tadeu, Assis teria dito que não queria o irmão jogando no clube carioca. “Ele disse que não tinha interesse em levar Ronaldinho para o Rio de Janeiro por achar que o Flamengo não tinha estrutura financeira para pagar o jogador e temia alguns possíveis problemas na noite de lá”, disse.

Setembro – Grêmio inicia conversas

Foto: Gazeta Press Ampliar

Ainda criança, Ronaldinho começou a jogar no Grêmio

Segundo o Grêmio, o primeiro contato com Assis aconteceu no dia 20 de setembro. O agente teria dito que Ronaldinho queria voltar ao clube gaúcho, para ficar na sua cidade e disputar a Copa de 2014.

Recém eleito presidente do Grêmio e então candidato a deputado estadual – cargo para qual foi eleito em outubro –, Paulo Odone tinha como sonho ser o responsável pela reconciliação de Ronaldinho com o Grêmio. Conhecia Assis desde a década de 80, quando, como dirigente, assinou o primeiro contrato da então promessa.

Novembro – Felipão entra na briga
Em São Paulo, Palmeiras e Assis voltam a se reunir. Segundo Roberto Tadeu, o técnico do time, Luiz Felipe Scolari, participou do encontro. Felipão, que trabalhou com Ronaldinho na seleção brasileira, era tido como uma arma do clube para convencer o jogador.

“Naquele momento começamos a sentir que tínhamos outros adversários. O Assis nos disse que o único clube que poderia nos atrapalhar era o Grêmio, pela estrutura e pela história do clube. Novamente o agente disse que não gostaria de ver o irmão atuando no Rio de Janeiro”, lembra Tadeu.

Dezembro – Grêmio ouve “sim” e Fla reata negociações
Após conversas por telefone e trocas de email, diretoria do Grêmio e Assis voltam a se encontrar. No dia 19, o agente participa de uma reunião com a diretoria do clube na casa do vice-presidente, Ricardo Vontobel.

O empresário gaúcho, presidente da Vonpar, responsável pela fabricação e distribuição da Coca-cola e outras bebidas no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, era o homem responsável por conseguir empresas parceiras para financiar o negócio. No encontro, as partes acertam detalhes do contrato. Após quatro horas de conversa, Vontobel propõem um brinde com Assis para celebrar o retorno de Ronaldinho ao Grêmio.

Foto: AE Ampliar

Enquanto Assis negociava, Ronaldinho curtia a folga no Brasil

Dois dias depois, o Flamengo volta a apresentar ao estafe do jogador um projeto para repatriá-lo. Mesmo após o “sim” ao Grêmio, Assis reabre as negociações com o clube carioca, que aproveita a ida do vice-presidente do Milan, Adriano Galliani, ao Rio de Janeiro para se aproximar do italiano. A empresa de marketing esportivo Traffic, que tem parceria com o Palmeiras e negocia com o Grêmio, oferece ajuda ao Flamengo para levantar recursos para a contratação.

Enquanto o irmão negocia, Ronaldinho curte a folga de natal no Brasil. Em Porto Alegre, vai à casa de shows da família, na companhia da Vagner Love e Adriano. Após uma semana, viaja para Dubai, para treinar com o Milan.

Através do diretor Umberto Gandini, os italianos avisam que o jogador tem contrato com o clube e que, “por enquanto”, permanecerá em Milão. No Rio de Janeiro, Galliani volta a se encontrar com Assis. O agente ouve do cartola que os interessados terão que pagar uma multa ao Milan.
Publicamente, o irmão de Ronaldinho alerta os dirigentes gaúchos. “Claro que seria excitante voltar para casa. Mas o Grêmio tem que se mexer. Tento fazer o meu máximo, mas, se não acontecer, não posso fazer mais nada, a culpa não é minha“, afirmou ao jornal Zero Hora.

Em Dubai, Ronaldinho não treina no dia 31 e é liberado pelo Milan para voltar ao Brasil.

Janeiro – Negociatas em churrascaria, “quase” festa no Olímpico e desistência
No primeiro dia de 2011, Ronaldinho chega ao Brasil para definir seu futuro. No Rio de Janeiro, o astro curte férias, enquanto o seu irmão segue negociando com Grêmio, Palmeiras e Flamengo.

Foto: AE Ampliar

Tadeu abriu as portas do Palmeiras para o Gaúcho

O dia 2 de janeiro é intenso para Assis. Em uma churrascaria, o agente se encontra com Roberto Tadeu, que mostra o projeto final do Palmeiras. Segundo o intermediário do clube paulista, Assis pediu mais dinheiro. “Trabalhamos forte, com mais de 30 ligações, e levantamos a quantia. Conseguimos o valor e ele voltou para a churrascaria. Ele olhou e falou que nos reuniríamos na segunda ou terça em São Paulo para finalizar os detalhes do contrato”, lembra.

A resposta não veio. As ligações feitas ao agente não eram atendidas e as respostas vinham apenas através de mensagens de celular.

No mesmo dia, o irmão de Ronaldinho se encontra com o Flamengo e adianta as tratativas com o clube e a Traffic. No Uruguai, os cartolas gremistas se dizem tranqüilos e confiantes num acerto com o jogador.

Na terça-feira, dia 4, o jornal Gazzetta dello Sport, da Itália, informa que destino do jogador será o Grêmio. As partes negam o acerto, mas um dia depois, o Grêmio dá como certo o negócio. Segundo o presidente Paulo Odone, clube fez a sétima alteração no contrato, por solicitação de Assis.

Enquanto isso, Galliani convoca uma entrevista coletiva no Rio de Janeiro na quinta-feira, dia 5. No Copacabana Palace, além do cartola do Milan, Ronaldinho e seu irmão aparecem. O clube italiano revela que o jogador não seguirá na equipe, mas diz que os interessados terão que falar com ele. Assis provoca risos da platéia de mais de 200 jornalistas ao afirmar: "Agora estamos liberados para começar a conversar com outros clubes".

Foto: AE

Funcionários do Grêmio tiveram que retirar as caixas de som colocadas para festa da "quase" chegada de Ronaldinho

Do lado de fora do hotel, centenas de flamenguistas pedem para o meia-atacante acertar com o time. Clima semelhante ao encontrado no Olímpico, em Porto Alegre, um dia depois. Até a direção do clube se preparou para a festa, que não ocorreu. Caixas de som foram colocadas – e depois retiradas - no gramado do estádio. Ronaldinho não chegou e a festa foi adiata.

No sábado, sem Assis, o Flamengo se encontra com o vice-presidente do Milan. Na saída da reunião, Galliani diz que Ronaldinho era 99,9% jogador do clube carioca. Horas depois, Paulo Odone se pronuncia e afirma que o Grêmio desiste do negócio.

Na manhã de domingo, o Palmeiras toma a mesma decisão, abrindo ainda mais o caminho para Ronaldinho acertar com o Flamengo.

Na segunda-feira, Roberto Assis e a diretoria do Flamengo se reuniram no Hotel Windsor, no Rio de Janeiro, para discutir os termos do contrato de Ronaldinho Gaúcho com o clube, com duração de três anos e meio.

No fim da tarde, o negócio é confirmado pelas partes e única coisa que separa jogador do clube carioca são algumas cláusulas do contrato que foram acertadas e serão analisadas pelos advogados das duas partes.

Na noite de segunda-feira, no mesmo Hotel Windsor, o contrato que sela a contratação do meia pelo Flamengo é assinado. Ronaldinho Gaúcho é oficialmente jogador do Flamengo.

* colaboraram Danilo Lavieri, Hector Werlang e Vicente Seda

    Notícias Relacionadas


    Ver de novo