Camile, Dinorah e Cristiane tiveram que abrir mão dos sonhos pelo sucesso dos maridos no futebol. Tema virou trabalho acadêmico e originou um grupo secreto no Facebook

O trabalho é em tempo integral e não está registrado na carteira profissional. Mas elas aceitaram a condição de nutricionistas, psicólogas, personal trainers e mães para seguir os passos dos maridos jogadores de futebol. Escondidas atrás da imagem de glamour, com carros importados, jantares em restaurantes badalados e salários astronômicos, estão mulheres atarefadas que deixaram de lado a antiga rotina para se dedicar à família e lutar contra o rótulo de Marias Chuteiras. Para elas, a função que exercem no dia-a-dia é verdadeiramente uma profissão.

Camile ao lado do marido Roger, ex-jogador do Grêmio e hoje técnico de futebol
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Camile ao lado do marido Roger, ex-jogador do Grêmio e hoje técnico de futebol

Esse pensamento motivou Camile Pasqualotto, esposa do ex-jogador Roger, com passagens marcantes por Grêmio  e Fluminense , a realizar um trabalho acadêmico sobre o tema em 2010. Mãe de duas filhas e casada há 20 anos, ela conseguiu conciliar a agenda apertada com os estudos, se formou em administração e fez pós-graduação em psicologia do esporte na Universidade Feevale, no Rio Grande do Sul. Foi lá que apresentou o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) com o tema “A percepção das esposas sobre a profissão de jogador de futebol e o papel na carreira de seus maridos jogadores profissionais de futebol”. Para desmistificar a vida fácil de mulher de jogador, ela entrevistou 11 esposas de atletas já consolidados no futebol brasileiro e comprovou que muitas delas desistiam dos próprios sonhos para ajudar o marido a ter sucesso na carreira.

“É uma vida em que se abdica de muitas coisas, é preciso ser altruísta. O que a mídia vende é apenas uma pontinha do iceberg, porque os momentos difíceis são maiores e incluem cuidar dos filhos e do marido, mudar de cidade a toda hora e não ter horários. Acabamos vivendo em função disso. As esposas deixam a vida profissional para se tornarem a pessoa que cuida das finanças, da imagem e da alimentação dos maridos. Elas abrem mão de um sonho”, disse Pasqualotto em entrevista exclusiva ao iG .

Os sonhos adiados, no entanto, não são as únicas barreiras na vida dessas mulheres. O assédio e as mudanças constantes são algumas das causas do desgaste dos relacionamentos. “Precisa amar muito. Eu vi uns 20 amigos se separarem, e outros que estão no terceiro casamento. É difícil manter o relacionamento por causa da distância, do assédio e da falta de adaptação a uma nova cidade ou país. Mas, em primeiro lugar, é preciso amar muito e ser um pouco nômade. Os dois precisam olhar para o mesmo norte, este é o segredo”, completou.

Dinorah Santa Ana Da Silva é ex-mulher de Daniel Alves. Eles têm dois filhos: Daniel e Vitória
Arquivo pessoal
Dinorah Santa Ana Da Silva é ex-mulher de Daniel Alves. Eles têm dois filhos: Daniel e Vitória

Quem também vive essa realidade é Dinorah Santa Ana Da Silva, ex-mulher de Daniel Alves, lateral-direito do Barcelona . Apesar de estar separada do jogador há três anos, é ela quem administra a carreira dele e as cinco empresas das quais são sócios. O negócio se expandiu tanto que ela se tornou agente certificada pela Fifa e proprietária majoritária do Unió Esportiva Sant Andreu, clube de Barcelona.

“A todo o momento nós temos que nos certificar se a alimentação deles está correta, se está bem psicologicamente, além de cuidar dos filhos. É realmente uma profissão. Quando o meu filho tinha três anos, o Daniel estava em casa antes do jogo e ele caiu e quebrou o braço. O Daniel foi para o jogo, e eu, para o hospital. Às vezes, ele estava fora do país e eu tinha que me virar. É difícil”, contou à reportagem.

Dinorah se tornou empresária de jogador sem nunca ter planejado. Tudo aconteceu quando Daniel Alves teve problema com o ex-empresário e colocou um dos advogados da própria empresa na função. Mas durou pouco. “Eu não tinha esse propósito, mas foi acontecendo de uma maneira muito natural. Estudei para o exame da Fifa e logo passei de primeira. Fiquei surpresa porque não esperava passar na primeira, mesmo tendo estudado muito. As pessoas não entendem como posso ainda trabalhar com o Daniel, mas para mim é normal por temos empresas e nossos filho. Não é porque o casamento acabou que guardamos ódio e mágoa. Ficam o carinho e o respeito”, declarou.

Cristiane Fetal e Rafael Silva posam para foto durante a gestação da filha Rafaella
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Cristiane Fetal e Rafael Silva posam para foto durante a gestação da filha Rafaella

Assim como Camile e Dinorah, Cristiane Fetal, esposa de Rafael Silva, atacante do Vasco e campeão paulista pelo Ituano, também entende bem o mundo que cerca o futebol. Ela largou o emprego de vendedora e se despediu da família para viver ao lado do homem que ama. “Muita gente foi contra no começo, desde amigos a parentes e chefes. Ninguém achava certo depender de homem”, conta ela.

Cristiane e Rafael se conheceram em uma festa entre amigos em comum quando ele jogava no Noroeste, da cidade de Bauru. A partir daquele momento, não se desgrudaram mais. Chegaram a mudar de cidade três vezes em um ano e planejaram o nascimento da filha Rafaella, hoje com dois anos de idade. “A gente quase enlouqueceu”, lembra ela.

Já morando no Rio de Janeiro, o casal teve o segundo filho, Pedro, de apenas três meses. Diferentemente da primeira gestação, Cristiane teve um parto bastante complicado, e o pior: longe de família e amigos. "Eu estava grávida, morando em uma cidade nova, com uma criança de um ano e meio. Quase perdi o neném e cheguei a ser internada. Meu filho nasceu às 8h30 e passei três dias sozinha no hospital. Eu saí do hospital porque o taxista assinou se responsabilizando. Não é fácil, eles nunca estão presentes”.

Para que possam se ajudar, cerca de quatro mil mulheres de jogadores de futebol mantêm um grupo secreto no Facebook, onde trocam mensagens e dicas sobre cidades e filhos. “Muitos pensam que todos os jogadores de futebol são ricos, mas existem muitos outros que estão desempregados ou que ganham pouco e precisam de ajuda. Fazemos campanha e arrecadamos dinheiro para comprar roupas, fraldas... Mas ninguém fala”, revela Fetal.

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