Andreia de Oliveira, mãe de Christian, falou sobre tragédia do Ninho
Márcio Neves
Andreia de Oliveira, mãe de Christian, falou sobre tragédia do Ninho

A dor vai dando espaço à saudade. Quando vê Hugo Neneca no gol do Flamengo, Andreia de Oliveira lembra do potencial do filho Christian Esmério, goleiro que treinou junto com o atual titular e tinha passagem por seleção de base.  Mesmo dois anos após o incêndio — completados nesta segunda-feira — no Ninho do Urubu, que matou dez jovens das categorias de base do Rubro-Negro, ela resiste a um acordo financeiro, ao lado do pai do garoto, Cristiano, apesar dos apelos recentes do clube para fechar com a última família restante.

— Hoje sinto mais saudade. Saudade de ter a presença do meu filho. No primeiro ano, a gente não conseguia aceitar. Vejo os meninos que jogavam com ele crescendo e penso em como estaria agora. Dói muito — disse Andreia.



Todos os outros nove jovens mortos já tiveram ao menos um representante convencido pelo Flamengo a aceitar os valores de pensão e indenização. A mãe de Rykelmo Viana é a única que foi à Justiça. Os pais de Christian aguardam o fim das investigações para seguir o mesmo caminho. E pensam no legado do filho.

Nesta segunda-feira, um projeto social será inaugurado em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, em homenagem ao ex-goleiro e a Samuel Thomas Rosa, cujos familiares chegaram a um acordo com o Flamengo no meio do ano passado. Com foco no esporte e em educação, a ideia é que os pais também atuem juntos a crianças carentes para que elas tenham a chance de realizar o sonho que seus filhos não conseguiram. A atividade é uma forma de os próprios pais superarem o luto.

— Desde que meu filho morreu evitei fazer planos. Não consigo pensar na frente. Mas vou atuar no projeto. Ajudar a realizar o sonho e criar esperança em outros jovens, para acreditar que podem chegar até mais longe. Infelizmente o Flamengo interrompeu o sonho do meu filho — desabafou Andreia.

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Demitida do trabalho como frentista, ela se segurou com apoio psicológico pago pelo Flamengo, mas nos últimos meses o contato não foi mais presencial. Parentes e amigos próximos também só deram suporte à distância por causa da pandemia.

Andreia disse ainda que sente o progresso com a terapia por vídeochamada, mas ao ficar “presa” em casa se pega mais deprimida e cabisbaixa.

Pouca conversa

Pai do ex-goleiro, Cristiano se diz sem tempo e sem vontade para falar sobre a tragédia. Mantém o foco no trabalho, enquanto divide com a ex-mulher o valor de R$ 5 mil pago pelo Flamengo para quem ainda não fechou acordo. O valor foi reduzido pela metade por decisão judicial. Os diálogos sobre a perda e a indenização são escassos. Surgem por exemplo quando há novidades nas investigações, como o indiciamento de dirigentes feito pelo Ministério Público e aceito pela Justiça do Rio, entre eles o do ex-presidente do clube Eduardo Bandeira de Mello.

— Graças a Deus, mesmo devagar, é isso que conforta — admitiu Andreia.

Mas o ano da saudade foi também de renovação. A família ganhou um neto de seu filho mais velho. Aos dois meses, Gael faz os avós focarem a atenção em uma nova vida, que não substituiu a que se foi, mas desvia a dor quando ela vem forte, segundo Andreia.

Até o momento, o Flamengo chegou a acordo com familiares de Samuel Thomas, Athila Paixão, Bernardo Piseta, Gedson Santos, Jorge Eduardo, Vitor Isaias, Arthur Vinicius, Pablo Henrique e com o pai de Rykelmo Viana.

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