Bangu e Coritiba disputam a final do Brasileirão de 1985, no Maracanã
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Bangu e Coritiba disputam a final do Brasileirão de 1985, no Maracanã

Em 1985, o Brasileirão teve um campeão totalmente inesperado. Aliás, uma final totalmente inesperada.

Os grandes clubes do futebol do Brasil foram sendo eliminados ao longo de várias fases do campeonato, até restarem no final dois times que estavam bem longe de serem os mais cotados a levantar a taça.

No ano de 1985 a CBF decidiu, pela milésima vez, mudar o regulamento do Campeonato Brasileiro, que nessa época ainda não tinha critérios muito claros pra definir o que era primeira divisão, o que era segunda divisão, se algum time seria rebaixado, ou se não seria... O futebol brasileiro era uma grande bagunça.

O Brasileirão de 1985 torneio foi disputado por 44 times, divididos na primeira fase em 4 grupos.

Os grupos A e B tinham 10 times cada um e nesses grupos estavam os 20 clubes com melhor colocação no ranking da CBF.

Nesta lista estavam Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos, Portuguesa, Guarani, Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, América/RJ, Grêmio, Internacional, Atlético/MG, Cruzeiro, Coritiba, Goiás, Náutico, Santa Cruz e Bahia.

Os grupos C e D somados tinham 24 times: 12 times em cada um.

Esses clubes eram os melhores colocados de 22 campeonatos estaduais de 1984, somados a Uberlândia e Remo, campeão e vice-campeão da Taça CBF de 1984, uma espécie de Série B de 1984.

Os integrantes dos grupos C e D eram Ponte Preta, Bangu, Villa Nova de Minas Gerais, Uberlândia, Desportiva Ferroviária, Brasil de Pelotas, Pinheiros do Paraná, Joinville, Brasília, Vila Nova de Goiás, Corumbaense, Mixto, Sport, Ceará, CSA, Leônico, Sergipe, Sampaio Corrêa, Flamengo do Piauí, ABC, Botafogo da Paraíba, Paysandu, Remo e Nacional do Amazonas.

As regras confusas do Brasileirão

Os grupos C e D reuniam os melhores colocados dos campeonatos estaduais, exceto se esses times estivessem entre os 20 melhores do ranking da CBF.

Por exemplo, no Rio Grande do Sul o campeão estadual de 1984 foi o Internacional e o vice ficou com o Grêmio. Os dois times estavam no ranking da CBF e, por isso, estavam incluídos nos grupos A e B do Brasileirão de 1985. Então, a vaga no Brasileirão foi para o Brasil de Pelotas, terceiro colocado no Gauchão de 84.

Na teoria, os grupos A e B do Brasileirão de 1985 reuniam os times mais fortes do Brasil, mas no fim das contas isso era ruim para aqueles que estavam nesses grupos.

O regulamento da competição previa que 4 times de cada grupo avançassem para a segunda fase, e nessa segunda fase todo mundo se enfrentaria de igual pra igual. Ou seja, não havia uma vantagem em estar presente nos grupos mais fortes.

No grupo A, por exemplo, você tinha que eliminar Grêmio, Botafogo, Corinthians, Palmeiras e Atlético Mineiro.

No grupo D os adversários eram Leônico, Corumbaense, Pinheiros e Uberlândia, times tecnicamente mais fracos.

O regulamento da primeira fase do Brasileirão, claro, não poderia ser simples. A CBF tinha que dar um jeito de complicar.

Em cada um dos grupos, os times se enfrentariam em turno e returno. Avançariam pra segunda fase o campeão do 1º turno, o campeão do 2º turno e os 2 times que tivessem a melhor pontuação somando os pontos dos dois turnos.

No grupo A, o Atlético Mineiro venceu o 1º turno e o Coritiba liderou o 2º. Assim, os dois times se garantiram na segunda fase.

O Atlético Mineiro também fez a melhor pontuação geral, mas como ele já estava na segunda fase por ter vencido o 1º turno, as outras duas vagas ficaram com Corinthians e Guarani, que tiveram a segunda e terceira melhor pontuação no geral.

No grupo B, os classificados foram Bahia, Vasco, Flamengo e Internacional.

No grupo C, avançaram Sport, Ceará, Mixto e CSA.

No grupo D, se classificaram Bangu, Ponte Preta, Joinville e Brasil de Pelotas.

A segunda fase da competição

Na 2ª fase, os 16 classificados foram divididos em 4 grupos. Em cada grupo ficavam 2 times dos grupos mais fortes lá da primeira fase e 2 times dos grupos mais fracos.

Todos jogavam contra todos em turno único e somente o primeiro colocado de cada grupo se garantia na fase final.

Os classificados foram Atlético Mineiro, Brasil de Pelotas, Coritiba e Bangu.

Ficaram pelo caminho os times considerados mais tradicionais: Flamengo, Corinthians, Vasco e Internacional.

Bangu garante a inédita vaga na final

Nas semifinais, os jogos foram disputados em ida e volta.

Em uma das chaves, o Bangu enfrentou o Brasil de Pelotas.

O primeiro jogo foi realizado no Estádio Olímpico, em Porto Alegre, cidade que fica a mais de 250 quilômetros de Pelotas. O motivo da mudança do mando de campo foi polêmico.

O responsável por tirar o jogo de Pelotas e levar pra Porto Alegre foi o contraventor, bicheiro e presidente de honra do Bangu, o Castor de Andrade.

O Castor usava seus poderes pra mandar e desmandar onde podia e conseguiu convencer a CBF proibir a partida no estádio do Brasil de Pelotas, o que deixou os torcedores pelotenses bastante revoltados.

Mesmo com a longa distância entre Pelotas e a capital gaúcha, mais de 10 mil torcedores em mais de 100 ônibus foram até Porto Alegre assistir à partida.

O Bangu acabou vencendo por 1 a 0, com um gol contra do Jorge Batata.

O Brasil de Pelotas jogou bem e teve muitas oportunidades de empatar e até mesmo virar o placar, mas não conseguiu vencer o goleiro Gilmar, e o placar acabou terminando 1 a 0 pro Bangu.

O jogo da volta rolou 4 dias depois, no Maracanã, e quem abriu o placar foi o Bangu, com um gol do Ado.

No segundo tempo o Marinho fez o segundo do Bangu e o Bira descontou para o Brasil de Pelotas.

O Marinho fez mais um pro Bangu em uma belíssima jogada. Final de jogo, Bangu 3, Brasil de Pelotas 1.

O Bangu estava classificado para a final do Brasileirão de 1985.

Coxa também vai para a decisão

Na outra semifinal, Atlético Mineiro e Coritiba se enfrentaram também em jogos de ida e volta.

No primeiro jogo, no estádio Couto Pereira, o Coritiba venceu por 1 a 0, com um gol do Heraldo.

Na partida de volta, no Mineirão, o placar ficou zerado, graças ao goleiro Rafael do Coritiba, que salvou uma bola em cima da linha, em um lance bastante polêmico que gera discussão até os dias de hoje.

Com o placar agregado, o Coritiba se classificava pra final para enfrentar o Bangu.

Os jogos de volta das semifinais foram disputados no dia 28 de julho, um domingo, e a final estava programada pro dia 31, uma quarta-feira.

O Castor de Andrade queria que a final fosse adiada para o domingo, um dia mais tradicional pro futebol. Mas dessa vez não teve jeito, a influência do dirigente não funcionou e a final foi confirmada para quarta-feira.

Final entre surpresas do campeonato

A decisão seria disputada em jogo único e o Bangu, por ter melhor campanha no campeonato, teve o direito de escolher o estádio. Naturalmente, o escolhido foi o Maracanã.

Um dia antes da partida o pessoal do Bangu já comemorava o título brasileiro antecipadamente, afinal eles acreditavam que venceriam o Coritiba com certa facilidade.

Uma prova disso é que um dia antes da final, o técnico do Bangu, o Moisés de Andrade, foi flagrado na praia tomando chopp e comendo camarão junto com alguns jogadores do Bangu.

Os jogadores do Coritiba, que estavam no hotel no Rio de Janeiro, assistiram às imagens e levaram aquilo como provocação, o que acabou motivando ainda mais a equipe paranaense na final.

As arquibancadas do Maracanã ficaram lotadas de torcedores do Bangu e também dos outros quatro grandes do Rio de Janeiro, todos apoiando o Bangu em busca do seu primeiro título brasileiro.

Mas quem começou melhor na partida foi o Coritiba. O Toby foi derrubado e o árbitro Romualdo Arppi Filho marcou a falta. Na cobrança o Índio abriu o placar para o Coritiba, aos 26 minutos do primeiro tempo.

Pouco tempo depois, o Marinho cobrou falta para o Bangu e o Rafael fez uma ótima defesa, mandando a bola para escanteio.

O Bangu cobrou rápido, levantou a bola para a área e a zaga do Coritiba tentou afastar de qualquer jeito.

A bola sobrou para o Lulinha, que mandou para o gol, empatando a partida.

No segundo tempo, as melhores chances foram do Bangu, que parou nas mãos do goleiro Rafael.

Com o empate em 1 a 1 no tempo normal, a partida foi para a prorrogação. Mais 30 minutos de bola rolando.

No tempo extra, o Bangu continuava com as melhores oportunidades de abrir o placar, mas nada da bola entrar. Com o placar permanecendo inalterado, a decisão do Brasileirão de 1985 foi para os pênaltis.

Esse seria o segundo Campeonato Brasileiro da história decidido nas penalidades - o primeiro foi o de 1977, vencido pelo São Paulo.

Brasileirão decidido na marca da cal

Quem inaugurou as cobranças dos pênaltis foi o Bangu. O Gilson cobrou e converteu.

O Índio, autor do gol do Coritiba no tempo normal, também converteu a cobrança. 1 a 1.

O Pingo fez mais um pro Bangu e o Marco Aurélio empatou de novo. 2 a 2.

O Baby fez o terceiro do Bangu e o Édson o terceiro do Coritiba.

O Mário fez o quarto gol do Bangu e o Lela empatou de novo. 4 a 4.

O Marinho fez o quinto do Bangu e o próximo a cobrar pelo Coritiba era o Vavá, que entrou em campo praticamente no final da prorrogação apenas para bater o pênalti e não desperdiçou. 5 a 5.

O aproveitamento até então era 100%. 5 cobranças de cada lado e todas convertidas.

A partir do sexto pênalti, a decisão seria em cobranças alternadas, ou seja, se alguém desperdiçasse um pênalti e o outro time marcasse, esse time seria o campeão.

O Ado, do Bangu, foi para a cobrança e chutou para fora.

O Gomes tinha a enorme responsabilidade de dar o primeiro título brasileiro para o Coritiba. Se ele fizesse, o Coxa era campeão. E assim foi feito, o Gomes converteu o seu pênalti e os jogadores e a torcida do Coritiba enfim puderam comemorar. Coritiba campeão brasileiro de 1985.

O Bangu, apesar de ter ficado com o vice, conseguiu emplacar 4 jogadores no Prêmio Bola de Prata, que reúne os melhores jogadores do campeonato. O Coritiba teve apenas um representante, o goleiro Rafael.

O técnico do Cixa, o Ênio Andrade, conquistou o seu terceiro título brasileiro, após ter sido campeão com o Internacional em 79 e com o Grêmio em 81.

Apesar do título, os jogadores e a comissão técnica do Coritiba não receberam medalhas em campo, como é tradicionalmente feito em todas as cerimônias de premiação em campeonatos de futebol.

Como não havia um pódio montado pra que os jogadores recebessem as medalhas e erguessem o troféu, as medalhas foram entregues para um representante do Coritiba.

Porém, essas medalhas simplesmente desapareceram. Ninguém sabe até hoje onde elas foram parar.

Ao longo dos anos, várias versões surgiram pra explicar o sumiço das medalhas. A CBF, quando consultada, disse que não fazia a menor ideia do que aconteceu e nem onde teriam ido parar as medalhas.

Somente em 2025, 40 anos depois da conquista do Coritiba, é que a CBF consertou a bagunça e entregou as medalhas de campeão para 5 ex-jogadores do Coritiba, em uma cerimônia reservada na sede da entidade, no Rio de Janeiro.

A conquista do Brasileirão de 1985 acabou sendo a única taça nacional de relevância conquistada pelo Coritiba até os dias de hoje.

O time ainda venceu duas edições da série B, já na época dos pontos corridos, em 2007 e 2010, e ainda foi duas vezes vice-campeão da Copa do Brasil, em 2011 e 2012.

O Bangu, por outro lado, não conseguiu se manter na elite do futebol e ao longo dos anos sofreu sucessivos rebaixamentos, até mesmo no campeonato carioca.

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