Em 1999, o CSA se tornava o primeiro time do Nordeste brasileiro a chegar numa final continental.
A façanha do time alagoano teve jogadores dormindo no aeroporto, falta de passaporte, arbitragens totalmente tendenciosas e um tanto de histórias curiosas.
No início dos anos 1990 a Confederação Sul-Americana de Futebol criou um torneio que levava o seu nome: Copa Conmebol .
Nessa época somente dois times por país participavam da Copa Libertadores, então a Copa Conmebol foi criada como um torneio secundário, que reunia os melhores times de cada país, exceto os times classificados para a Libertadores.
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Em 1992, ano da primeira edição da Copa Conmebol, participaram os times que ficaram em 2º, 3º e 4º lugares no Brasileirão de 1991, Bragantino, Fluminense e Atlético Mineiro, além do vice-campeão da Copa do Brasil de 1991, o Grêmio.
Ao longo dos anos os critérios de classificação para a Copa Conmebol foram mudando, incluindo a criação de vagas para campeões de torneios como a Copa Norte e a Copa do Nordeste.
O Rio Branco, do Acre, conquistou a Copa Norte de 1997, conseguiu a classificação para a Copa Conmebol do mesmo ano e se tornou o primeiro time da região Norte a jogar uma competição sul-americana.
O começo da decadência da Copa Conmebol
Em 1999 a Conmebol criou mais um torneio, a Copa Mercosul, reunindo times do Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Chile. Para participar dessa competição não existia nenhum critério técnico, bastava um convite da Conmebol e pronto.
A primeira edição da Copa Mercosul é um ótimo exemplo de como funcionava o torneio. Os clubes brasileiros convidados foram Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Flamengo, Vasco, Cruzeiro e Grêmio, ou seja, somente times da primeira prateleira do futebol brasileiro.
Outro torneio criado pela Conmebol na mesma época foi a Copa Merconorte, que reunia times dos outros países da América do Sul, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela, além de times convidados dos Estados Unidos, México e Costa Rica.
A criação das Copa Mercosul e Merconorte causou a morte da Copa Conmebol, já que os principais times da América do Sul se concentravam em jogar primeiramente a Copa Libertadores e, em seguida, a Copa Mercosul ou a Copa Merconorte, já que essas competições pagavam premiações aos times, diferente do que acontecia na Copa Conmebol.
Por esse motivo, a edição derradeira da Copa Conmebol em 1999 ficou esvaziada dos principais times sul-americanos.
Brasileiros improváveis na Copa Conmebol 1999
O Brasil tinha direito a 4 vagas na Copa Conmebol 1999 e a ideia inicial era convidar os times campeões da Copa do Nordeste, da Copa Norte, da Copa Centro-Oeste e da Copa Sul.
O representante do Norte foi o São Raimundo, campeão da Copa Norte de 1999.
O campeão da Copa Centro-Oeste foi o Cruzeiro, que abriu mão da vaga. O classificado foi o vice-campeão, o Vila Nova/GO.
A Copa Sul foi vencida pelo Grêmio, que também abriu mão da vaga, deixando a participação na Copa Conmebol para o vice-campeão, o Paraná.
O presidente do Paraná na época, Dilso Rossi, chegou a afirmar que só aceitou participar da Copa Conmebol porque o time faria viagens curtas, no máximo até Argentina ou Paraguai, e que a prioridade do time seria a disputa do Campeonato Brasileiro.
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Na Copa do Nordeste, o negócio foi ainda pior. O campeão foi o Vitória, que venceu o Bahia na final.
Nenhum dos dois times aceitou jogar a Copa Conmebol, e aí o convite foi estendido ao terceiro colocado, o Sport de Recife, que também rejeitou a vaga.
Só o quarto colocado na Copa do Nordeste de 99 aceitou o convite. Esse time era o CSA.
CSA: de zebra a surpresa do torneio
O CSA foi tetracampeão alagoano em 1999, mas no Brasileiro da série C não fez uma boa campanha, sendo eliminado ainda na primeira fase.
Em setembro de 1999 Arnon de Mello assumiu a presidência do CSA, um mês antes da estreia do time na Copa Conmebol.
Arnon de Mello é filho do ex-presidente do Brasil Fernando Collor de Mello, que também chegou a ser presidente do CSA nos anos 1970.
A primeira decisão do Arnon de Mello na presidência do CSA foi justamente aceitar o convite para participar da Copa Conmebol.
A situação financeira do CSA era caótica e a participação na Copa Conmebol só pioraria as coisas, já que a Conmebol não pagava premiação nem ajuda de custo para as viagens.
A cada jogo a diretoria do CSA precisava fazer uma espécie de vaquinha entre torcedores e conselheiros pra juntar dinheiro suficiente para bancar as viagens.
O escolhido para comandar o time na competição foi Otávio Quadros, ex-jogador do próprio CSA e com passagens também por Botafogo, Internacional e Palmeiras.
A ideia da diretoria era que o Otávio Quadros fosse jogador e técnico ao mesmo tempo, mas ele acabou rejeitando e atuou somente como treinador.
O elenco do CSA era formado basicamente por jogadores das categorias de base, com algumas raras exceções, como o meia Fábio Magrão, emprestado pelo Flamengo.
Quem também fazia parte do elenco era o meia Souza, que anos depois seria bicampeão brasileiro, campeão da Libertadores e campeão mundial pelo São Paulo.
A Copa Conmebol era disputada em formato mata-mata, em jogos de ida e volta, começando já nas oitavas de final.
A estreia do CSA foi contra o Vila Nova/GO, que contava com o atacante Túlio Maravilha.
No primeiro jogo, em Maceió, vitória do CSA por 2 a 0. No jogo da volta, em Goiânia, o Vila Nova devolveu o placar de 2 a 0 e a decisão foi para os pênaltis.
Nas penalidades, deu CSA, classificado para as quartas de final.
O adversário nas quartas seria o Estudiantes de Mérida, da Venezuela. Esse seria o primeiro jogo da história do CSA fora do Brasil.
Vários jogadores do clube brasileiro não tinham passaporte e nem documentos exigidos para a viagem, como certificado de vacinação contra febre amarela. A diretoria teve que correr contra o tempo para deixar todo mundo legalizado para a viagem internacional.
A saga até a cidade de Mérida também foi cheia de percalços, incluindo parte do elenco tendo que passar a noite no saguão do aeroporto de Caracas esperando uma conexão.
Outra parte dos jogadores viajou até a Colômbia de avião e de lá foram de carro até a Venezuela.
O meia Souza acabou tendo a bagagem roubada no aeroporto de Caracas e teve que ficar para trás à espera de uma nova documentação no consulado brasileiro.
Apesar da confusão, o CSA conseguiu segurar o empate em 0 a 0 e levou a decisão pra Maceió. Na volta, jogando no estádio Rei Pelé, o CSA deu show e venceu por 3 a 1, garantindo a festa da torcida e a classificação para a semifinal.
Na semifinal, mais um duelo brasileiro: CSA e São Raimundo.
No jogo de ida, em Manaus, vitória do São Raimundo por 1 a 0. Na volta, em Maceió, vitória do CSA por 2 a 1 e a decisão novamente foi para os pênaltis.
Nas penalidades deu CSA, classificado para a grande final na primeira vez que disputava um torneio internacional.
O final de um sonho
A decisão seria contra o Talleres, da Argentina, time que tinha sido o 16º colocado no campeonato argentino de 1998/1999.
Essa era uma prova do quanto a Copa Conmebol tinha perdido prestígio entre os times sul-americanos.
O representante da Bolívia, o Independiente Petrolero, se classificou por ser o 4º colocado do campeonato boliviano.
O Deportes Concepción, representante chileno, ficou em lugar no campeonato do Chile.
O Atlético Huila foi o 9º colocado do campeonato colombiano.
Os dois times uruguaios que participariam do torneio, o River Plate e o Rentistas, desistiram de jogar em cima da hora e o Uruguai ficou sem representantes na competição.
O primeiro jogo da final entre CSA e Talleres rolou no estádio Rei Pelé, em Maceió.
Mais de 30 mil pessoas lotaram as arquibancadas e viram o Missinho abrir o placar para o CSA logo aos 3 minutos.
Aos 15 minutos, o Fabio Magrão cobrando falta ampliou pro CSA. 2 a 0.
O Aguilar, chutando de fora da área, diminuiu para o Talleres.
O Missinho fez mais um aos 38 do primeiro tempo. CSA 3 a 1.
No segundo tempo, logo aos 2 minutos, o Missinho fez o terceiro dele no jogo e o quarto do CSA. O Missinho inclusive foi o artilheiro da Copa Conmebol de 1999, com 4 gols.
Depois da final, o atacante chegou a negociar uma transferência para o Talleres, mas a diretoria do CSA acabou barrando a negociação.
O Missinho infelizmente morreu bastante jovem, em 2014, aos 39 anos, após um câncer no esôfago.
No jogo contra o Talleres, o CSA ainda teve boas chances de marcar o quinto gol, principalmente depois de jogar boa parte do segundo com um jogador a mais, após a expulsão do lateral Suarez.
Mas aos 41 do segundo tempo, o Talleres diminuiu com um gol de fora da área do Astudillo.
O segundo jogo da final rolou uma semana depois, no estádio Mario Kempes, na cidade de Córdoba. E, claro, rolou aquela famosa catimba argentina.
Os jogadores do CSA foram impedidos de treinar no campo onde seria jogada a final. A saída foi improvisar um treino rápido numa praça próxima ao estádio.
No vestiário antes da final os jogadores do CSA reclamaram bastante de um forte cheiro de tinta, uma tática bastante conhecida para intimidar adversários em jogos sul-americanos.
O presidente do CSA, Arnon de Mello, reclamou que faltou apoio da CBF, já que a confederação brasileira não enviou nenhum representante para acompanhar o CSA na viagem até a Argentina.
A torcida do Talleres lotou as arquibancadas do estádio Mario Kempes e fez uma enorme festa antes da partida.
Logo nos primeiros minutos de jogo, o CSA já sofreu um baque. Depois da marcação de uma falta para o Talleres, os jogadores do CSA ficaram revoltados e partiram para cima do juiz, o paraguaio Ricardo Grance.
O lateral Williams Bidé deu um empurrão no juiz, mas na confusão o árbitro não viu o autor da agressão e expulsou o meia Fábio Magrão.
Com um jogador a menos, o CSA começou a sofrer pressão do time argentino, que perdeu vários gols graças às boas defesas do goleiro Veloso.
Mas aos 39 minutos não teve jeito. O Ricardo Silva abriu o placar para o Talleres.
O segundo tempo foi basicamente ataque contra defesa. O Talleres atacando e o CSA se defendendo como podia.
O time argentino ainda teve um pênalti marcado a seu favor, mas o Cristian Pino desperdiçou a chance de ampliar o placar, chutando para fora.
Aos 30 minutos do segundo tempo o Dario Gigena fez de cabeça o segundo gol do Talleres, gol que empatava a partida, considerando o jogo de ida.
O resultado levaria a decisão para os pênaltis, mas aos 45 do segundo tempo, numa bola que parecia controlada pelo goleiro Veloso, o jogador do Talleres salvou antes da bola sair pela linha de fundo.
Em seguida, cruzamento pra área e gol de cabeça de Maidana.
Aí já não havia tempo pra mais nada. Talleres 3, CSA 0. O time argentino era campeão da Copa Conmebol de 1999.
Esse é até hoje o único título de expressão do Talleres, que nunca venceu nem mesmo o campeonato argentino da primeira divisão.
Atualmente o time até aparece em algumas oportunidades na Libertadores ou na Copa Sul Americana, mas sem nenhuma campanha com destaque.
O CSA nunca mais disputou um torneio internacional e também não tem grandes campanhas a nível nacional.
Em 2018, o time foi vice-campeão da Série B, conquistando o acesso pra Série A.
Mas no Brasileirão de 2019, ficou na zona de rebaixamento e voltou pra Série B em 2020.
Em 2022, o CSA caiu para a Série C, divisão onde o time se encontra até hoje.