Vick Inter
Mariana Capra/Internacional
Vick Inter

Classificado para a semifinal do Campeonato Brasileiro Sub-18 , o Internacional enfrentará o São Paulo  no próximo final de semana, buscando se aproximar da final da competição. Em entrevista para o IG Esportes , a capitã Victória Moura da Silva , conhecida como Vick , contou um pouco sobre sua visão do campeonato e dividiu sua história no clube e dentro da base feminina .

Victória começou a jogar com sete anos em uma escolinha de futebol com meninos, ficando lá até seus onze anos. Após esse período, foi para o Centro Olímpico, onde atuou nas categorias Sub-13, Sub-15 e Sub-17. A jogadora também teve passagens pelo São Paulo , em uma parceria feita com seu clube anterior para jogar o Campeonato Paulista.

A equipe paulista foi campeã e a jogadora considerou tal passagem extremamente marcante para sua carreira. Ela conta que jogou com meninas mais experientes, mas que isso não foi empecilho para sua equipe. Na época estava no Sub-15, mas enfrentou adversárias do Sub-17.

A jogadora lembra que, durante essa época, treinava nos dois lugares, mas passou a jogar de forma efetiva no São Paulo. Após se destacar, em 2017, foi convocada para a Seleção Brasileira Sub-17 .

Toda essa trajetória, como é comum dentro do feminino, foi acompanhada de preconceitos e estereótipos. Embora a categoria venha conquistando ainda mais seu espaço, muitas meninas começam a jogar em equipes masculinas pela falta de "escolinhas de futebol” que agreguem garotas.

“Só havia equipes femininas para o Sub-17 ou já focadas no profissional e para mim não dava”, comenta a atleta.

A jogadora dividiu também um episódio ocorrido quando estava no sub-13, ano que ela considerou “pobre para o futebol feminino”, uma vez que não havia campeonatos direcionados para a base na época e seu técnico, durante sua trajetória no Centro Olímpico , teve que inscrever as garotas em uma competição dedicada aos meninos.

“Não tínhamos campeonatos para jogar. Nosso técnico teve que ir atrás de um campeonato para nós. Ele, por fim, conseguiu um ali na Mooca, dentro do Juventus. O nome era ‘Copa Moleque Travesso' e era direcionado para meninos. Entramos na briga para que as meninas pudessem entrar também”, explica sobre a situação.

Infelizmente, tal fato é bem comum quando se diz respeito a categoria. Victória conta que o preconceito na época foi notável, já que elas eram subestimadas e vistas como inferiores pelo fato de serem as únicas meninas na ocasião, mas que isso não as impediu. A equipe feminina do Centro Olímpico na época se consagrou campeã

“Entramos já subestimadas, mas fomos campeãs, repercutiu bastante. Como ganhamos, o nome da competição deixou de ser ‘Copa Moleque Travesso”, relembra.

Para ela, a concepção da dificuldade que o futebol feminino representa não era tão perceptível quando era criança, mas hoje enxerga diversos episódios onde esteve presente e acompanhou de perto. De certa forma, isso afeta o psicológico de muitas meninas novas que sonham com as chuteiras, fazendo-as questionar se jogar bola é realmente algo para elas.

“Sempre tive a educação de tratar todo mundo igual, independente de gênero. Eu só queria jogar. Mente de uma criança, mas conforme o tempo, começava a pensar se eu nunca iria jogar com as meninas. Ia para campeonatos só com os meninos, era titular. Eu via o time da Seleção Brasileira passando na TV e me questionava quando minha realidade iria mudar. Tinha uns onze anos, mas comecei a entender”, retrata o abalo que causava nos seus pensamentos.

Victória revela que começou a ficar mais tranquila quando ingressou em uma equipe feminina de fato, mas reconhece que hoje em dia há um avanço em relação ao passado.

Você viu?

“Acho que para geração mais velha, geração de Cristiane , Marta , acredito que foi bem mais difícil. Elas não tiveram base, sempre jogando com os meninos e indo direto para Seleção ou jogando direto no profissional”, diz sobre sua visão do passado em relação aos dias atuais.

Dentro do futebol de base , por se tratar de menores de idades, os pais têm que acompanhar de perto todo rendimento do filho, seja no masculino ou no feminino. Porém, é comum que pais de equipes masculinas, por um pensamento enraizado, muitas vezes não tolerem o fato que há uma garota jogando na equipe do seu filho ou contra ele. Victória conta que presenciou episódios de ofensas vindas das próprias famílias dos jogadores que não aceitavam o fato de ter uma garota junto em campo.

“Já me chamaram de menino, de maria-macho, coisas do gênero. Nesse campeonato que citei, quando eu já era da equipe feminina e joguei contra garotos, nós sofremos muito preconceito. Os pais dos meninos dos times adversários ficavam mandando a gente ir lavar a louça, falando que lá não era lugar de mulher. A gente impôs o tabu só ganhando o campeonato e dizendo que lugar de mulher era onde ela quiser”, relata sobre os episódios vindo de adultos, mesmo com elas sendo somente crianças.

A base é o que prepara e lança jogadores para equipes profissionais no futuro. É extremamente visível o quanto ela influencia times profissionais de forma geral. Dentro do futebol masculino, expressões como “cria da base”, “menino da base”, dentro dos clubes são comuns.

No feminino não deveria ser diferente. É essa categoria que prepara e fortalece as jogadoras desde sempre. Victória vê a base como um pilar. Ela se considera privilegiada por ter tido a oportunidade. “Você chega como uma jogadora completa no profissional. Com fundamentos táticos, técnicos, físicos. Na geração das mais velhas não tinha. Eu nem imagino não tendo base. Ela traz muitas joias para o profissional, é primordial”, ressalta sobre a importância.

A atleta garante que pretende continuar no futebol e lembra que teve que tomar muitas decisões para conquistar o que é hoje dentro do futebol, vestindo a camisa de um dos maiores times do Sul e do Brasil. A atleta, aliás, elogia os investimentos feitos pelo São Paulo e o Inter na categoria.

“Eles acreditam no feminino, não criam atletas para jogar um só campeonato e depois mandam embora. O Inter tem um projeto muito legal que permite com que meninas da base possam se integrar ao profissional. O São Paulo também conseguiu subir muitas. As duas camisas são muito de peso. São estruturados e dão o melhor para suas atletas, seja dentro ou fora de campo”, afirma a jogadora, que hoje é capitã do Inter.

A decisão do Campeonato Brasileiro Feminino Sub-18 está prevista entre os dias 14 e 21 de março. Os confrontos de ida e volta das semifinais ocorrem dia 27 de fevereiro e 8 de março, com transmissão no SportTV. Neste ano, grandes portais e canais midiáticos produziram matérias e reportagens dedicadas ao campeonato, o que não era comumente visto. 

De acordo com a jogadora, essa representatividade é de extrema importância. “Sempre fomos pobres nisso, ter isso para gente melhora muito as coisas. Não tínhamos nem um campeonato antes. Agora, temos e está sendo televisionado. É algo muito bom, isso só cresce mais o feminino”, conclui.

    Veja Também

    Mais Recentes

      Comentários