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Basquete

23/12 - 10:21

Violet Palmer, a rainha da NBA
Violet Palmer desafia um mundo predominantemente masculino há 11 anos. É a única mulher que apita na NBA

Fábio Sormani, especial para o iG Esporte

SÃO PAULO - Ela é a Rainha; pelo menos assim é conhecida.

Violet Palmer desafia um mundo predominantemente masculino há 11 anos. É a única mulher que apita na NBA.

Divide o mesmo espaço com 60 barbados. Mas isso não intimida essa californiana de 44 anos, que não cede nem um milímetro sequer de seu espaço quando está com o apito na boca, vestindo a camisa 12 (na NBA os árbitros têm números) e vendo marmanjos correrem pra lá e pra cá nos impecáveis parquetes da liga de basquete mais famosa, glamorosa e disputada de todo o planeta.

No início, é verdade, encontrou resistência. Quando pisou em uma quadra da NBA pela primeira vez, em 31 de outubro de 1997 para apitar uma partida entre Vancouver Grizzlies (hoje Memphis) e Dallas Mavericks, no Canadá, Dennis Scott, à época jogador do Phoenix Suns, deixou claro sua contrariedade com a decisão da liga.

Teve um chilique machista e declarou: “Não vai dar certo. Ela pode se melindrar por causa dos xingamentos e às vezes até mesmo do contato físico”.

Mas isso nunca aconteceu.

Alguns questionaram também sua capacidade. Tornou-se objeto de chacota de blogs nos EUA e de alguns colunistas, que a elegeram maldosamente a pior árbitra da NBA.

Mais um comportamento chauvinista; Violet sabe apitar.

Erra, é verdade, como todos erram. Mas nunca interferiu grosseiramente no resultado de uma partida.

Em entrevista ao jornal “USA Today”, em 2005, Robert Horry, um dos mais chatos jogadores da liga, falou o seguinte sobre Violet: “Ela [Violet] é boa. Há muitos jogadores que tentam contestar suas marcações dizendo ‘E aí!?’, mas ela nunca cedeu à pressão. Isso diz muito a respeito dela. Os caras a respeitam muito. Ela nunca abaixa a cabeça para ninguém”.

Por ser mulher e viver em um ambiente grave e grosseiro, Violet tem que provar todos os dias que merece estar onde está.

Não tem sido fácil.

Há apenas dois anos é que viu seu nome pela primeira vez figurar na escala de um jogo de playoff.

Até então, apitara apenas partidas da temporada regular e da pré-temporada.

Foi no dia 25 de abril de 2006, quando Indiana e New Jersey se enfrentaram pela terceira partida da primeira rodada dos playoffs do Leste. Entrou para a história da NBA, pois Violet, como vimos, tornou-se a primeira mulher a apitar um jogo de uma série decisiva.

Nunca antes, naquele país, como diria o outro, um encontro de playoff tinha sido analisado sob o ponto de vista do olhar feminino.

E Violet foi muito bem.

Território conquistado? Nada disso. Ainda não conseguiu convencer Ronnie Nunn, diretor dos árbitros da NBA, a torná-la freqüentadora constante de jogos decisivos. Reprisou o feito apenas outra vez.

Ela está feliz, mas acho que não realizada. Ela não diz, mas pelas suas respostas na entrevista que ela concedeu ao iG por e-mail, fica bem claro que Violet quer mais.

Não fala em sonhos, mas seu objetivo é quebrar barreiras. E estar em um dia de um futuro não muito distante de um verão norte-americano no trio que trabalhará num dos jogos finais da NBA.

Mas chega de papo. Vamos à nossa conversa com a Rainha.

Como você se sente trabalhando para a NBA? Foi um sonho pra você?
Realmente, é uma sensação muito boa. Eu amo trabalhar na NBA. E não, eu não tinha isso como um sonho.

Como você se sente sendo a única mulher num mundo predominantemente masculino?
Ser a única árbitra na liga não é tão ruim assim. Eu sou tratada como um dos caras, o que realmente me deixa feliz.

Você poderia descrever para a gente como é o seu dia-a-dia e suas responsabilidades?
Em dias de jogos, nós temos uma reunião para falar sobre a partida que vamos apitar à noite. Almoçamos em conjunto, tiramos uma soneca à tarde, antes do jogo, apitamos e depois assistimos a gravação da partida em questão com os juízes envolvidos.

É comum ser reconhecida nas ruas? Quando isso ocorre, o que os torcedores falam para você?
Eu já fui reconhecida pelos fãs da NBA e na maioria das vezes eles dizem: “Ei!!! Você é a juíza mulher, certo?”. Ou então: “Você faz um belo trabalho”. Ou mesmo: “Temos orgulho de você”.

Você é de Los Angeles. Torce para algum time? Lakers ou Clippers?
Não, eu não tenho preferência por nenhum time. Sou uma juíza e este é o meu trabalho.

Na sua opinião, qual é o melhor jogador atualmente da NBA?
Eu acho que nós temos diversos jogadores fora de série na liga. É difícil escolher apenas um.

O que você acha então dos brasileiros que estão na NBA?
Acho que os brasileiros estão fazendo um trabalho muito bom na liga. Eles são grandes arremessadores.

O que sua família pensa de vê-la trabalhando para a maior liga de basquete do planeta?
Minha família tem muito orgulho de mim e são meus principais fãs.

E o que ela acha de vê-la trabalhando num ambiente dominado por homens?
Eles vão a todos os jogos em minha cidade natal [Los Angeles] e também assinam o NBA League Pass para poderem assistir todos os meus jogos, quando estou apitando em outras cidades.

Você já se sentiu discriminada por algum colega?
Não, eu não sofri nenhum tipo de discriminação pelos meus colegas de profissão. Eles me tratam como uma rainha. Inclusive, este é o meu apelido.

Você tem um vestiário exclusivo?
Sim. Há um vestiário reservado para mim em todos os ginásios da NBA.

Qual foi o jogo mais difícil que você apitou e por quê?
O jogo mais difícil foi o meu primeiro de playoff, entre New Jersey e Indiana, jogo três da primeira rodada. Ser escolhida para apitar um jogo de playoff é muito difícil. Você quer fazer um bom trabalho e eu sabia que todo mundo estaria de olho em mim. Você acaba sendo analisado minuciosamente nesses momentos.

No Brasil há um assistente que trabalha com futebol [Ana Paula de Oliveira]. Ela já declarou que alguns jogadores costumam piscar o olho para ela, que vão fazer um gol e dedicar a ela. Você já viveu situação semelhante a esta?
Não. Eu nunca enfrentei uma situação dessas por aqui. Eu ganhei o respeito de todos, jogadores e técnicos da NBA.

Finalmente, por ser um modelo e inspiração para muitos, qual a mensagem você poderia enviar para os torcedores e para as mulheres que apitam basquete no Brasil?
A mensagem que eu gostaria de mandar para os fãs brasileiros é que nenhum sonho é muito grande ou ambicioso. Desde que você se concentre nisso, você consegue atingir. E para as juízas brasileiras eu diga a elas para nunca se abalarem ou abaterem. Sempre lembrem que a cereja sempre acaba chegando ao topo do bolo.


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Violet Palmer

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Violet Palmer é a única mulher que apita jogos da principal liga de basquete do mundo, a NBA

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