Renan Dal Zotto
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Renan Dal Zotto

Foi por um triz. Eu sei disso. Vi meu pai Radamés e minha avó Eva, já falecidos há mais de dez anos. Isso nunca tinha acontecido. Também vi meu corpo deitado, como se eu estivesse fora dele, e toda a movimentação da UTI do Hospital Samaritano, em Botafogo. Assisti na televisão à matéria anunciando a minha partida.

(Veja fotos do técnico da seleção brasileira de vôlei)

O texto dizia que eu havia deixado esposa e dois filhos. Eu tive a sensação de morte em várias situações. E isso foi terrível. Nesse tempo ausente, nessa confusão da mente, comecei a sentir que ainda estava aqui por causa da Annalisa, minha esposa. Ela segurava a minha mão, e esse foi o meu maior conforto. Quando acordei, no 25º dia de internação, e vi a Annalisa e meus dois filhos, Gianluca e Enzo, tive a certeza que estava de volta. Porque sim, eu voltei... Sabe Roberto Carlos? “Eu voltei agora pra ficar/Porque aqui, aqui é meu lugar/Eu voltei pras coisas que eu deixei/Eu voltei.”

Se hoje estou à beira da quadra, após ter adoecido de Covid-19 e superado uma trombose aguda na virilha esquerda, foi porque uma corrente de fé e amor me segurou. Já disputei três Olimpíadas como atleta. Tenho uma medalha de prata, em Los Angeles-1984. Fui comentarista esportivo em duas outras edições e também diretor de seleções na Rio-2016. Mas Tóquio é a minha primeira Olimpíada como treinador. Meu desafio não é pequeno. É defender o ouro. E o farei com toda a força da minha vida. Garanto que estou com a bateria 100% renovada e pronto para este desafio.

Sim, minha bateria precisou ser recarregada. Ela secou. Eu desliguei. Mas, durante os 50 dias da alta até o embarque, corri atrás para me recuperar. Cada dia a bateria subia mais um pouco. Batalhei para chegar aqui. Ainda no hospital, comecei a fisioterapia. Depois, já em casa, no dia seguinte da alta, iniciei a malhação rumo a Tóquio. Recuperei massa magra, equilíbrio, movimentação, coordenação motora e condição respiratória. Tive ajuda até do Bernardinho, técnico medalha de ouro no Rio, ex-companheiro de seleção e amigo pessoal. Ele batia bola comigo, me incentivava. Minha recuperação foi acompanhada por vários profissionais (fisiologista, pneumologista, cardiologista, fisioterapeuta, educador físico e ortopedista). Foi constante e gradual. Cada conquista me dava mais ânimo. Diria que estou fisicamente quase lá. Falta um pouco de condicionamento, mas como não vou entrar em quadra...

Primeiro eu lutei para me mexer na cama do hospital. Depois para sentar. Achei que nunca mais ia sair daquela cama. Era tanta dor... Foi quando descobrimos um pneumotórax. O ar que deveria estar apenas dentro do pulmão tinha vazado para a cavidade torácica. Quando resolvemos isso, a recuperação deslanchou.

Muita gente me pergunta se a angústia que senti foi semelhante à que experimentei com o tratamento do meu filho mais velho, o Gianluca, diagnosticado com um tipo grave de leucemia quando tinha 2 anos e 4 meses. Não. O caso dele foi pior, desesperador. Até receber alta dos médicos, já com 5 anos, ele precisou passar por 42 transfusões de sangue, oito infecções generalizadas, 22 internações e diversas sessões de quimioterapia. Pelo menos três vezes, o médico nos disse para praticar a nossa fé, porque a medicina já havia feito o que podia pelo nosso filho. Lembro de todos os dias, da luta longa e dolorida.

Com Covid, fiquei fora da casinha, sem ter noção do que estava acontecendo. Eu tinha tomado a primeira dose da vacina somente cinco dias antes e fui contaminado praticamente junto com a aplicação. Mantinha os cuidados necessários, mas esse vírus é traiçoeiro. E quando vi estava com baixa saturação de oxigênio e internado. Não lembro dos 36 dias. Fiquei 30 deles intubado, em duas ocasiões diferentes. Na primeira, por causa do coronavírus. Na segunda, por causa de uma pneumonia bacteriana. No total, pedi 26 quilos e quase uma perna, a esquerda.

Logo após a primeira intubação, passei por uma cirurgia vascular por causa de uma trombose aguda. Só não amputaram a minha perna porque a cirurgia era arriscada e eu poderia morrer. A última lembrança que tenho, antes de sair de cena, foi de uma noite de merda, com muita dificuldade para respirar, a máscara incomodando e o cansaço. Escrevi mensagem para Anna, dizendo que não aguentava mais, que se o caminho era a intubação, que fosse. Eu não queria viver daquele jeito.

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Meus sonhos eram ruins, bem ruins. E a falta de referência também foi angustiante. Sem janelas, não tinha ideia de nada. Se era dia ou noite. Tinha um relógio, mas eu olhava o ponteiro no número quatro. E não adiantava nada. Quatro da manhã ou da tarde?

Foi a minha esposa e meus filhos, ainda no hospital, que começaram a me contar o que tinha acontecido enquanto eu estava fora. Fiquei totalmente paralisado, amarrado à cama, porque é assim que ficamos para não arrancar os equipamentos. E, mesmo depois, sonhava que ainda estava amarrado. Nos primeiros dias, quando eu ia dormir, tinha medo. Não conseguia ficar sozinho. Pedi que sempre tivesse alguém da família comigo. E foi assim até o dia da minha alta, em 21 de maio.

Não busco explicações para entender ou justificar o fato de ter sobrevivido em meio a tantas perdas no mundo. Não dá para explicar. Apenas agradeço.

Quando fiz o primeiro contato com o meu time, por vídeo, foi bem emocionante... eles bateram palmas para mim e quase chorei. Em casa, acompanhei a Liga das Nações pela televisão, vi todos os jogos, assisti aos rivais e fiz as preleções das partidas do Brasil. Sou grato por ter acordado antes da competição e ter tido a chance de acompanhar a caminhada irretocável ao ouro. Tive muito orgulho.

Essa seleção brasileira tem alma, um espírito muito legal, e a gente veio disputar medalha. Não há outro pensamento. Temos um grupo forte e queremos muito o ouro. Sabemos que outras seleções estão no páreo, mas sou mais a gente. Acreditamos muito. E nada me assusta depois de tudo o que passei. Hoje penso apenas em fazer o meu melhor. Claro que em Jogos Olímpicos a pressão é monstra e tem aquele frio na barriga. Mas é exatamente essa sensação, o frio na barriga, que queria sentir.

Minha esposa perguntou ao médico, logo no início da internação, sobre a Olimpíada. Ouviu que primeiro ele queria que eu saísse vivo de lá. Pois bem. Cá estou recuperado. Agora meu grande objetivo é o pódio com a seleção brasileira.

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