Julia Paternain atravessou a linha de chegada em Tóquio, no Japão, neste domingo (14) sem saber ao certo se a prova havia terminado. O calor sufocante, o esforço extremo e a solidão nos metros finais confundiram seus sentidos.
Só quando levantou três dedos, depois de conferir o número de rivais à frente, percebeu: tinha acabado de conquistar o bronze, a primeira medalha do Uruguai em Campeonatos Mundiais de atletismo.
A uruguaia de 25 anos não estava entre as favoritas. Classificada apenas na 288ª posição do ranking mundial da maratona feminina, havia estreado na distância em março deste ano, registrando 2h27min09s.
Em Tóquio, cruzou em 2h27min23s, tempo suficiente para superar dezenas de atletas mais cotadas e chegar atrás apenas de duas gigantes do esporte: Peres Jepchirchir, campeã olímpica de 2021, e Tigst Assefa, recordista mundial.
“Eu realmente não conseguia acreditar, não tinha ideia de onde estava, sabia que estava entre as oito melhores, estava com muito medo de olhar para trás porque não queria ser ultrapassada”, disse ainda atordoada.
“No final de uma maratona, você está cansada, seu cérebro não está funcionando direito. Então, fiquei um pouco confusa, mas estou extremamente grata e, honestamente, em choque.”
Raízes e expectativas
Filha de acadêmicos uruguaios, Paternain nasceu no México, cresceu na Inglaterra e treinou nos Estados Unidos. Representou a Grã-Bretanha em competições juvenis até decidir competir pelo Uruguai neste ano.
“Cresci na Inglaterra, mas toda a minha família é do Uruguai. É um país pequeno e acho que é um pouco esquecido. Mas tem muito orgulho e significa muito para mim representar o Uruguai.”
A mudança não foi motivada por estratégia esportiva, mas por vínculo afetivo. “Mi sangre es uruguaya”, afirmou. Entre Montevidéu, Cambridge e Arkansas, seu percurso atravessou continentes, sotaques e lealdades.
O caminho até o pódio foi traçado sem grandes pressões. Ao lado de sua equipe de treino em Flagstaff, nos Estados Unidos, a meta em Tóquio era apenas terminar bem a prova, talvez entrar entre as 30 primeiras.
“Conversei com meu treinador na noite anterior à corrida. O objetivo A era ficar entre as oito primeiras. Uma medalha? Nem no radar.”
Mas o improvável aconteceu. Paternain avançou posições quilômetro após quilômetro, manteve consistência e resistiu ao desgaste do calor.
No estádio, ainda acreditava estar fora do pódio, até que um árbitro confirmou a façanha.
Para um país de pouco mais de três milhões de habitantes, apaixonado por esportes mas pouco presente no atletismo mundial, sua medalha soou como um feito de proporções muito maiores que o bronze.
Julia ainda não fala em planos meticulosos, exceto um sonho distante: Los Angeles 2028. Até lá, prefere viver “mês a mês”, como quem sabe que o destino gosta de surpreender.