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A jogadora italiana de vôlei Lara Lugli terá que enfrentar uma batalha judicial contra o próprio clube que atuava. Na temporada 2018/2019, a atleta teve seu contrato rescindido automaticamente após comunicar o Volley Pordenone, em março de 2019, que estava grávida. Poucos dias depois, ela sofreu um aborto espontâneo, e agora, foi processada pela associação esportiva.

No último dia 7 de março, a Lugli usou as redes sociais para falar sobre os problemas jurídicos que surgiram com a direção de seu time, o qual era capitã. Segundo a publicação, o Podenone processou a jogadora alegando perdas e danos consequentes da gravidez e afirmando que a jogadora não avisou ao clube que "tinha intenção de ser mãe".

O acordo firmado pela italiana previa sua rescisão por justa causa em caso de gravidez. O documento diz que ela deveria "abster-se de comportamentos que de alguma forma pudessem contrariar os compromissos assumidos" e o não cumprimento das obrigações levaria a medidas "proporcionais à gravidade das infrações".

O clube esportivo alega ainda que, após a saída de Lugli, "a equipe teve uma queda nos resultados" e que os patrocinadores se retiraram. Com isso, o "comportamento" dela teria causado "danos" aos empresários. Além disso, o fato de a atleta não ter expressado seu desejo de ser mãe foi classificado como "violação da boa fé contratual" A briga judicial teve início quando a jogadora reivindicou seu salário de fevereiro, que não foi pago. "Se uma mulher engravidar, ela não pode fazer mal a ninguém e não deve compensar ninguém por isso. Meu parceiro e eu sofremos o único dano por nossa perda (o aborto), e todo o resto é tédio e baixeza de espírito", escreveu Lugli.

O presidente da Pordenone, Franco Rossato, por sua vez, respondeu que "somente quando chegou a ordem de pagamento" eles se opuseram e "ativaram as cláusulas do contrato". "Mencionar as palavras do ato frio serve para nos fazer parecer monstros, quando, pelo contrário, apenas nos defendemos perante ao pedido de indenização indevida".

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A história retomou o debate na Itália sobre a falta de reconhecimento das mulheres no trabalho esportivo e a ausência de garantias e proteções, inclusive no que diz respeito à maternidade.

A Associação Nacional de Atletas da Itália chegou até a enviar uma carta ao primeiro-ministro Mario Draghi e ao presidente do Comitê Olímpico Italiano, Giovanni Malagò, para saber o que será feito para "acabar com a vergonhosa situação a que as mulheres italianas estão expostas".

No texto, é afirmado que o caso de Lugli é "emblemático porque mostra que a iniquidade da condição feminina no trabalho esportivo é tão internalizada que não só é considerada correta como anula completamente um contrato legítimo".
"Nesta iniciativa inescrupulosa reside o verdadeiro escândalo cultural do nosso país, que chegou a nublar a consciência dos empregadores do trabalho desportivo, a ponto de esquecer quais são os direitos fundamentais das pessoas", acrescentou a associação.

Malagò, por sua vez, conversou com Lugli por telefone para saber toda a história. Logo depois, ele prestou solidariedade a jogadora e a convidou para um encontro no CONI, assim que as condições gerais do país permitirem.
Para Luisa Rizzitelli, presidente e fundadora da associação Assist, que luta pelos direitos das mulheres esportivas, no esporte "se consome uma das maiores discriminações de gênero: impedem que as mulheres tenham acesso ao profissionalismo".

A atleta Antonella Bellutti, duas medalhas de ouro olímpicas no ciclismo de pista, ressaltou que "no esporte, ser mulher é agravante, e às mulheres são implícita ou explicitamente negado o direito de ser mães".
Hoje, a presidente do Senado da Itália, Elisabetta Casellati, afirmou que pedir a condenação de Lugli é uma "violência contra as mulheres". "A maternidade tem um valor pessoal e social insubstituível", disse.

Enquanto isso, a deputada do Partido Democrático (PD), Laura Boldrini, pediu para que as autoridades investiguem o caso.

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