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09/10 - 06:00

"Ele é careta", diz Maya Gabeira sobre o pai
Mesmo tendo quebrado o nariz dez vezes, surfista não desiste e enfrenta ondas com alturas de prédios de sete andares

Anderson Dezan, iG Rio de Janeiro

Aos 23 anos, Maya Gabeira é conhecida como uma das melhores big riders – ou surfistas de ondas gigantes – da atualidade. Filha caçula do deputado federal Fernando Gabeira e da estilista Yamê Reis, a carioca começou a surfar por acaso. Na adolescência, costumava esperar nas areias da praia do Arpoador, na zona sul do Rio, o namorado que passava horas pegando onda. Cansada da situação, decidiu se matricular numa escolinha do local.

A decisão foi acertada. Hoje, ela é de detentora de quatro títulos mundiais de ondas gigantes e de um ESPY Awards, considerado o “Oscar dos Esportes”. Morando sozinha nos Estados Unidos desde os 17 anos, Maya enfrenta no seu dia-a-dia paredões de água que podem atingir até 20 metros, altura equivalente a um prédio de sete andares.

Para chegar até a onda e se posicionar nela, a surfista conta com a ajuda de um jet-ski – modalidade conhecida como town-in. Na descida da onda, atinge uma velocidade média de 60 quilômetros por hora. Quando “toma um caldo”, chega a ficar 1 minuto e meio embaixo d´água. “Parece que você foi atropelado por um caminhão”, diz.

Dario Zalis

Maya é detentora de quatro títulos mundiais de ondas gigantes

A violência do mar deixa marcas em seu corpo. Dependendo da manobra, ao cair da onda, a prancha, que pode pesar 10 quilos, vem ao seu encontro. Resultado: já quebrou o nariz dez vezes. Se tem medo das ondas? Ela confessa que sim, mas assume seu pavor por ratos também. “Consigo matar barata, mas rato não dá!”, conta, rindo.

Para aguentar a rotina, Maya faz musculação, yoga e treina diariamente. Mantém seus 60 quilos, distribuídos em 1,68 metro, com uma alimentação repleta de proteínas e carboidratos e evita doces e frituras. Nas horas de lazer, gosta de fazer coisas normais de uma jovem da sua idade, como sair com amigas e ir ao cinema.

Em uma passagem rápida pelo Rio – apenas 1 semana para acompanhar as eleições ao lado do pai, candidato ao governo estadual do Rio derrotado nas urnas por Sérgio Cabral – Maya topou bater um papo com o iG Esporte enquanto tomava café-da-manhã. Entre uma colherada e outra de açaí com banana, a surfista falou sobre temas diversos, como sua ligação com a política, preconceitos e a criação com o pai, conhecido por posições liberais, como a profissionalização da prostituição e união civil entre homossexuais.

Indo de encontro ao que muitos pensam, ela surpreende: “Ele [Gabeira] não é tão liberal. Ele é um pouco careta”, avalia. A seguir, leia a entrevista:

iG: Você começou a surfar aos 14 anos por influência de um ex-namorado, também profissional da modalidade. Você ainda tem contato com ele?
Maya: De vez em quando nos encontramos. Ele também é surfista e viaja muito para a Indonésia. Quando vou para lá, normalmente encontro com ele pegando onda.

iG: Com tantos títulos na bagagem, você provavelmente já o passou. E pensar que você só começou a surfar por causa dele. Já rolou essa brincadeira entre vocês?
Maya: Que bom que eu passei (risos)! Ele me apoia pra caramba. A gente já pegou muita onda boa juntos, mas nunca rolou essa brincadeira, sabia. É até engraçado.

Dario Zalis

A surfista enfrenta paredões de água que podem atingir até 20 metros

iG:  Hoje, qual é o seu lugar favorito para surfar?
Maya: (Pensativa) É difícil. Gosto muito do Havaí. É um lugar quente, tropical, tem ondas enormes, pequenas. Podemos praticar vários tipos de surfe lá. É um lugar completo.

iG: E qual é o local onde você gostaria muito de pegar onda pela primeira vez?
Maya: Tenho vontade de surfar em Cortez Bank. É um recife que fica a sete horas de barco da costa de San Diego, na Califórnia. É um local enorme, não tem muita gente, de difícil acesso. A previsão para lá também é complicada. É muito difícil descobrir quando as ondas estão boas naquela área.

iG: O mais lugar mais esquisito onde você já pegou onda eu nem preciso perguntar já que, em 2008, você surfou no Alaska. Como foi?
Maya: A maior roubada. Espero que não me convidem mais porque eu não vou (risos). É muito frio, não dá. A roupa de borracha ainda não evoluiu a esse patamar. O frio é tanto que não dá para se concentrar. Estava nevando! Foi de longe o lugar mais estranho onde surfei. A temperatura estava zero grau ou menos dois, se não me engano. É muito frio, não?

iG: Com certeza. Mas como surgiu esse convite tão inusitado?
Maya:
Foi ideia do patrocinador. Disseram que tinha uma onda gigante lá, mas era tão selvagem que não havia condições ideais para surfar. Ventava muito e a formação das ondas não era muito boa. Por mais que elas estivessem enormes, não conseguia surfar direito.

iG: Você é especialista em ondas gigantes. Ao descer uma, a velocidade chega a atingir 60 quilômetros por hora. E quando você cai, como é? Qual é a sensação de tomar um “caldo”?
Maya: Parece que você foi atropelado por um caminhão ou que entrou em um ringue e foi nocauteado. Você toma ‘porrada’ de todos os lados. Às vezes é a prancha, a onda, a força d´água. Ao cair, dependendo da altura e da velocidade, a água não é mais água. É cimento. Ela deixa de ser fofinha, machuca e dói.

iG: Você chega a ficar quantos minutos embaixo d´água?
Maya: No máximo, 1 minuto e meio. É muito tempo porque você não está na piscina, né? O corpo já está no ritmo do exercício, seu batimento cardíaco está acelerado. O gasto energético nesses casos é o mesmo de cinco, seis minutos parado.

Dario Zalis

Maya Gabeira mantém a forma com musculação e yoga

iG: E existe alguma posição ideal para ficar quando toma um “caldo”?
Maya: Normalmente protejo a cabeça e não mexo muito as pernas. Como são os maiores membros do corpo, são os que gastam mais energia. Fico parada até achar que estou em uma situação que já dá para subir. A verdade, no entanto, é que na hora não dá para pensar muito nisso. É tudo muito rápido e você não tem forças para lutar para ficar numa posição ideal. Se uma onda de 15 metros quiser fazer algo, você não tem como ir contra.

iG: Por enfrentar esses paredões d´água e situações tão adversas você passa uma imagem de destemida. Do que a Maya Gabeira tem medo?
Maya: De onda (risos). Medo é o que mais tem na minha profissão. Não ia surfar se não tivesse medo porque estaria arriscando minha vida à toa. Medo traz a adrenalina que me alimenta para fazer o que eu faço. Também me dá sanidade para não me arriscar além do que posso. É um esporte que se supera e vai elevando o nível. Quando o mar está enorme, todo mundo fica com medo. É tão óbvio que aquilo ali mata.

iG: Visto isso, como é sua relação com a morte?
Maya: Não penso na morte. Tenho medo de me machucar porque a recuperação de contusões sérias é muito complicada. No ano passado, fiz duas cirurgias. Quebrei o rádio [osso do antebraço] e o nariz. Demorei cerca de 1 mês e meio para me recuperar de cada uma. Digo 1 mês e meio, mas de muito trabalho, fisioterapia, sacrifício e dor.

iG: E medos naturais a uma jovem de 20 e poucos anos. Você não tem?
Maya: Odeio rato! Sou apavorada! Um dia, quando era pequena, estava dormindo na casa de uma amiga e acordei com um rato roendo meu dedão do pé! Juro por Deus! Consigo matar barata, mas rato não dá (risos)!

iG: Você já quebrou o nariz dez vezes. Era uma criança levada? Deu muito trabalho para seus pais?
Maya: Até que não. Vivia colada na barra da saia da minha mãe. Comecei a ficar mais levada quando tinha uns 11 anos. Até então, era muito tranquila.

iG: O seu pai é de uma geração que pregava a liberdade. Como foi sua criação? Sexo era tabu? Você tinha liberdade para falar sobre temas polêmicos?
Maya: Cresci com meu pai estando longe, trabalhando em Brasília. Ele sempre me deu muita liberdade de escolha, respeitou minhas decisões e me apoiou. Ele quis que eu fosse feliz, independente das minhas escolhas. Sempre foi de dar exemplos, nunca foi de dar ordens. Ele dá o exemplo de vida e é por aí que aprendemos.

Dario Zalis

Nas horas vagas, a surfista gosta de sair com amigas e ir ao cinema

iG: E como é o Gabeira como pai? Faz o perfil liberal ou mais conservador?
Maya: Ele não é tão liberal assim não. Ele é um pouco careta (risos). Acorda bem cedo, vai nadar, almoça no mesmo lugar todo dia, o mesmo prato. Não bebe, dorme cedo. Eu o acho careta (risos). Minha mãe sai muito mais, é mais extrovertida que ele. Ela é sagaz. Meu pai é mais sério, muito dedicado. Ele estuda muito, não tem muito tempo. Leva uma vida super regrada. Não tem muito ‘oba oba’ na vida dele.

iG: Ele já defendeu temas polêmicos como a legalização da maconha. Como é sua relação com as drogas?
Maya: Não uso porque não gosto e porque meu esporte não permite. Um atleta não deve usar drogas porque se você quer ser o melhor do mundo isso irá atrapalhar a sua performance. Pra mim, a droga não é boa porque tenho asma. Se eu bebo, não consigo acordar cedo com disposição. Meu corpo é muito vulnerável a qualquer coisa que coloco nele. Eu trabalho com ele todos os dias, dependo dele. Se não tratar bem, ele dá a resposta imediata.

iG: Ainda existem muitas pessoas que mantêm o preconceito de que todo surfista é maconheiro e vagabundo. Isso te incomoda?
Maya:
Não vejo muito mais esse rótulo. Temos grandes exemplos no esporte para provar que esse estigma não vale muito. Não adianta rotular um esporte por causa de um ou outro. A indústria, em geral, está se profissionalizando. As responsabilidades hoje são muito maiores e o nível é mais competitivo. Para tudo continuar evoluindo, o profissionalismo tem que ser ainda maior.

iG: Hoje na política são inúmeras as pessoas que utilizam os sobrenomes dos pais para tentar se eleger para um cargo público. Como é sua relação com a política? Você se vê atuando na área?
Maya: Gosto de política. Assisto aos debates quando posso, não perco um. É uma profissão difícil, que envolve muita pressão, mas não conseguiria atuar nessa área porque não é meu estilo de vida. Acho incrível, mas na pele deles eu não seria feliz. Não iria mais para praia todo dia. É isso o que amo fazer.

iG: A participação do seu pai no sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, em 1969, o impede de obter visto para os Estados Unidos. Sendo assim, ele não pode te visitar. Você fica triste pelo fato de ele não poder acompanhar de perto suas conquistas?
Maya: Lógico. É uma situação triste, chata. Acho que isso ainda vai mudar antes de ele ir embora [morrer]. Ele ainda vai poder ir lá para me ver. Mas é a realidade, sempre foi assim. Cresci sabendo disso. É um sonho que já pensei, penso e ainda acho que vai acontecer.

Vídeo: Assista a trecho da entrevista de Maya


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Dario Zalis

Maya começou a surfar por influência de um ex-namorado

Maya Gabeira
Surfista especialista em ondas gigantes posa para as lentes do iG em ensaio exclusivo

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Maya começou a surfar por influência de um ex-namorado
Entre seus títulos, está um ESPY Awards, considerado o “Oscar dos Esportes”
Ao surfar, Maya chega a atingir uma velocidade média de 60 km/h
Quando “toma um caldo”, ela chega a ficar 1 minuto e meio embaixo d´água
“Parece que você foi atropelado por um caminhão”, diz
Por causa da violência do mar, Maya já quebrou o nariz dez vezes
A surfista segue uma alimentação repleta de proteínas e carboidratos e evita doces e frituras
Havaí é o lugar preferido da atleta para surfar
Maya enfrenta paredões d´água, mas tem medo de rato
Consigo matar barata, mas rato não dá, diz, rindo
Meu pai sempre foi de dar exemplos, nunca foi de dar ordens, conta
Ele é um pouco careta, revela
Maya já surfou no Alaska. É muito frio, não dá, relembra
A surfista em ação na praia de Teahupoo, no Taiti
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