Longe de casa: a vida dos brasileiros que jogam em Hong Kong
Reprodução/Eastern District
Longe de casa: a vida dos brasileiros que jogam em Hong Kong

O Brasil é mundialmente conhecido por conta do futebol, e o país é um dos maiores exportadores de talentos no esporte. Os brasileiros são requisitados dentro de campo por todo o mundo, e no futebol asiático não é diferente, tornando-se uma porta de entrada para muitos atletas tupiniquins.

Em Hong Kong, a situação se repete, e os brasileiros conquistaram seus lugares nos campos locais. Apesar de ser uma das regiões administrativas especiais da China, pois é um território semiautônomo e não possui soberania plena, possui uma liga e conta com atletas do Brasil atuando em seus gramados.

Como é o caso do volante Bruno Luiz, que atualmente defende o Eastern District. Aos 26 anos, ele passou por diversos clubes tradicionais do futebol brasileiro, como Santo André, Juventus-SP e Paraná, antes de desembarcar na Ásia.

Um destino que parece um pouco incomum à primeira impressão, Bruno revelou que o convite para atuar em Hong Kong surgiu de um amigo que ele fez em seus anos de carreira, o preparador físico Rodrigo Quito.

“Ele entrou em contato comigo e falou: ‘Bruno, tenho uma situação, uma oportunidade para você. Você quer ir para Hong Kong?’. Hong Kong, eu nunca tinha saído do Brasil. Viajar 26 horas. Mas, como todo jogador tem o sonho de jogar fora do país, eu não pensei duas vezes. Conversei com o meu pai, conversei com a minha mãe. Apareceu essa oportunidade. Independentemente de onde for, tem que ir, tem que abraçar”, revelou o brasileiro.

Pelo Eastern District, Bruno vive sua primeira aventura fora do Brasil e, em sua primeira temporada pela equipe, vem tendo minutos em campo e já soma 14 partidas e quatro gols. Mas viver em uma nova cultura e estar tão distante de sua terra natal não foi fácil, e a insegurança falou alto no começo.

Bruno Luiz em campo pelo Eastern District
Reprodução/Eastern District
Bruno Luiz em campo pelo Eastern District

“Quando eu estava comentando com o meu pai, eu falei: ‘Caramba, vou chegar lá, o pessoal não vai com a minha cara, não vai conversar’. Pensei: ‘Vou ter que ralar’. Mas cheguei aqui e foi totalmente diferente. O pessoal acolheu, eles são muito bem-educados, muito acolhedores. Eles acolhem muito bem o estrangeiro. Não falo só por mim, mas pelos outros estrangeiros que chegaram também. Isso me surpreendeu bastante”, revelou.

Porém, o que mais dificultou sua adaptação ao novo país foi o fuso horário: “O fuso horário foi o que mais demorei para pegar o embalo. Porque, como são 11 horas de diferença, até o seu corpo se acostumar, até o seu corpo entender que você tem que dormir, que você tem que acordar… Isso foi o que mais pegou”.

Hélio

Companheiro de equipe de Bruno Luiz, Hélio já é bem experiente no futebol de Hong Kong. Ele desembarcou em 2008, completando, assim, seu 18º ano na liga. O zagueiro chegou em outra época e revelou que foi graças ao famoso DVD.

“Naquela época era difícil ir para fora. Era DVD. A gente fazia nosso vídeo, gravava, colocava dentro de um DVD e enviava por envelope. Um deles chegou na mão do cara que me trouxe, o Alexandre. Ele tinha contato do Citizen — que foi o primeiro time que defendi em Hong Kong — e eles precisavam de um zagueiro. Naquela época era assim, não é como hoje, que você faz um clique e encontra todos os vídeos”, relembrou o defensor.

Com uma longa história no futebol local, Hélio também passou por dificuldades em sua adaptação, ainda mais por ser um período bem diferente do que é hoje: “Naquela época era difícil fazer ligação. A gente usava Skype ou cartões telefônicos. Não era simples como hoje. A adaptação à comida também foi difícil. Eu só comia McDonald’s à noite, porque era barato e tinha internet. No almoço, fazia arroz com frango. Depois trouxe minha esposa, e as coisas melhoraram”.

Hélio chegou para defender o Citizen em 2008
Arquivo pessoal
Hélio chegou para defender o Citizen em 2008

Liga

Atualmente, a liga de Hong Kong conta com 10 times. Ela é disputada em pontos corridos, em três turnos, em que todos se enfrentam. Atualmente, o líder é o Kitchee, que soma 35 pontos, nove a mais que o Lee Man, vice-líder, mas que tem dois jogos a menos. Já o Eastern District aparece na 7ª posição, com 17 pontos.

Um ponto em que Hélio e Bruno Luiz concordam é sobre a qualidade que a competição apresenta. Apesar de não ser um campeonato dos holofotes, até mesmo para o futebol asiático, onde há ligas do Japão, da Coreia do Sul e da China, eles afirmam que se surpreenderam.

“O jogo aqui é bem intenso. No Brasil, é um jogo mais cadenciado. É intenso, mas tem momentos em que a bola diminui um pouco o ritmo, tem um pouquinho mais de experiência. Aqui, não. Aqui é intensidade o tempo todo. Se o cara não estiver bem preparado, sofre”, afirmou Bruno.

“Quando cheguei, a competitividade era muito boa. Cinco equipes brigavam pelo título. Apesar de parecer uma liga fraca, é difícil jogar aqui. A mentalidade é diferente da brasileira”, disse o zagueiro.

Experiência

Hélio, com 40 anos, construiu sua carreira em Hong Kong e viveu as mais diversas experiências atuando no solo asiático. Uma que ele guarda com carinho é enfrentar grandes times europeus.

“Me surpreendeu a vinda de grandes clubes para amistosos. Eu joguei com o City, do Guardiola. Esse foi difícil. Joguei contra o Tottenham, do Harry Kane. Teve Manchester United, o PSG. Essas experiências, para mim, eram demais. São experiências incríveis que só o futebol proporciona”, relembrou o jogador.

Hélio se naturalizou e defendeu a seleção de Hong Kong
Arquivo pessoal
Hélio se naturalizou e defendeu a seleção de Hong Kong

Outra parte importante de sua carreira no futebol foi a oportunidade de defender uma seleção nacional. Após se destacar, Hélio recebeu o convite para representar Hong Kong,  assim, o defensor se naturalizou hong-konguês.

“Vestir a camisa de uma seleção nacional é uma honra. Claro que queríamos vestir a do Brasil, mas sabemos como é difícil. Com o tempo, surgiu o interesse pela seleção de Hong Kong. Fiz o processo, abdiquei da cidadania brasileira e representei a seleção. Foi uma honra jogar contra grandes seleções. É uma experiência que não tem preço. Lá tive experiências incríveis, como jogar no Iraque e na Coreia do Norte”, comentou o defensor.

Carreira

Bruno Luiz vive sua primeira temporada na Ásia e, coincidentemente, a sua primeira longe do Brasil. Mas ele ressaltou que, quando a oportunidade aparece, ela precisa ser abraçada.

“Todo atleta sonha em jogar fora. Então, às vezes, por mais que seja a primeira viagem, o cara tem que abraçar. Tem que abraçar porque sabe que, indo bem, consegue mudar a história de vida dele e da família”, comentou o meio-campista.

Se adaptando a Ásia, Bruno Luiz não esconde a saudade da família
Reprodução/Eastern District
Se adaptando a Ásia, Bruno Luiz não esconde a saudade da família

E, apesar das dificuldades de uma nova cultura e da adaptação, o volante revela que seus planos futuros são permanecer e construir uma carreira no futebol asiático e, quem sabe, trazer a família para mais perto.

“Meus planos são esses: construir uma carreira sólida aqui no futebol asiático, ficar por um bom temp, poder trazer a minha família para usufruir um pouquinho do que eu estou vivendo. Mas a gente nunca sabe o dia de amanhã”, contou o jogador.

Até porque, apegado à família, como ele mesmo conta, há dias em que a saudade é grande e dificulta, mas o foco em ajudá-los e crescer na carreira vem o movendo neste desafio.

“Dá uma balançada. Às vezes o cara acorda e fala: ‘Meu Deus do céu, o que eu estou fazendo?’. Mas é que eu sou muito apegado à minha família. Sinto bastante falta deles, sinto bastante falta da minha filha. Mas nada supera estar podendo trabalhar, estar podendo dar alegrias para eles, suprir as necessidades, poder ajudar de uma forma ou de outra. Até porque foram anos sofridos, anos de trabalho para chegar até aqui. Então eu tenho que valorizar isso ao máximo”, revelou Bruno Luiz.

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