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Brasileiro Fernando Silva passou por muito perrengue antes de se tornar profissional e crava: "Racismo aqui na Europa é normal"

Fernando Silva em ação pelo Pelister, time da Macedônia
Arquivo pessoal
Fernando Silva em ação pelo Pelister, time da Macedônia

O jogador Fernando Silva é pouco conhecido no Brasil, mas já está no futebol europeu há alguns anos e hoje defende o FK Pelister, clube tradicional da Macedônia. Antes de se firmar como atleta profissional, ele passou por alguns perrengues quando morava no Rio de Janeiro e chegou até a receber ajuda de traficantes para ir atrás do seu sonho.

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Fernando começou a carreira como ala no futsal e, quando subiu para o futebol de campo, atuou na meia-esquerda, ponta-esquerda e também lateral-esquerda. "Aí na Europa virei um ponta de verdade, mas com o passar do tempo mudei para o lado direito, para puxar para dentro, sou canhoto. Gosto de jogar de meia, segundo volante", disse o jogador em entrevista exclusiva ao iG Esporte.

Para quem não conhece, ele se apresenta. "Tenho 1,74 metro de altura e minha característica é bem técnica, sou bem veloz, gosto de jogar com a bola nos pés. E marco também, porque aqui na Europa, quem não marcar, não joga. Mas gosto de fazer o time andar, construir jogadas, finalizar", comentou o jogador brasileiro.

Fernando Silva, jogador brasileiro
Arquivo pessoal
Fernando Silva, jogador brasileiro

No Brasil, Fernando atuou profissionalmente somente em dois clubes: Caldense, de Minas Gerais, e ABC, de Natal. Jogou também na base de outros times, como Vasco, Tigres-RJ e Bahia de Feira de Santana.

"Quando estava na Caldense, um empresário me viu jogar e quis me levar para Bulgária. Fui para fazer teste e no segundo trabalho já fui aprovado, assinei contrato no Slavia Sofia e fiquei dois anos. Rodei pela Europa, joguei na Rússia, Turquia, Portugal, voltei para Bulgária e agora estou na Macedônia", contou Fernando.

Ajuda providencial no passado

Quando ainda sonhava em seguir a carreira profissional dentro do futebol, Fernando recebeu uma ajuda providencial de traficantes da favela onde morava, no Rio de Janeiro. "Não tenho vergonha de falar não. Eu sou um milagre. Minha família nunca teve condições, meu pai foi padeiro, minha mãe nunca pôde trabalhar por conta de problemas físicos. Tinha vizinhos envolvidos com tráfico e eles ofereciam ajuda, toda semana me davam dinheiro de passagem, para comprar chuteira e até mesmo comer", lembrou.

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Fernando Silva na Macedônia
Arquivo pessoal
Fernando Silva na Macedônia

"Eu ficava em casa tranquilo, só saía para treinar e jogar. Eles mesmos deixavam todo mundo afastado deles. Mas é normal, é assim mesmo. Jogador profissional às vezes já sofreu muito lá no passado. Me ajudaram bastante. Pessoas que para sociedade são ruins, porque vivem na favela, vivem de tráfico. Mas tem pessoas que também fazem o bem lá dentro. Agradeço por terem colocado eles no meu caminho", disse o meia-atacante, que é carioca de nascimento e sempre visita os amigos na favela quando está de férias no Brasil. 

"Toda vez que estou no Brasil visito a favela. É minha origem. É um lugar que está sempre guardado na minha vida e no meu coração, onde tudo começou. Tenho muitos amigos e familiares. Alguns amigos meus já morreram, outros não sei onde estão. Faço minha pelada de fim de ano, churrasco", disse o jogador do Pelister.

Baque na vida

Quando defendia o Desportivo das Aves, de Portugal, Fernando sofreu o maior baque da sua vida: a morte do pai. E por conta disso ele até pensou em abandonar a carreira, mas pensou melhor e decidiu continuar trilhando o seu caminho nos gramados.

"Estava em Portugal e tocou meu telefone muito cedo, estava cansado. Atendi e recebi a pior notícia da minha vida, que era a morte do meu pai. Ali para mim o mundo parou. Queria largar o futebol, queria largar tudo. Cheguei a rescindir contrato com o clube e fui para o Brasil. Até hoje não aceito isso, de não poder mais ver meu pai. Foi um guerreiro na vida", disse.

"Racismo aqui é normal"

Fernando Santos já rodou pela Europa
Arquivo pessoal
Fernando Santos já rodou pela Europa

Fernando Silva, de 26 anos de idade, revelou no bate papo com a reportagem do iG que sofreu preconceito racial na Europa e que ainda presencia atos assim até hoje. "Tem racismo sim, as pessoas rejeitando, com inveja. Achando que só porque é brasileiro ganha um salário maior. É muito difícil", disse o brasileiro, que citou um caso que aconteceu quando estava na Bulgária, dentro do próprio clube.

"Racismo aqui é normal. Na Bulgária, dois ou três jogadores me chamavam de macaco, mas eu não entendia nada. Depois que um brasileiro me explicou o que era, fiquei sabendo. Tive até atrito com o goleiro que era o capitão lá, me chamavam de macaco. A gente vai engolindo sapo, mas chega um momento que a gente explode", comentou.

"A torcida adversária também, sempre com xingamentos racistas. Autoridade não faz nada, a polícia não faz nada. Para que? Eles vão perder tempo? Aqui para eles é normal. Mas eu mudei muito como pessoa. A cultura aqui é diferente", lamentou Fernando.

Sonhos e inspirações

Atuando num centro de pouca expressão no mundo, que é a Macedônia, Fernando Silva disse que o seu grande sonho é jogar em um clube grande do Brasil ou da Europa. "Já estive perto disso, mas sou novo e confio no meu potencial", avaliou, lembrando dos atletas que o inspiram dentro de campo. 

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"Sempre vejo alguns vídeos de jogadores que admiro no futebol. Sou fã, eu amo o Ronaldinho Gaúcho. Eu amo esse cara. O que ele fez é inacreditável. Também vejo vídeos do Maradona. E atualmente gosto muito do Messi e Neymar, jogadores de alta qualidade, monstros. O mundo tem que respeitar eles. Gosto do David Silva, do Manchester City, Thiago Alcântara, do Bayern de Munique, eles são craques", finalizou o jogador.

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