
Muitos lembram do Campeonato Brasileiro de 1987 ser marcado por não ter sido inteiramente organizado pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol), mas há outra edição em que a entidade máxima do futebol brasileiro esteve completamente alheia ao torneio. No Brasileirão de 2000, a CBF não organizou a principal competição do país, em função de uma intrincada batalha jurídica que movimentou os tribunais esportivos do país.
Caso Hiroshi

Para entender a dinâmica relacionada ao Campeonato Brasileiro de 2000, é preciso voltar ao ano de 1999. O São Paulo contava com um atacante chamado Sandro Hiroshi, que foi o principal estopim para o início de todo desenho que posteriormente iria parar nos tribunais esportivos.
O jogador foi escalado de forma irregular por problemas em sua transferência e falsificação de identidade. Botafogo e Internacional souberam da situação e acionaram o STJD (Tribunal de Justiça Desportiva), que puniu o clube paulista e repassou os pontos das partidas para cariocas e gaúchos.
A ação conjunta mudou drasticamente o cenário da competição. O Botafogo, por exemplo, se livrou do rebaixamento, e decretou a queda do Gama, do Distrito Federal, para a segunda divisão do Brasileirão.
A revolta do Gama

O Gama não aceitou o rebaixamento fora das quatro linhas, e, respaldado por partidos políticos, ignorou leis proibidas pela FIFA e acionou a Justiça Comum para resolver o imbróglio.
Juízes de Brasília concederam liminares favoráveis ao clube do Centro-Oeste, determinando que a CBF estava impedida de realizar qualquer campeonato que excluísse o Gama da primeira divisão. Caso a entidade agisse de outra forma, sofreria com multas milionárias diárias e restrição em suas contas.
Jeitinho brasileiro

Ciente das questões em que já estava envolvida após a ação do Gama, a CBF decidiu declarar-se incapaz de organizar a competição em 2000. O torneio foi repassado pela entidade máxima do futebol nacional ao Clube dos 13.
Por ser à época entidade privada, o Clube dos 13 não tinha direito de seguir as liminares impostas pela Justiça como a CBF. Ainda assim, alguns acordos foram firmados para a realização da competição, como a anulação do rebaixamento dos clubes de 1999, incluindo o Gama, e a criação de um megacampeonato com 116 times, chamado Copa João Havelange. O Fluminense, que havia conquistado o acesso da Série C para a Série B em 1999, pulou diretamente para a primeira divisão com o novo formato.
O torneio foi cercado de desconfiança, justamente por um ano anterior polêmico e pela ausência da CBF na organização. Por fim, o Vasco foi campeão após bater o São Caetano na final, empatando no Parque Antártica por 1 a 1, e vencendo no Maracanã, já em janeiro de 2001, por 3 a 1.