Luxemburgo falou com exclusividade ao iG Esporte sobre a carreira
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Luxemburgo falou com exclusividade ao iG Esporte sobre a carreira

Sem clube após deixar o comando do Cruzeiro no fim de 2021, Vanderlei Luxemburgo segue analisando as opções para o futuro. Em entrevista exclusiva ao iG Esporte, o ‘profexô’ entrou em detalhes da sua vasta carreira como técnico, e afirmou que ’não faltou nada’ durante sua trajetória.

"Qualquer cidadão no mundo, na área esportiva, que tenha conquistado tudo aquilo que conquistei, falar que faltou alguma coisa teria sido uma injustiça muito grande com Deus. Ele foi muito bom para mim, só que as pessoas dão muita ênfase na falta de uma Copa do Mundo, isso ou aquilo, quantos técnicos não tiveram o privilégio de estar numa Copa e foram grandes treinadores? Então não faltou nada, Deus me deu muita coisa", disse Luxemburgo ao iG Esporte.

(Veja fotos de Luxemburgo na galeria abaixo)


Personalidade forte

Com um jeito sempre original nas palavras e decisões, Luxemburgo virou uma atração a parte no futebol brasileiro. No entanto, muitos dirigentes de clubes também gostam de impor posição, com um certo ‘ego nas alturas’, algo que Luxemburgo acredita que possa ter atrapalhado em alguns momentos.

"Pode ser que sim, sempre tem um desconforto. Mas sempre tentei fazer o meu trabalho e discutir minha profissão com propriedade. O que eu acho é que o futebol brasileiro nesse últimos anos deu uma boa melhorada, sempre faltaram gestores, não é ganhar títulos, mas sim a gestão do clube, para ter um equilíbrio financeiro, a parte administrativa, crescimento do time, isso tudo é gestão. Então ao longo do tempo fomos melhorando isso, hoje nós temos grandes dirigentes, que visam ganhar receitas de maneiras diferentes. Mas ao longo do tempo tive desconfortos com muita gente. Dirigente, em sua grande maioria, sempre achou que conhecia futebol, dirigente não tem que conhecer futebol e sim contratar profissionais para poder administrar o futebol para ele".

Experiência em literatura?

Luxemburgo disse que pretende passar seu conhecimento como técnico através de livros, cursos e palestras, que segundo ele existe um equívoco muito grande em relação aos cursos profissionalizantes realizados pela CBF, com profissionais estrangeiros. Além disso, o treinador defende o futebol praticado no Brasil, afirmando que somos referência desde a conquista da Copa do Mundo de 1970. 

"Esse meu conhecimento sobre futebol com certeza será passado para livro, acho importante termos literaturas pois não temos no futebol, muitas poucas coisas que escrevemos sobre nós, então será passada para literatura e a nível de cursos. Acho que existe um equívoco muito grande no futebol brasileiro que aconteceu nos últimos anos que foram os cursos da CBF para os técnicos. Foram muito bons, só que nós estamos no Brasil, não na Europa, nem no continente asiático, estamos na América do Sul, então acho que os cursos que a CBF deu não deveriam ter sido dados por técnicos de fora do Brasil, e sim por treinadores brasileiros e os de fora serem convidados para dar uma aula para fazer troca de informações. Nós não podemos ser formados por treinadores de outros países enquanto somos brasileiros. Acho um grande equivoco, tanto é que o vocabulário do futebol brasileiro mudou em função dos cursos de licença da CBF. A Inglaterra tem um vocabulário próprio do futebol, Espanha tem outro, Alemanha, mas vieram no Brasil e trocaram os nomes das coisas que sempre fizemos. A marcação pressão se tornou marcação alta, posse de bola no campo adversário passou a ser proativo e reativo é o que fica mais na defesa, então tudo foi uma mudança de nome. O moderno não é isso, e sim o que você tem fora do campo, isso sim, a estrutura que o Brasil tem hoje não deve nada para o futebol europeu, é só ver os centros de treinamentos do Palmeiras, Atlético-MG, Corinthians e tantos outros que já construíram locais de alto nível".

"As pessoas falam que agora o Brasil está jogando no 4-1-4-1, 4-2-3-1 como se isso fosse uma coisa nova, em 1970 se jogava dessa maneira, o Zagallo colocou o Tostão como joga o Messi, mas não vejo os brasileiros valorizarem isso, exaltam a ‘Laranja Mecânica’ como se fosse algo que nunca foi feito. O que o Zagallo fez em 70 se joga hoje, um centroavante como um cara de técnica, com mais qualidade de jogo, como o Messi atua. O que dão de porrada na gente sobre parte tática, que estamos atrasados - como estamos atrasados se o Brasil jogava com três zagueiros sem ter três zagueiros? Dois volantes de qualidade, como Gerson e Clodoaldo, que saiam para jogo e faziam gols. Jogava com três homens à frente, com Jairzinho, Pelé e Rivellino, com o Tostão na frente abrindo espaço para eles, como vamos ser ultrapassados se em 70 o Brasil deu uma aula para o mundo sobre parte tática? E algo que se joga hoje. Isso é moderno para quem não estuda futebol".

Confira, abaixo, outros trechos da entrevista do iG Esporte com Vanderlei Luxemburgo:

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iG Esporte: O que você pensa sobre um técnico estrangeiro assumir a seleção brasileira?

Vanderlei Luxemburgo: Nós fomos pentacampeões com quem? Só brasileiros. A seleção para chegar em um Mundial é um ciclo, então uma geração que tem 20, daqui a quatro anos terá 24, depois 28 e aí estará madura, como uma Alemanha, França, Espanha, Itália, pronta para ganhar um campeonato mundial, então é difícil você manter uma sequência, que não seja o bicampeonato (58 e 62), mais do que isso. Aí chega um outro tempo para formar outra geração. As pessoas não estudam isso. A França, por exemplo, já era para ter sido campeã aqui no Brasil. A Alemanha chegou em sua terceira competição que estava disputando com 70% dos jogadores presentes nas edições anteriores, a França que vai disputar essa Copa é uma das favoritas porque ela manteve a base, está madura. A Seleção brasileira de 1970 foi a que perdeu em 1966, a campeã de 1958 foi derrotada em 54, a de 1994 manteve o elenco da que perdeu em 90, uma geração do Dunga, que era muito ruim, que levou porrada, e ele foi um dos melhores jogadores do título de 94. As pessoas não conseguem entender que você não consegue ganhar sempre. Você tem que entender o seguinte, o Brasil é pentacampeão do mundo, os outros não conseguiram.

Não vejo essa necessidade de ter um estrangeiro por aqui, mas entendo que nós não podemos mudar nossa cultura e nossa essência, e sim trazer o moderno, que é treinamento, estrutura fora do campo para dentro do nosso trabalho, para aquilo que sempre fazíamos, mas não proibir nosso jogador de dar dribles. Cheguei para o Zidane (época no Real Madrid) e falei para ele não marcar o lateral até o final, era para chegar por trás dos dois atacante e enfiar as bolas para eles. Imagina ele marcar lateral até o final? O Rivaldo? Então vejo os jogadores de lado de campo atualmente tendo que marcar os laterais, e onde que fica o gol? Está distante. Houve uma mudança na cultura do nosso jogo.

iG: Existe uma cobrança excessiva com os dribles feitos por jogadores como Neymar e Vinícius Junior no futebol? Que partem para cima e não tem medo da firula?

VL: Hoje é firula, mas antigamente era lindo você ver o Pelé dar caneta e lençol, o Garrincha passar e voltar pela bola até partir com ela. Era firula? Hoje está muito mimimi, uma frescura, como se fosse proibido fazer as coisas, então o Garrincha não jogaria hoje.

iG: Vemos a seleção brasileira empolgando nas Eliminatórias, colecionando bons resultados, mas sem enfrentar seleções europeias, sem ter aquela ‘casca’. Acredita que 2022 o Brasil tem chances de vencer a Copa?

VL: É uma das favoritas para conquistar a Copa, o Brasil sempre vai estar entre um dos candidatos. Mas eu acho que faltaram alguns jogos contra equipes fortes, contra a França, Itália, Alemanha, para trocar informações, eles vão pegar as nossas e a gente as deles. Agora, quem tem que resolver isso não sou eu, se pegar as Eliminatórias que o Tite fez nunca ninguém chegou perto, mas isso não quer dizer que vai ganhar a Copa do Mundo por causa disso, isso não dá o direito, uma Copa muda completamente para uma Eliminatória. Na Copa tem uma parte que você joga para classificar e a outra é matar ou morrer, e nessa você pode morrer com um gol como foi contra a Holanda, Bélgica. O emocional no jogo muda totalmente.


iG: Pretende assumir algum clube em 2022? Qual é o seu planejamento?

VL: Estou com a minha família, vim para Tocantins, onde tenho uma emissora filiada à Record. Tenho minha vida pessoal, tantos anos no futebol e tem alguns projetos que existem com empresas, mas existe uma conversa com meus familiares no sentido do que vou fazer. Surgiram oportunidades com seleções de outros países, que podem disputar uma Copa do Mundo, mas quero decidir com eles. Existe uma possibilidade política que apareceu aqui no Tocantins, vamos ver o que vai acontecer comigo em 2022.

iG: No seu currículo como técnico só faltou o São Paulo nos considerados quatro grandes times do estado. Acredita que ficou devendo uma passagem pelo Tricolor?

VL: Passei por quase todos os grandes clubes do Brasil, faltou o Botafogo, São Paulo, Internacional. Joguei no Inter, o São Paulo é um clube de referência nacional e mundial, então um técnico no nível que cheguei deveria ter trabalhado por lá. Acho que realmente ficou faltando o São Paulo, o Inter e o Botafogo, que comecei jogando futebol em 1966 e depois tive a oportunidade de atuar pelo profissional.

** Felipe Silva é repórter de esportes do iG e autor da coluna Fora o Baile. Tem experiência em redações de jornais impressos e rádios de São Paulo, com passagens pelo Diário de Suzano, O Novo, Rede Contínua e DataFoot.

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