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A maneira mais fácil de entender a influência de Fabrizio Romano, um jornalista de 28 anos com um iPhone lotado e a hora de dormir marcada para as cinco da manhã é olhar para seus números.

São 6,5 milhões de seguidores no Twitter, duas vezes e meia mais do que a Inter de Milão — o time envolvido na alçada de Romano ao estrelato — ou Bruno Fernandes, o meia do Manchester United que, sem saber, transformou o jornalista em um fenômeno global.

Ele tem outros 5,6 milhões de seguidores no Instagram, além de 4,5 milhões no Facebook. Em seu canal no Youtube, são 692 mil inscritos. Na Twitch, plataforma de streaming e lives, são 450 mil seguidores. 

Tudo isso até o momento. É muito provável que entre o momento em que esse parágrafo foi escrito e o que está sendo lido, os números já tenham decolado ainda mais. Estamos em janeiro, um dos dois momentos do ano em que tudo explode para um jornalista que cobre o frenético e multibilionário mercado de transferências do futebol. A cada dia, as contas de Romano nas redes atraem centenas de torcedores ávidos em busca de notícias sobre as possíveis contratações de seus times.

Ainda que essas métricas mostrem de forma imediata um recorte da popularidade de Romano — assim como de jornalistas que cobrem a NBA ou a NFL —, não dizem muito sobre o quão profundo é seu impacto.

No mês passado, o atacante espanhol Ferran Torres postou um vídeo treinando no clube que o revelou, o Valencia. Torres passou o natal em uma espécie de limbo, aguardando que sua antiga equipe, o Manchester City, acertasse sua venda ao Barcelona. No dia 26 de dezembro, as coisas andaram e o jogador quis deixar claro a seus seguidores que a transferência era iminente. “Me preparando em casa, no Valencia”, escreveu, na legenda do vídeo. Na linha seguinte, uma frase: “Here we go” (“Aqui vamos nós”, em tradução livre).

As três palavras tinham como significado o equivalente à fumaça branca saindo de uma chaminé. Significam que uma negociação no futebol está concluída. São palavras de Romano: seu selo de aprovação, seu cartão de visitas, algo que ele mesmo se refere, com uma pontada de arrependimento, como seu bordão.

A frase, mais do que o seu número de seguidores, é a melhor mostra da influência de Romano. De jogadores a torcedores, uma transferência não acontece se não tiver o “selo” de Romano. O “here we go”, em alguns casos, é usado como substantivo: o jornalista é constantemente perguntado se já é possível soltar o “here we go”. 

Seu poder hoje é grande, e não necessariamente intencional. Passou de um repórter meramente cobrindo o mercado de transferências para uma força envolvida nele. Com isso, Romano mexeu com a linha entre jornalista e influenciador, observador e participante.

Favor devolvido

O início da carreira, segundo ele, aconteceu do nada. Romano escrevia sobre futebol quando adolescente em Nápoles, sua cidade natal. Escrevia a histórias e as enviava de graça para uma série de sites italianos de futebol na expectativa que fossem publicadas.

Ele não sabe dizer ao certo como um aspirante a empresário de jogadores soube de seu nome e conseguiu seu telefone. “Ele trabalhava em La Masia (as famosas categorias de base do Barcelona) e queria se tornar um agente”, contou Romano em entrevista, no mês passado. “Queria convencer dois jogadores a serem representados por ele e perguntou se eu poderia escrever perfis de ambos”. Os jogadores eram um jovem ponta espanhol, Gerard Deulofeu, e um atacante jovem e prodígio, Mauro Icardi.

Romano escreveu os perfis, o empresário conseguiu os clientes e os dois seguiram em contato. Em 2011, Romano deu o furo sobre a saída de Icardi do Barcelona à Sampdoria. Ele conta com orgulho que essa foi sua primeira notícia, mas seu impacto foi limitado: Icardi tinha 18 anos, era um jogador de base. Sua ida a um time com problemas na segunda divisão italiana não mexeria com o mundo. 

Mas em novembro de 2013, o empresário ligou de novo. “Disse que eu o ajudei no início da carreira, então era a vez dele de me ajudar”. Icardi, de acordo com a sua fonte, concordou em se transferir para a Inter de Milão no próximo verão. Seis meses antes do acordo ser anunciado oficialmente, Romano publicou a notícia num site de fãs da Inter.

“Foi quando tudo mudou”, diz o jornalista. Ele se mudou de Nápoles pra Milão e deixou o complicado mundo do jornalismo freelance por um emprego na emissora Sky Sport Italia. A primeira cobertura foi justamente acompanhar os exames médicos de Icardi na Inter. “Essa história foi parte da minha vida”.

O futebol em geral sempre teve um apetite insaciável por especulações e rumores de transferências. Na Inglaterra, aparecem em registros de jornais esportivos já extintos desde 1930. Mas em lugar algum ele é tão forte quanto na Itália.

“Vamos lembrar que, por um longo tempo, a Itália teve quatro jornais diários dedicados ao esporte”, diz Enrico Mentana, apresentador de TV, diretor e produtor que começou a carreira em um desses diários, a Gazzetta dello Sport. Seu pai, Franco, trabalhou por lá. Foi um famoso correspondente especializado em transferências. 

Para esses jornais, segundo Mentana, as notícias sobre transferências eram “a única forma de vender no verão, em meio a um período sem jogos”. Eles eram auxiliados pelos presidentes de clubes, que ajudavam a transformar o mercado em um “espetáculo”. “Eram grandes industriais, partes de grandes famílias. Para eles, atrair uma grande estrela da América do Sul, por exemplo, era uma chance de mostrar seu poder, dar um presente para o povo”.

Além das fronteiras

Assim que chegou à Sky Sport, o “dono” do gênero de notícias de transferências era Gianluca Di Marzio, o repórter-estrela do canal, apresentador de um programa noturno durante as duas janelas de transferências das temporadas do futebol.

Romano ajudou Di Marzio a criar e atualizar seu site pessoal. Em troca, aprendeu os principais pontos da profissão, especialmente sobre o jornalismo de rua, aplicado há muito tempo para garantir as pistas e os rumores. “Por anos, andava todos os dias pela cidade. Restaurantes, hotéis, todo lugar que as pessoas do futebol frequentavam”, diz Romano.

Mas enquanto esses métodos seguiam firmes, Romano percebeu de forma intuitiva que o cenário estava mudando. Rapidamente, entendeu que as redes sociais poderiam funcionar tanto como fonte, quanto como o palco da divulgação das informações. Ele tinha também uma ideia inata de que tipo de conteúdo funcionava em cada plataforma. 

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“Um exemplo. Eu usava o Instagram inicialmente como um perfil pessoal. Postava uma foto de um pôr do sol bonito, um jantar legal. Mas as respostas, toda vez, eram de pessoas me perguntando sobre transferências. Ninguém estava interessado na minha vida. Não sou uma estrela, sou um jornalista. Um jornalista é um intermediário”, diz o italiano. 

Seu insight mais significativo, no entanto, foi o de que não havia motivos para se esconder sob fronteiras. Em meio a muitos comentários pedindo notícias de times da Inglaterra, da França ou da Espanha, assim como publicava sobre os da Itália, ele foi atrás de notícias de longe de casa.

Para Romano, o seu salto para os palcos do futebol mundial veio em 2020. Bruno Fernandes, um talentoso meia português, passou o verão inteiro sendo ligado a uma possível transferência ao Manchester United, enquanto Romano negava de forma sistemática. Meses depois, o clube avançou no negócio. Quando Romano soltou seu “here we go”, a reação foi intensa.

Ele não afirma ter sido o primeiro a noticiar — a história vinha pipocando por meses e vinha sendo extensivamente noticiada semanas antes de se concretizar. Na sua visão, o valor da informação nas redes sociais não está na velocidade, especialmente entre os usuários envolvidos no caótico e contraditório mundo do mercado de transferências. 

O que os fãs mais querem, diz ele, é saber que o que estão lendo é verdade. É o que tenta fazer. “Não tenho um prazo ou um jornal para colocar nas bancas. Escrevo sobre as coisas quando elas de fato acontecem”.

Relação com clubes

Em parte, sua crescente influência — ganhou cinco milhões de seguidores em suas redes nos últimos 18 meses — tem a ver com sua ética de trabalho. Quando Romano não está escrevendo sobre transferências para o jornal inglês “The Guardian” ou para a Sky Sport, está falando sobre elas no Twitter, Instagram, Facebook e Youtube. Ou então, em seu podcast, no seu canal na Twitch ou no mais recente trabalho, que aceitou no ano passado, na emissora CBS Sports. Ele discute as notícias em alguns podcasts exclusivos de clubes quando tem tempo para participar como convidado ou apenas responde seus seguidores nas redes sociais. Há até a ideia de um livro. Durante as janelas de transferências, diz que normalmente não vai dormir antes das cinco da manhã.

 Seja pela dedicação a seu trabalho ou à sua “marca”, funcionou. Romano mostra um amor especial quando fala de sua paixão. Frequentemente, o alcance dos clubes e jogadores envolvidos em transferências tem sido menor do que o dele, a pessoa que as reporta. 

No último verão, quando o Valencia se aproximava de fechar com o atacante brasileiro Marcos André, que jogava no rival Valladolid, o setor de marketing do clube e a empresa de comunicação responsável, a VCF Media, foram incumbidos da tarefa de pensar em uma forma inesperada e impactante de anunciar a contratação.

Uma transferência, antes de tudo, é uma chance de um clube atrair atenção, ganhar olhares e quem sabe alguns novos torcedores em meio a uma batalha mundial por engajamento. O Valencia não compete só com rivais locais como o Villarreal e o Sevilla por essa audiência, como também com times de Itália, Alemanha e Inglaterra.

Naquele momento, o problema era que não havia nada de novo no interesse do clube em Marcos André. A negociação já vinha sendo noticiada há semanas. Para chegar ao maior público possível, a VCF Media decidiu fazer algo diferente no anúncio oficial.

Assim que tudo foi assinado e o jogador passou nos exames, o clube entrou em contato com Romano e, com autorização de Borja Couce, empresário de Marcos André, perguntou se o jornalista italiano gostaria de participar do anúncio. Romano concordou e gravou um vídeo curto falando sobre o negócio. Terminava, claro, com seu bordão.

A lógica do Valencia era simples. Romano tem 6,5 milhões de seguidores no Twitter, e o clube, 1,3 milhões. Para a VCF, ele era um “tremendo influenciador do futebol, um atalho para uma audiência maior”, como diz um porta-voz do clube. Romano era o ponto em que esporte e entretenimento convergem.

Desde então, outros clubes seguiram o exemplo. Torcedor do Watford, da Inglaterra, o jornalista apareceu ao lado de jogadores no anúncio da nova camisa do clube, no verão. Este mês, apareceu em vídeos do alemão Augsburg e do canadense Toronto FC para anunciar o atacante norte-americano Ricardo Pepi e o meia-atacante italiano Lorenzo Insigne, respectivamente. A Sportfive, agência de marketing de Nova York que intermediou a participação de Romano no Augsburg, não respondeu se o jornalista foi pago.

Fama e riscos

Essas interações mostram o status híbrido de Romano. Tradicionalmente, os clubes europeus preferem manter os jornalistas a uma certa distância. Eles mantêm em segredo seus planos de transferências temendo que um vazamento inoportuno de informações possa prejudicar uma negociação que tenha levado meses.

Romano, porém, foi abraçado por todos os players do mercado. Contas oficiais de clubes reproduzem seu bordão. Ele tem contato direto com donos de clubes, empresários e até jogadores. Ramy Abbas, agente de Mo Salah, chegou a dizer ao jornalista, em uma rede social, que “estava entediado”, uma referência ao impasse na negociação da renovação de seu cliente com o Liverpool. 

O renome é útil profissionalmente: a fama abriu portas. “Eu lembro de um diretor esportivo me ligando em janeiro passado. Falava muito dele e do nada ele ligou. Disse que queria conhecer o cara que parecia saber de tudo”, diz ele. Romano ficou brevemente deslumbrado.

Mas essas relações trazem riscos. A mesma influência que faz de Romano valioso para clubes que querem chegar a seus seguidores o expõe àqueles que tentam usar sua reputação para ganhar credibilidade. O mercado de transferências é uma indústria de 6 bilhões de dólares. Negócios podem valer milhões só em comissões. Mas são frágeis e imprevisíveis. Uma palavra de alguém como Romano pode ajudá-los ou destruí-los. Um perigo que ele conhece e envolve pessoas que querem dar “sua versão da verdade”.

“Mas não tenho um programa para fazer ou uma manchete para escrever”, diz. Pode esperar até o “momento certo” para todos os envolvidos. “O jornalista não precisa ser um inimigo”, afirma.

É como Romano se vê depois de tudo isso, mesmo com todo o impacto e alcance. Ele rechaça o termo “influenciador”, mas já atravessou esse rio há algum tempo. A linha que separa o observador e o participante, o de dentro e o de fora, é tênue. Romano a cruzou. Nem ele poderá dizer com certeza até onde vai.

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