Turco Mohamed
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Turco Mohamed

Perto de concluir as negociações para se tornar o novo treinador do Atlético Mineiro, o argentino Antonio "Turco" Mohamed (veja galeria de fotos abaixo) traz na bagagem, além da vasta carreira de sucesso no futebol sul-americano, uma história pessoal de luta e superação. O treinador perdeu o filho Farid, de apenas 9 anos, em um acidente de carro durante a Copa do Mundo de 2006 e emocionou o mundo ao cumprir uma promessa que fez ao pequeno.

Fã de futebol e da seleção argentina, Farid pediu ao pai para acompanhá-lo em uma viagem de amigos pela Alemanha durante o Mundial daquele ano. O grupo acompanhou a campanha da albiceleste na competição até a eliminação para os germânicos nas quartas de final, nos pênaltis. No dia seguinte à partida, alteraram as passagens de volta e pegara a estrada para o aeroporto de Frankfurt para retornar à Argentina. Mas um acidente no caminho mudaria tudo.

O veículo em que estavam, uma espécie de motorhome, foi atingido em uma colisão traseira. O treinador diz que não se lembra do acidente, apenas de ser resgatado por um helicóptero. Antonio ficou internado por 60 dias e quase perdeu a perna esquerda. O pequeno Farid não resistiu aos ferimentos e teve seus aparelhos desligados após quatro dias no hospital.

A viagem era uma tentativa de animá-lo após o técnico não conseguir o acesso com o Huracán, um dos times do coração de Farid, no Campeonato Argentino. Mas o pai fez uma promessa envolvendo o outro time para o qual o filho torcia, o Monterrey: a de ser campeão mexicano com os Rayados. A paixão pela equipe veio do período que o pai atuou por lá como jogador, entre 1998 e 2000.

— Quando voltamos a viver na Argentina em 2005, eu jogava no Monterrey e ele era torcedor. Sempre falávamos de futebol e a promessa era que, como o Monterrey era um time muito grande e não pude ser campeão como jogador, voltaria como técnico para isso.

Após o acidente, o treinador conseguiu o acesso com o Huracán em 2007, o que certamente já alegraria o coração de Farid. Depois, fez carreira por clubes da Argentina e do México: foi campeão da Sul-Americana em 2010 pelo Independiente e do Mexicano por Tijuana (Apertura de 2012) e América (Apertura de 2014). Quando finalmente chegou ao Monterrey, em 2015, as coisas começaram a desandar nos momentos decisivos. Mohamed bateu na trave duas vezes seguidas e acabou vice-campeão mexicano em 2016 (Clausura) e 2017 (Apertura). Deixou o clube com o título da Copa México.

Mas o destino o colocaria novamente na rota da promessa. O "Turco" voltou ao Huracán para uma terceira passagem e teve a primeira experiência europeia no espanhol Celta antes de emocionar o mundo na volta a Monterrey. Pouco antes de reassumir o cargo no clube mexicano, em outubro de 2019, deu entrevista emocionante sobre o filho a um programa de TV argentino.

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— É uma situação que em um segundo muda sua vida. A partir daquele momento, minha vida se transformou. Tento soltar essa dor e acho que já quase consegui. (Tento) transformar em energia positiva, viver com meus filhos e amá-los, tirar desse sofrimento uma parte positiva — disse, em agosto.

A história não poderia ter um fim melhor: o treinador assumiu o Monterrey e levou o clube a sua melhor campanha na história (terceira colocação) do Mundial de Clubes, em dezembro — deu muito trabalho para o campeão Liverpool na semifinal (derrota por 2 a 1). Semanas após o torneio, viria a consagração, carregada de emoção.

Monterrey e América decidiriam no mítico Estádio Azteca o título do Mexicano de 2019 (Apertura). A decisão foi para os pênaltis após dois jogos com o mesmo placar — 2 a 1, com vitória dos Rayados na ida e derrota na volta. A terceira chance de Mohamed cumprir a promessa a Farid ficou nos pés de Leonel Vangioni, para silêncio do técnico no banco. Na semana do jogo decisivo, Mohamed optou por falar pouco, como não era de costume, e visitou a Basílica de Guadalupe, onde fez uma uma promessa à Santíssima Virgem de Guadalupe.

Vangioni converteu a penalidade e deu o título ao Monterrey, para a emoção do "Turco", da comissão técnica, torcedores e todos que sabiam da história. O treinador se emocionou fortemente enquanto se agarrava a um terço religioso, que representava a presença de seu filho.

— Dedico esse título a minha mãe, meu pai e meu filho. Eles devem estar fazendo um grande jantar lá em cima — comemorou o técnico após a partida.

— Quando menos esperávamos, saímos campeões. Pra mim, foi como tocar o céu com as mãos. Desde que meu filho morreu, sempre ia ao banco de reservas com o terço. Depois desse dia, já não levo mais — relembrou à TV argentina, em 2021.

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