Árbitro
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O descontentamento é geral, pode ser visto no campo de jogo, nas arquibancadas, nas salas dos dirigentes dos clubes, nos corredores da CBF: a arbitragem do futebol brasileiro vive fase muito ruim. A sequência de erros ao longo dos campeonatos das Séries A e B, mesmo com o advento do VAR, colocou o trabalho da Comissão de Arbitragem na marca do pênalti. Na manhã desta sexta-feira, veio o estopim: a CBF anunciou a saída do presidente da comissão, Leonardo Gaciba (veja galeria de fotos abaixo) , que vinha sendo alvo frequente de críticas.

"O Presidente em exercício da CBF, Ednaldo Rodrigues Gomes, conversou com o Presidente da Comissão de Arbitagem, Leonardo Gaciba, nesta sexta-feira (12) e o entendimento mútuo foi pela necessidade de uma mudança, com a implementação de novos procedimentos visando maximizar os acertos e minimizar os erros de todos os envolvidos", diz o comunicado.

Em meio a uma promessa de reformulação da estrutura de arbitragem na confederação, Alício Pena Júnior, até então vice-presidente de Gaciba, assume interinamente as funções de presidente. Até o fim do Brasileiro, em dezembro, terá a tarefa de concentrar as pressões sobre a comissão e contornar o cenário turbulento.

Ednaldo Rodrigues enxergava a necessidade de mudanças no trabalho realizado com os árbitros. Existe a ideia de que a entidade oferece todas as condições para que o nível de acerto nas marcações fosse maior. Presidente da Associação Brasileira de Árbitros de Futebol (Anaf), Salmo Valentim reforça a tese, mas enxerga carência de liderança por parte de Gaciba.

Entre os 19 clubes da Série A questionados por O GLOBO a respeito da crise na arbitragem — apenas o Athletico não foi encontrado para falar a respeito —, sete se manifestaram insatisfeitos em relação ao nível dos árbitros no Brasileiro: Flamengo, Grêmio, Internacional, Chapecoense, Atlético-GO, Bahia e Fortaleza. Os demais preferiram não se posicionar a respeito.

Na partida contra a Chapecoense, duas marcações erradas fizeram com que o Flamengo anunciasse o desejo de processar Denis Ribeiro da Silva Serafim. Ontem foi a vez do Bahia, adversário do rubro-negro, protestar com veemência:

“Ameaçamos não voltar para o segundo tempo. Mas abandonar o jogo não é coisa desse clube aqui. A gente não quer favorecimento, apenas arbitragens justas”, escreveu nas redes sociais.

O Internacional, após a derrota de quinta-feira para o Juventude, levantou o tom.

— Mesmo com a tecnologia, estamos deixando a desejar principalmente com a falta de critérios. Há muita diferença de interpretação — afirmou o presidente Alessandro Barcellos.

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Formação desigual
Ajuda a explicar a ausência de padrão nas marcações o fato de a formação dos árbitros ser descentralizada, a cargo de cada federação estadual. Com isso, as desigualdades estruturais entre o futebol dos diferentes estados cria um quadro de árbitros heterogêneo e desnivelado a serviço das partidas. Com a gradativa degradação do nível técnico dos regionais pelo país, a arbitragem chega para as competições nacionais com pouca capacidade para responder aos lances de jogo mais complexos. Além dos erros quanto à aplicação da regra, equívocos no procedimento de uso do VAR têm acontecido com frequência e realçado o mal preparo dos árbitros, até mesmo para lidar com a tecnologia.

Apesar da Comissão Nacional de Arbitragem defender a redução na interferência do árbitro de vídeo, diminuindo assim o tempo perdido com paralisações, o que tem ocorrido é exatamente o oposto: árbitros são socorridos em demasia. Gravações dos diálogos entre o árbitro no gramado e a cabine, disponibilizadas pela CBF, ainda revelaram a interferência direta da equipe do VAR, quando a decisão do campo deveria ser soberana.

A CBF é cobrada para assumir um papel mais efetivo na instrução dos árbitros. Atualmente, eles são submetidos a apenas duas qualificações por ano, que duram três dias. A entidade funciona mais como fiscalizadora do trabalho. Ela analisa a atuação a cada partida. Ao término delas, os árbitros recebem pontuação e retorno da Comissão Nacional de Arbitragem apontando falhas. A partir daí, os árbitros precisam estudar esses erros dentro de uma plataforma específica para evitar novos equívocos.

Chefe criticado
A falta de maiores consequências para os árbitros que erram foi atribuída a Gaciba — cabe ao conselho nacional impor períodos de ausência na escala dos jogos para reciclagem, o que não vinha acontecendo atualmente.

Neste sentido, o trabalho do ex-árbitro virou alvo de críticas por parte dos clubes. Adson Batista, presidente do Atlético-GO, disse que “esperava mais, muito mais. Foi um árbitro, comentarista, com colocações bastante importantes. Tinha capacidade para enxergar os erros. Mas a gestão deixou a desejar”.

O Bahia foi mais duro, em posicionamento ao GLOBO:

“A forma com que Gaciba conduziu a comissão reflete justamente a falta de credibilidade e confiança no sistema de arbitragem. Os árbitros terminam sendo vítimas de um processo desordenado, sem norte, sem reconhecimento de falhas, sem avanços”.

A falta de profissionalização da atividade, pauta antiga no país, também é considerada um dos motivos para o baixo nível das atuações na temporada — tanto pelos clubes quanto por quem milita no meio, como o ex-árbitro Salvio Spínola, comentarista de arbitragem.

— Os erros vêm da falência na formação do árbitro e por ele não ter dedicação exclusiva ao futebol. Falta preparo — resumiu.

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