Augusto César tem 27 anos, é brasileiro e joga  futebol . Ele está sozinho em Matsumoto, no Japão, cidade que fica a três horas de carro de Tóquio. Há dias que praticamente não sai de casa. Passa horas assistindo à TV, e muitas vezes cai no sono, estirado no sofá. Não tem ninguém para acordá-lo, a não ser o carro de som que passa pelas ruas pedindo para que os moradores não saiam de casa por causa da pandemia do novo coronavírus. Pelo menos é o que ele supõe — Augusto não fala japonês e só entende quando falam o nome do vírus causador da Covid-19 .

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Augusto tentou voltar para o Brasil, mas não foi liberado pelos japoneses F


O volante está assustado: o número de casos da doença disparou em Matsumoto, pelo menos oficialmente, porque ele imagina que somente depois que os Jogos Olímpicos foram adiados que as autoridades japonesas estão revelando o tamanho real da pandemia no país. Para ele, a ficha dos japoneses demorou a cair, mas agora ele vê a população local realmente com medo.

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Augusto entendeu o tamanho do problema um pouco antes. Viu jogadores mais jovens do elenco descumprirem a recomendação para ficarem em casa e, por isso, serem afastados para não correrem o risco de infectarem os demais. Quando o Matsumoto Yamaga, da Segunda Divisão japonesa, convocou seus jogadores para uma reunião para tratar da pandemia, veio o choque:

— Estou muito preocupado. Passaram para nós, jogadores, que quem pegar, eles vão levar para o clube. Não querem que a gente vá ao hospital. Quem pegar a doença vai ficar no clube até se curar. Estou sozinho aqui, não vai ter ninguém segurando a minha mão se eu contrair o coronavírus.

Depois disso, ele acionou seus empresários e tentou a liberação para voltar para o Brasil. Não conseguiu. É do país que vem o conforto, nas conversas com a mãe, que se esforça para manter o filho para cima, mesmo à distância. É do Brasil que vem também a motivação para seguir em frente, apesar do cenário de incertezas.

— Converso com minha filha, ela tem 4 anos, às vezes acorda chateada, porque não pode sair de casa. A mãe dela sabe que é por ela que estou aqui, para poder dar tudo aquilo que eu não tive.

Augusto está só em Matsumoto, mas não está sozinho na solidão que a pandemia impõe aos brasileiros que se aventuram mundo afora atrás do sonho de viver do futebol. Não existe uma fonte confiável que diga quantos estão nessa situação, mas, para se ter uma ideia, de acordo com a Fifa, 1.988 brasileiros protagonizaram transferências internacionais em 2019. Muitas delas para ligas distantes do núcleo rico europeu, onde não se alcança a sonhada independência financeira e as diferenças culturais e de língua são mais acentuadas.

Planos que descem pelo ralo

É o caso do carioca Luis Verdini. Aos 24 anos, se transferiu no começo do ano para o Chiangmai, da Segunda Divisão tailandesa. Era isso ou disputar a Série B do Carioca. Pelo menos na Tailândia ganha em dólar e se aproveita da valorização da moeda em relação ao real. Mas agora nem mesmo isso está garantido.

Zagueiro formado no Botafogo, assinou contrato até outubro, mas por causa da pandemia do novo coronavírus, os jogos de futebol no país asiático só voltarão em setembro. Desde que isso foi definido, Verdini está por conta própria, à espera de uma posição do clube. Sua rotina é acordar, comer, dormir de tarde para o tempo passar mais rápido, e treinar por conta própria, quando encontra disposição.

— Ah, estou aproveitando também para estudar um pouco de tailandês. Aprendi a falar os números.

Amigo de Verdini, Octávio pelo menos não está sozinho em Stara Zagora, cidade búlgara de 160 mil habitantes. Acompanhado da esposa, Laura, tenta digerir o fato de que sua carreira, na prática, está parada há mais de um ano, entre o imbróglio com o Perilima, da Paraíba, seu último clube no Brasil, e a suspensão do futebol por causa da Covid-19. A ida para o Beroe era vista como uma retomada pelo meia, campeão da Série B com o Botafogo, em 2015, e que chegou a jogar pela Fiorentina, da Itália.

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Divugação
Octávio foi alertado pelo Beroe: se for visto na rua, será multado


Agora o que resta é a preocupação, consigo mesmo - o clube já avisou que vai multar todos os jogadores que forem vistos nas ruas - e com os pais, que não conseguem mais abrir o pequeno restaurante que têm perto da Cidade de Deus.

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— Os boletos deles não param de chegar — resumiu.

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