Lance

Lance

Times LGBT lutam pela sobrevivência
Reprodução
Times LGBT lutam pela sobrevivência

Apesar de ser o principal esporte do Brasil, o futebol ainda é um meio muito pouco inclusivo. Enquanto nos times profissionais os jogadores mais renomados recebem altas cifras, a diferença dos times formados por LGBT's é gritante: sofrem para não serem extintos.

A 'TrueColors Cup' é um torneio novo, que vai para a sua segunda edição neste ano. Mas já se tornou um dos campeonatos mais famosos para os times LGBT+. André Vendrami, assessor de comunicação da competição, explicou como ela funciona.

"A primeira edição da True Colors Cup aconteceu no ano passado. Foram 32 equipes vindas do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, Distrito Federal e São Paulo para disputar 64 jogos de futebol e vôlei, contabilizando cerca de 500 atletas LGBT+ em campo e quadra", comentou.

"O evento aconteceu no complexo esportivo da Arena WS e do Clube Nacional, no bairro da Barra Funda em São Paulo, e o público presente nos dois dias foi de cerca de 3 mil pessoas, entre familiares dos atletas, amigos e torcidas. O torneio tem uma drag-madrinha, a Jade Odara, que ajuda a manter o público animado durante todo o evento. O torneio só aconteceu graças ao apoio do Governo Britânico, como parte da campanha 'Love is GREAT', da Gilead Sciences, da ECO Diagnóstica, do Museu do Futebol, das bebidas do bem™", continuou.

A entrada foi completamente gratuita e a organização solicitou aos participantes do evento que doassem alimentos não perecíveis ou kits de higiene pessoal que foram entregues a instituições de apoio à comunidade LGBT+.

"O campeonato também fez uma parceria com o Projeto de Reinserção Social Transcidadania, por meio do qual a parte técnica da competição (sumulação de jogos, apoio aos árbitros e demais funções congêneres) foi realizada com a ajuda de jovens transexuais que fazem parte do programa, que tem como proposta fortalecer as atividades de colocação profissional, reintegração social e resgate da cidadania para a população LGBT+", disse André Vendrami.

Ele completa que a True Colors procurou ir além do esporte. "Além de ser um grito na luta contra o preconceito no esporte e a LGBTfobia, a primeira True Colors Cup procurou ir além dessas fronteiras e abraçou outras causas como a conscientização sobre prevenção e tratamento de doenças sexualmente transmissíveis, principalmente o HIV, com um bate-papo com o médico infectologista e professor da Faculdade de Medicina da USP Álvaro Costa no espaço destinado à campanha #EuPREVIVO, da Gilead Sciences. Além disso, foram distribuídos testes rápidos de detecção do HIV oferecidos pela ECO Diagnóstica para os participantes do talks".

Apesar das grandes e importantes atitudes, a True Colors teve prejuízo financeiro na primeira edição e pode ter na segunda também.

"A True Colors Cup se mantém da nossa vontade de fazer a diferença. Não temos um centavo em caixa a não ser o que já foi pago pelos times inscritos. A primeira edição deu prejuízo. Embora com ajuda dos apoiadores e patrocínios e com o dinheiro pago nas inscrições das equipes, os custos totais do campeonato não foram cobertos e precisamos colocar verba do bolso para quitar a produção. A segunda edição vai acontecer, mas já saiu para a organização com saldo negativo. Estamos correndo atrás de marcas e interessados em abraçar a ideia mais uma vez e, se tudo der certo, fechar as contas ao final do torneio para já podermos pensar na edição 2021. Mas é sempre aquele sufoco, diversos 'nãos', mas o lance é não desanimar, né".

André Vendrami reforça o sentido de um campeonato LGBT+. Segundo ele, o futebol é um esporte muito machista e preconceituoso, em que quase nenhum jogador profissional se assumiu gay. Assim, os homossexuais que querem jogar se sentem mais à vontade em uma liga em que não vão sofrer com ofensas.

"O mundo esportivo é carregado de machismo, o futebol principalmente. Não é à toa o fato de que não há no Brasil - e raros no mundo - jogadores profissionais assumidamente gays. Menos à toa ainda é que os LGBT+ que se interessam por bater uma bolinha precisaram se juntar em times exclusivamente LGBT+ para poder fazer desse desejo uma recreação segura, sem sofrer ofensas, sem ser chamado de "viadinho" ou ter que ouvir coisas do tipo "joga feito homem", "deixa de ser bicha" e coisas muito piores, como constrangimentos em vestiários e tal", avaliou.

"Nos outros esportes o cenário não é muito diferente, principalmente nos bastidores. Então, unir-se em busca de visibilidade, de respeito, de ter o direito de poder ser quem é seja dentro ou fora de campo e quadra é um, antes de mais nada, uma esperança de algo melhor e diferente no futuro. Hoje, principalmente, é preciso lutar para que o retrocesso não perdure e que não se perca o espaço já conquistado a duras penas. Por isso a True Colors Cup, e também a LiGay, a Queer Cup e o GayPrix, para citar outras iniciativas, são gritos - por sorte cada vez mais altos - de resistência contra a LGBTfobia no esporte e fora dele".

beescats

Jogadores do time 'Beescats' (Foto: André Machado)

Seu xará, André Machado foi o criador da 'LiGay Nacional de Futebol e da 'Champions LiGay', além de fazer outras equipes nascerem. Ele veio de São Paulo há oito anos e passou um tempo sem jogar bola. Quando percebeu que a maioria dos seus amigos eram homossexuais, resolveu convocá-los em uma lista de transmissão via Facebook e WhatsApp perguntando quais gostariam de fazer parte do futebol. Segundo ele, na primeira semana apareceram 15, depois 30 e depois 50. Quando reparou, seu grupo estava com mais de 100 pessoas. Assim nasceu o Beescats Soccer Boys (um trocadilho com 'biscates só quer boys'). Em contato com o LANCE! , ele contou um pouco mais sobre a história.

"Entrei em contato com mais uns 6 times do Brasil e usamos as nossas redes sociais para conectar pessoas que queriam montar times e interessados em jogar futebol em outras cidades. Nasceram Bharbixas em BH, Sereyos em Floripa, Bravus em Brasília... Ai decidi criar um torneio para celebrar esse início de movimento tao legal. Nasceu a 'LiGay Nacional de Futebol' e organizei a primeira 'Champions LiGay' aqui no Rio. Por causa deste torneio, outras equipes começaram a nascer. O que em 2017 eram seis ou sete equipes espalhadas pelo país, hoje são quase 60. Na LiGay temos 24 times atualmente", disse Machado, que completou contando mais sobre a trajetória do time.

"Nosso time é um projeto mutante. Começou como pelada de amigos que buscavam um ambiente saudável para jogar, se divertir, sem serem julgados ou terem que aguentar piadinhas ou mesmo fingirem serem alguém que não são. Após ganharmos pódio nos primeiros campeonatos que disputamos, começamos a atrair atenção e boleiros gays vieram para o time. Isso afastou um pouco quem só queria jogar sem compromisso. Virou um time de competição. Fomos a Paris jogar o World Gay Games (espécie de Olimpíadas, com 15 mil atletas em 26 modalidades). Voltamos com a prata. Foi a primeira vez que o Brasil foi representado no futebol neste torneio que existe desde 86. Passamos inclusive a jogar torneios tradicionais, com times não gays. Fomos o primeiro time gay de futebol a jogar uma liga no Rio de Janeiro (Liga Carioca)".

"Esse movimento levou outras equipes a também jogarem estes torneios. Hoje temos orgulho de emprestar jogadores gays assumidos para jogarem por outros times tradicionais do Fut-7. São jogadores gays assumidos sendo campeões por equipes não gays. Isso sim é minar o sistema. Mostrar um trabalho coerente, serio. Afinal: futebol é pra Mano, Mana e Mona!", declarou.

Segundo ele, o time não é só sobre futebol. Também deu alegria de volta aos jogadores e ajudou alguns na depressão.

"Eu acho que esse movimento é importante pois resgatou um item importante e esquecido na vida adulta: criação de grupos. Muita gente teve a oportunidade de criar grandes amizades por conta do futebol inclusivo (como gosto de chamar o futebol Gay). Teve gente que saiu de depressão, gente que casou. Isso fez bem às pessoas. Não é sobre apenas jogar futebol. Quando um passa por dificuldades, encontra amigos para ajudar. E não é só na sua equipe, mas em toda rede futebolística do Brasil. Quando viajam, fazem questão de ir a um treino do outro time. Este intercâmbio é incentivado e muito celebrado".

Ainda de acordo com André, o incentivo da mídia ajudou muito na expansão dos 'times inclusivos'.

"BeesCats foi, juntamente com Unicorns de SP, um dos primeiros times a cair na graça da mídia. Ate pelo pioneirismo. E isso atraiu cada vez mais gente. A visibilidade da mídia instigou outras pessoas a criarem seus times. Isso é maravilhoso. Importante o movimento crescer cada vez mais. Espero que seja um caminho sem volta. Um território alcançado. Graças a essa visibilidade na mídia, temos nosso patrocinador '269chillipepper'. Foi ele (o patrocínio que é um single hotel em São Paulo) que bancou nossa ida à Paris. Paga salário do nosso técnico e barateia muito os custos dos atletas".

Os Beescats disputam a Copa Sudeste, que é formada por 14 times masculinos e quatro femininos. Um dos coordenadores, Luigi Girotto, explicou a dificuldade para manter o campeonato.

"Sem patrocínio. Fazemos tudo com os esforços dos próprios atletas que pagam suas próprias passagens, cada um paga sua própria inscrição e sua própria alimentação".

Além disso, ele também contou um pouco da história e da importância da Copa. "A Copa Sudeste surgiu em 2018, no Espírito Santo, e ficou adormecida em 2019. Provavelmente ficaria em 2020, mas resolvemos trazer para o Rio de Janeiro. Então serão 14 times masculinos da região Sudeste e 4 apenas femininos. É bem regional e a maior competição, onde todos os times aguardam, esperam todo ano. É o nosso campeonato nacional que se chama 'Ligay'. Que é a Liga Nacional de Futebol Gay. Aí envolve quase 40 times numa disputa de dois, três dias e é lindo demais. Essa sim é a maior competição".

Para Luigi, a Copa Sudeste é muito importante porque traz para os jogadores 'tudo aquilo que ele perdeu na infância, que diziam que ele não podia jogar bola'. 

copa sudeste

Clubes participantes da Copa Sudeste (Foto: Reprodução)

Também criador do 'Alligaytor', time de futebol LGBT do Rio de Janeiro, Luigi disse que tenta acolher todos que chegam aos treinos, todos os sábados e domingos. 

"A ideia surgiu com a necessidade de uma representatividade no futebol. Sentimos essa necessidade de mostrar para as pessoas que podemos jogar bola. Tentamos acolher todos que chegam ao time porque sabemos que, em sua maioria das vezes, o menino ou a menina sofreu preconceito no passado por ser afeminado, ou por que é ruim de bola, ou porque não teve oportunidade de mostrar o quanto gostava do esporte", disse.

"Contamos com o patrícionio de um campo de futebol em Osvaldo Cruz, temos o apoio de uma psicóloga e temos o apoio de uma nutricionista. Temos preparador físico que também é um voluntário. 'Alligaytors' é uma Associação Esportiva sem fins lucrativos, mas temos uma técnica e uma auxiliar técnica que pagamos para elas darem esses treinos para o time. E também temos um preparador de goleiros. Cobramos a taxa mensal de R$ 50 ou R$ 15 por domingo, justamente para fazer compra de material esportivo, para fazer o pagamento da técnica e manutenção de site".

alligaytors

Os jogadores do time 'Alligaytors' antes de um jogo (Foto:Luigi Girotto)

ESTUDIOSO EM MARKETING ESPORTIVO COMENTA OS INVESTIMENTOS

As dificuldades encontradas pelas competições e pelos times para se manterem ativos são relacionadas ao marketing esportivo e ao medo das marcas de se exporem e investirem nesse mercado. É o que explica Amir Somoggi, sócio da Sports Value Marketing Esportivo e com mais de 20 anos de experiência em marketing e gestão esportiva.

"Tem que encontrar o público alvo certo e buscar empresas que têm engajamento e essa preocupação com a diversidade. O projeto não pode ser standart, igual uma Copa do Mundo e Olímpiada. Algumas empresas já estão preocupadas em falar com esse público. Mas, não usam o esporte muitas vezes, principalmente o futebol por ser um esporte muito machista e preconceituoso, porque homossexualidade e tudo que se deriva disso é um tabu. Em toda sociedade tem, então óbvio que vai ter no futebol. Tem todas essas questões de virilidade do futebol, de torcida. Mas essas questões têm que ser repensadas".

Ele completa que falta a identificação das marcas com o público. "As marcas ainda não identificaram esse volume enorme de pessoas LGBT que gostam e praticam do esporte. Elas não estão usando as plataformas do marketing esportivo para falar com esse público. Há uma perda de oportunidade das marcas de não patrocinar e não investir, mesmo que sofram represália dessa onda conservadora. Então, não é para qualquer marca. É para aquelas que estão alinhadas nos seus objetivos na diversidade, no respeito ao ser humano, na questão de LGBTfobia, por exemplo", avaliou.

"As que investem nesse público eu acho que ganham o respeito e a humanidade das pessoas. As marcas se humanizam, se preocupam com o próximo. Deixam de ser corporações, sociedades anônimas, e se tornam em grandes marcas com aspectos humanísticos. As novas gerações são muito menos preconceituosas do que as anteriores, então as crianças hoje serão muito menos preconceituosas e aceitarão muito mais a diversidade. Então, as marcas que não estão investindo nisso perderão mercado. Essa onda conservadora assusta as empresas, mas quando essas pessoas não estiverem mais aqui, quem estará serão os jovens mais antenados com a diversidade".

TIMES TRANSGÊNEROS

O 'BigTBoys' também é um clube da comunidade LGBT. O clube do Rio de Janeiro é o único time transgênero (pessoas que se identificam com o gênero diferente do atribuído em seu nascimento) do estado. Seu organizador, Cristian Lins, conta um pouco do motivo da criação do time e as dificuldades para mantê-lo.

"O time surgiu por causa necessidade dos homens de terem um time pra jogar exclusivo de homens trans. O futebol, assim como outros esportes, não dá importância para os atletas LGBTS no Brasil, principalmente aqui no Rio de Janeiro, onde manter os times está muito difícil pela falta de patrocínio das grandes empresas ligadas ao esportes. Manter os times é uma guerra diária. Fazemos campanhas e amigos ajudam financeiramente".

Em 2019, Rodrigo Amorim, que ficou conhecido por quebrar uma placa em homenagem à vereadora Marielle Franco, apresentou um projeto de lei que limitava a participação dos atletas trans no Rio de Janeiro. Para Cristian, essa notícia foi terrível.

"Essa notícia caiu como uma bomba porque temos poucas conquistas e lutamos tanto pra termos um pouco de igualdade com todos. Ficamos sem chão, mas não perdemos a força e nem a esperança de dias melhores".

Dias melhores que começaram há cerca de quase quatro anos, quando ele teve a ideia de criar a equipe. Apesar da ideia, só dois anos atrás é que ela saiu da cabeça e foi parar nas redes sociais. 

"(a ideia surgiu) Após eu cobrir um evento de UFC no Maracanã. Como militante já percebia a falta de times trans de futebol. Comecei a fazer o rascunho do time há quase 4 anos. Há dois anos fiz a primeira chamada no meu perfil do Facebook e tive os primeiros interessados a fazerem parte do time. Aí elaborei o projeto e fiz a arte, criei o nome, as camisas de treino e uniformes aí fiz oficialmente o time e ano passado o criei oficialmente. Os amigos foram aparecendo e assim nasceu o 'BigTBoys'".

bigtboys

Jogadores do 'BigTBoys' (Foto: Cristian Lins)

Raphael Henrique, um dos criadores do 'Meninos Bons de Bola' (time de transgêneros de São Paulo), explicou os principais motivos para a criação do time.

"O time iniciou em 2016, depois de um tempo trabalhando no CRD (Centro de Referência e Diversidade). Constatei que os homens transexuais não ocupavam o espaço, então junto com a psicóloga de referência da época tentamos buscar qual era a demanda desses meninos e foi quando a maioria relatou que não se sentia confortável em ir no espaço por conta do preconceito. Também não se sentiam a vontade. Sendo assim, verificamos que algo poderia ser feito com essa população e foi aí que surgiu a ideia de montar um time de futebol só para homens transexuais, uma vez que sempre fui muito amante do futebol", lembrou.

"Houve um primeiro encontro onde tivemos a presença de 30 homens transexuais e mais familiares, foi um domingo de muito futebol e roda de conversa. Depois desse dia observei o quanto era importante esse trabalho ter continuidade e a partir daí continuamos a treinar para ter um time só nosso", completou.

ESCRITOR DE LIVRO ACREDITA NA INCLUSÃO

O tema foi motivo de estudo de algumas pessoas. O jornalista João Abel escreveu o livro 'Bicha! Homofobia estrutural no futebol'. Ele comentou sobre a dificuldade dessas pessoas no esporte.

"Isso é parte da natureza 'masculinizada' do futebol. Apesar do crescimento do futebol feminino, a imagem clássica da modalidade é atrelada aos homens e à virilidade. Por isso, qualquer desvio que tenda a 'feminilizar' o esporte acaba sendo vista com preconceito. Desde coisas muito pequenas como o uso da camisa 24, que esse ano finalmente ganhou uma discussão mais aprofundada e uma campanha forte, até problemas realmente estruturais como o fato de não existir qualquer jogador homossexual nos grandes clubes do Brasil e do mundo. Então, os LGBTs se sentem excluídos porque a narrativa do futebol (masculina, heterossexual, por vezes violenta) não se encaixa no 'estereótipo' clássico de LGBT que a gente conhece".

Ele ainda acredita que esses jogadores terão mais espaço no futuro e acredita na inclusão dos mesmos no esporte.

"Como eu disse, acho que isso já está acontecendo aos poucos. Mas ainda é preciso que algum jogador dê o primeiro passo. Bom lembrar que no futebol feminino essa é uma questão menos complicada, apesar de todos os preconceitos que elas também sofrem. Negros (no início do século 20) e mulheres (já nas últimas décadas do século passado) também passaram por essa 'luta', de inclusão e aceitação. Acho que esse momento de 'virada do jogo' está próximo para os LGBTs também, especialmente com as campanhas institucionais criadas pelos clubes e federações. E isso precisa avançar até que todos entendam a importância do tema".

PESQUISADORA COMENTA A HOMOFOBIA ENRAIZADA

Leda Costa é pesquisadora vinculada ao NEPESS (Núcleo de Estudos e Pesquisas Sobre Esporte e Sociedade - UFF, Universidade Federal Fluminense) e editora-chefe da Revista Esporte e Sociedade. Ela afirma a importância dos LGBT no futebol e lembrou de casos de desconfiança, como o de Richarlyson.

"Acho a existência de times LGBT fundamentais para ampliar conferir visibilidade e legitimidade à presença LGBT no futebol, ambiente historicamente compreendido como pertencente aos homens, especificamente aos homens héteros. O futebol é machista, portanto, e isso se conformou como um grande empecilho para a inserção de indivíduos dissonantes dessa norma durante muito tempo imposta e compartilhada no ambiente futebolístico", disse.

"O machismo está diretamente relacionado à difícil incorporação das mulheres nesse esporte e a discriminação das comunidades LGBT, uma exclusão que abrange as arquibancadas onde quase não vemos a presença - pelo menos de modo manifesto - de torcidas LGBT. Arquibancadas, aliás de onde ecoam gritos e canções homofóbicas. Não lembro de jogadores que publicamente tenham se assumido como homossexuais. A simples desconfiança já é capaz de provocar polêmica e rejeição, como foi o caso do jogador Richarlyson. Essa invisibilidade vem sendo questionada pelo surgimento de times como o Beescats, Unicorns Brazil e tantos outros que no futebol amador têm ajudado a enfrentar os tabus colocados pelo machismo no futebol", continuou.

"Esses times também são fundamentais no que diz respeito à representatividade. Hoje é possível que a comunidade LGBT se sinta menos excluída por intermédios desses clubes. Em termos de ação afirmativa, times e campeonatos LGBT são importantes para que futuramente o futebol se desapegue do machismo que tanto o consome. Machismo que também consome as vidas de pessoas que durante muito tempo precisaram - e muitas ainda precisam - silenciar acerca de suas próprias identidades. Que as portas do armário do futebol se abram completamente. E algumas brechinhas já tem sido mostradas com a ajuda de times e ligas LGBT".

UM PANORAMA DA EUROPA

O francês Fred Baumann foi um dos organizadores do 'Gay Games 10', em 2018, em Paris. Ele descobriu diversos times LGBT na Europa e contou que, em alguns países do velho continente, essas equipes não são bem aceitas.

"Na França, temos a Federação Francesa de Futebol que foi parceira durante o 'Gay Games 10'. E, é claro, dependendo dos países, as equipes LGBT não são aceitas da mesma maneira pelos fãs de futebol que geralmente são 'machos'".

Na França, Alemanha, Holanda, Bélgica, Espanha, Portugal e alguns outros países abertos, é mais fácil para esses jogadores LGBT, mas na Polônia, Hungria, Bulgária e até Itália, é muito difícil ser levado a sério. No mês passado, tentamos, com a Federação Francesa, lutar contra a homofobia no estádio e até aprovar o governo que podemos processar espectadores homofóbicos em estúdios, o mesmo na Alemanha e na Holanda, mas isso não acontece em muitos outros países europeus.

POSIÇÃO DA FEDERAÇÃO

A FFERJ se posicionou sobre o assunto e disse apoiar a inclusão. 

"A Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro tem a inclusão em seu DNA e está sempre de braços abertos para novas competições - tanto que são realizadas 3.500 partidas no ano. Há, no entanto, pré-requisitos estatutários a serem obedecidos. A FERJ entende que a causa é justa, e filiados precisam ser formados para a realização de competições.

    Leia tudo sobre: gay

    Veja Também

      Mostrar mais