Tamanho do texto

"Muitas vezes. Até hoje quando vou a algum estádio, dependendo do estádio tem alguns xingamentos", contou o repórter da TV Globo

O programa "Bem, Amigos!", do SporTV, da última segunda-feira, promoveu um debate sobre discriminação no esporte e contou com a presença da atleta transgênera Isabelle Neris, jogadora do time de vôlei Voleiras. Quem também esteve no estúdio foi o repórter da TV Globo, Abel Neto, que contou já ter sofrido racismo em estádios de futebol.

Leia também: Dirigente ofende jogador alvo de racismo: "Volte ao Brasil com seu dedo escuro"

"Muitas vezes. Até hoje quando vou a algum estádio, dependendo do estádio tem alguns xingamentos. Em português claro: macaco. Na verdade, esse tipo de falta de educação, de intolerância, tem relação com todo mundo, independente de ser negro. Às vezes é por bairrismo, já vi mulheres repórteres, ofensas, xingamentos. São coisas que existem, infelizmente, não só no Brasil, mas em todas os países no mundo, mas que a gente tem que enfrentar", contou Abel Neto após ser questionado pelo apresentador Luis Roberto.

Abel Neto revela ter sido vítima de racismo em estádios brasileiros
Reprodução/SporTV
Abel Neto revela ter sido vítima de racismo em estádios brasileiros

"Acho que todo mundo é igual, mulher, negro, branco, japonês, índio. Enfim, se você tem a oportunidade e vai atrás, você consegue. Ainda bem que é minoria. A maioria é carinhosa, é respeitosa com o nosso trabalho. Em relação a entrar no mercado de trabalho, não (sofri), mas a gente ainda enfrenta esse tipo de coisa desagradável no dia-a-dia dependendo do ambiente", continuou.

Leia também: Operação clandestina do governo argentino estaria espionando Messi, diz jornal

"Acho legal a gente refletir. Pode início de uma coisa que daqui a dez anos vai ser totalmente diferente e que hoje tem o preconceito, a discriminação, tem xingamento, gente que não aceita. Pode mudar muito e está sendo um pontapé inicial", acrescentou.

Outra história

Isabelle Neris falou um pouco de sua história e diz que se inspirou em outra transgênera brasileira, Tiffanu Abreu, que recentemente foi liberada para jogar vôlei na Itália.

"Ela foi minha inspiração. Na semana que vi a notícia que ela conseguiu a liberação pela Federação Internacional de Vôlei, eu estava pensando em desistir já. Era como dar murro em ponta de faca. E ela mandou uma mensagem muito bacana pra mim. Falou: 'Não desista. Se é o que realmente quer, vá atrás'. Ela conseguiu a liberação, eu aquilo me deu um boom de energia. Ela que me ajudou a não desistir e ir atrás dos meus sonhos", disse.

Isabelle Neris é jogadora transgênera de vôlei
Reprodução/SporTV
Isabelle Neris é jogadora transgênera de vôlei

"Fui introduzida no vôlei pelo projeto do Bernardinho lá em Curitiba. Eu sou curitibana. Acabei conhecendo o vôlei, me apaixonei e desde então não parei de jogar mais. Faço tratamento hormonal já há oito anos e durante esse período vem baixando os níveis de testosterona. Fiz um exame, que é exigido pelo COI (Comitê Olímico Internacional), para apresentar na Federação Paranaense de Voleibol e que era um dos requisitos para competir com naipe feminino", prosseguiu e revelou que por pouco não desistiu do seu sonho por conta do preconceito.

"Várias vezes, inúmeras vezes cheguei para jogar e pessoas iam embora. Falavam: 'Se ela vir jogar, não vou jogar'. Foram situações bem constrangedoras. Falavam: 'Seu lugar não é aqui, o que você está fazendo aqui com a gente?'. Cansei de ouvir isso, só que pensava assim: 'Por que que não posso estar aqui? Uma das funções do esporte é acolher, não é segregar'. 'Se é o que realmente amo, gosto e não estou prejudicando a terceiros, porque não posso estar aqui?' Então, com esse pensamento, continuei", finalizou.

Leia também: Família do técnico Caio Júnior quer R$ 30 milhões de indenização da Chapecoense

Além de Abel Braga e Isabelle Neris, o Dr. Fabiano Nave, endocrinologista esportivo, e Rogério Micale, ex-técnico da seleção olímpica de futebol, também estiveram no programa.