Cozinhando no inferno da Badwater
Iúri Totti
Cozinhando no inferno da Badwater


Por Alexandre Castello Branco.

Depois de meses de muito treino e dedicação, finalmente eu e minha equipe de apoio chegamos aos Estados Unidos, prontos para encarar os 217km da Badwater, considerada a corrida mais difícil do mundo. O Vale da Morte, na Califórnia, é conhecido como o lugar mais quente da Terra. Em 1913, registrou a mais alta temperatura já medida, 56,7º, justamente no mês de julho.

Chegamos uns dias antes para ajustar toda a logística, comprar o que era preciso e começar uma curta adaptação ao calor. Antes, fizemos todo o percurso da prova de carro, parando para estudar os pontos estratégicos da corrida, e logo de cara sentimos um calor fora do normal.

Em Furnace Creek, um dos primeiros pontos de controle da prova, tiramos uma foto ao lado de um termômetro que marcava 48º, e logo em seguida corremos de volta para o ar condicionado do carro. Era um calor de arder o rosto, algo que nunca havia sentido.

A longa jornada de Alexandre Castello Branco na Badwater. (Foto de Beto Noval)

A longa jornada de Alexandre Castello Branco na Badwater. (Foto de Beto Noval)

Largada da Badwater às 20h, a 49º C

Depois desse choque inicial e de deixar tudo pronto para o desafio, partimos em direção à largada, na Bacia de Badwater, ponto mais baixo dos Estados Unidos, 85 metros abaixo do nível do mar. As largadas seriam em três ondas. Uma às 20h, outra 21h30 e a última às 23h. Minha largada aconteceu às 20h, ainda claro, e numa temperatura ridícula de 49º! Já era um aviso do que teríamos pela frente.

Os primeiros 72km da prova são basicamente planos, com algumas subidas e descidas mais curtas, com pouca elevação. Nesse trecho existem alguns pontos de controle onde é preciso dar o número de peito para a organização comprovar a sua passagem, como acontece em praticamente todas as ultramaratonas.

Nesse início de prova, a recomendação é tentar manter um ritmo constante, sem desgastar demais, e tentar avançar alguns quilômetros à noite e a temperatura está mais “amena”. Esse, teoricamente, é o trecho “fácil” da Badwater. O primeiro ponto de corte, contudo, uma exigência do Parque Nacional de Death Valley, obrigava os corredores a chegarem no km 82 em 14 horas.

Subida de 28km

Após o trecho praticamente plano até o km 72, em Stovepipe Wells, entrava em cena uma subida de 28km sem parar, já com o sol nascendo e esquentando bem a temperatura. Começar uma subida dessa com mais de 70km nas costas não é das coisas mais agradáveis.

Alexandre Castello Branco é acompanhado por um membro de sua equipe em um dos trechos da Badwater. (Foto de Beto Noval)

Alexandre Castello Branco é acompanhado por um membro de sua equipe em um dos trechos da Badwater. (Foto de Beto Noval)

Desde a largada fui correndo num pace confortável, buscando um ritmo constante e respeitando sempre os intervalos para comer e me hidratar. Foi um período inicial para a equipe de apoio se acertar e entrar no clima da prova também. Passei bem em todos os primeiros pontos de controle e no primeiro check point, cheguei com apenas 9 minutos para o corte, bem justo.

Os outros dois brasileiros que estavam na Badwater, o Kleber e o Jorge Coentro, também chegaram praticamente no mesmo momento. O diretor da prova havia avisado no briefing do dia anterior que esse era o corte mais puxado da competição, porque era uma imposição do Parque Nacional, mas que os próximos seriam bem mais tranquilos. E de fato foram.

Chupar gelo para resfriar o corpo

Após o ponto de controle, partimos para finalizar os 28km de uma subida interminável, agora com o sol fervendo o asfalto já. A todo momento minha equipe de apoio usava um borrifador de jardim com água gelada em mim, para esfriar a temperatura do meu corpo. Também usei muitas toalhas molhadas, camisa UV de manga comprida que a Wollner produziu especialmente para a prova, chapéu cobrindo o pescoço e muito protetor solar. E descobri o quanto era bom chupar gelo enquanto subia. Ao mesmo tempo que me hidratava, também me dava uma ótima sensação de estar resfriando o corpo. Fiquei viciado e andava com um ziploc cheio de pedras de gelo na subida.

Após chegar ao topo, era hora de reagrupar, trocar o tênis, meia, comer algo mais sólido e gostoso do que gel e chips de mandioca, e começar uma longa descida. A esse ponto, já estávamos com uma sobra bem grande de tempo para o próximo ponto de corte em Panamint Springs, o que me permitiu seguir num ritmo mais tranquilo, poupando energias para o que vinha pela frente. Foram aproximadamente 17km de descida íngreme e desci me sentindo super bem, respeitando também as paradas para comer e me hidratando bem, já que o calor estava cada vez mais intenso.

No meio da Badwater, a Barriga da Besta

Antes de chegar no ponto de corte, existe uma reta infinita chamada Panamint Road, que começa com uma longa descida e termina numa subida curta, de menos de 6km, antes de chegar no check point em Panamint Springs. O curto trecho após a descida e antes de começar a subir tem o sugestivo nome de Barriga da Besta, que só fui entender o porquê depois.

Quando começamos a descer, o Gusta, da minha equipe de apoio, saiu do carro para fazer esse trecho comigo. Começamos numa caminhada rápida, sentíamos que estava muito quente, mas nada de muito diferente do que já havíamos encarado antes. Porém, quanto mais a gente descia, mais a temperatura aumentava. O calor que começou a irradiar do asfalto passou a se tornar insuportável. O meu corpo, principalmente minhas pernas e mãos, pareciam que estavam literalmente cozinhando por dentro.

60º no termômetro do carro

Mal dava pra caminhar, a gente precisava fugir de volta pro carro a todo momento, ficar dentro do ar-condicionado um pouco, beber água gelada, se enrolar em toalhas molhadas para sair e voltar pro inferno. Comer se tornou algo impossível. Até o Beto e o Vinicius, que estavam dentro do carro, não estavam aguentando o calor quanto tinham que sair para nos entregar água e gelo.

O termômetro do carro de apoio de outra equipe brazuca que estava passando praticamente na mesma hora que a gente, marcou 60º. Isso mesmo, 60º! Pelo que conversamos com as pessoas que estavam lá, nunca havia feito tanto calor como esse. Tomamos a decisão de encarar logo esse trecho, para sair o mais rápido possível desse inferno, mas o preço dessa decisão sairia caro demais logo em seguida.

Cheguei no ponto de controle dos 120km com 3h de folga para o tempo de corte. Bem tranquilo. O problema é que cheguei passando bem mal. O calor insano dos últimos quilômetros simplesmente sugou minhas forças. Depois de um tempinho no ar-condicionado do carro, comecei a ficar bem enjoado e tive que abrir a porta para vomitar bastante do lado de fora. Só saiu líquido porque nas últimas horas não tinha conseguido comer nada. Estava debilitado, mas como havia tempo de sobra, resolvi dar umas horas para tentar me recuperar.

Um quarto para “voltar à vida”

O Comandante Mario Lacerda, Diretor da BR 135, prova cascudíssima que acontece sempre em janeiro na Serra da Mantiqueira, que conhece a Badwater como a palma das mãos, me achou jogado no carro e me levou para um quartinho que a organização da prova mantém para quem quiser se recuperar, tomar um banho e tentar voltar à vida. Foi o que fiz.

Tomei um banho, troquei de roupa e deitei um pouco. Ainda estava enjoado para comer e beber qualquer coisa. Fiquei quase 4h tentando me recuperar. A essa altura, além de me sentir debilitado, também já estava com uma dor chata no tornozelo e umas assaduras nas pernas e “regiões baixas”, que estavam incomodando bem. Aliás, mais um aprendizado. Eu sempre costumo passar vaselina em alguns pontos das pernas e outras regiões, para minimizar o atrito e evitar assaduras. Antes da largada, eu cometi o erro de deixar a vaselina dentro de uma bolsa de remédios, ao invés de colocar dentro do cooler com gelo. O resultado foi que com o calor absurdo, mesmo dentro do carro, a vaselina virou água praticamente e não serviu de nada. Essa eu não erro mais!

Alexandre Castello Branco recebe jatos d’água para aliviar o forte calor da Badwater. (Foto de Beto Noval)

Alexandre Castello Branco recebe jatos d’água para aliviar o forte calor da Badwater. (Foto de Beto Noval)

Voltando para a Badwater, eu precisava tomar uma decisão. Ou tirar forças não sei de onde e tentar seguir ou desistir ali e acabar com o sofrimento. Minha equipe de apoio mais uma vez foi sensacional e me deixou à vontade para decidir o que eu queria fazer. Ainda faltavam 100km para a linha de chegada, com trechos cabulosos de subida e retas intermináveis que invariavelmente pegaríamos no calor massacrante do dia novamente. Resumindo, pelo menos mais umas 20h de prova.

A difícil decisão de abandonar na Badwater

Não me senti apto e confiante que conseguiria. A decisão de parar provavelmente foi a mais difícil que já tive que tomar em uma prova, por tudo que eu havia treinado, por ter tantas pessoas envolvidas, por ter convidado quatro amigos/irmãos para encarar essa jornada maluca comigo, com um custo muito alto, e ter uma torcida fantástica no Brasil enviando boas energias. Por falar nisso, essa torcida foi demais. Quanta gente legal e querida torcendo e mandando mensagem, mesmo quando resolvi desistir. Sou muito sortudo de estar rodeado de pessoas tão especiais.

Placa no caminho da Badwater alerta sobre os riscos estar sob um sol inclemente. (Foto de Beto Noval)

Placa no caminho da Badwater alerta sobre os riscos estar sob um sol inclemente. (Foto de Beto Noval)

Quando eu acordei no dia seguinte, depois de ter desistido da Badwater, já no hotel, fiquei pensando muito se não deveria e conseguiria ter tentado um pouco mais. Acho que talvez sim. Claro que pensar nisso depois, sem o calor do momento, é fácil. Na hora a situação era outra. De qualquer forma, sei que esse pensamento vai rondar a minha cabeça por muito tempo ainda e vou precisar conviver com ele. A vida é feita de escolhas.

Apesar da tristeza e uma pitada de decepção comigo mesmo, tirei muitos aprendizados dessa prova. Lições que certamente levarei para outras situações. No final de tudo, fiquei com uma frase na cabeça que alguém me falou após a desistência: “Só erra pênalti quem pega a bola pra bater”. E eu sempre pegarei a bola pra bater, independente de quantos pênaltis eu tenha perdido.

Eu e o Vale da Morte ainda vamos nos encontrar outra vez. (Iúri Totti)

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