'Só seria normal termos técnicos estrangeiros no Brasil se pudéssemos trabalhar na Europa', diz Dorival Jr.
Rafael Ribeiro
'Só seria normal termos técnicos estrangeiros no Brasil se pudéssemos trabalhar na Europa', diz Dorival Jr.


Dorival Júnior está de volta. Após ser demitido do Athletico em meio à pandemia, em 2020, o treinador, que completa 20 anos de carreira nesta temporada assumiu o comando do Ceará após dois anos sabáticos onde aproveitou para cuidar da saúde, abalada por conta de um câncer na próstata e pelo próprio Covid-19, contraído em Curitiba, e vem acumulando bons resultados no Vozão.

Pelo alvinegro nordestino faz a melhor campanha da atual edição da Copa Sul-Americana . No Campeonato Brasileiro as coisas estão difíceis. Venceu apenas um jogo em quatro disputados, justamente a estreia diante do poderoso Palmeiras, e ocupa uma ingrata 15º colocação.


Nada, contudo, que abale Dorival. Em entrevista exclusiva ao LANCE!, o treinador, com passagens por quase todos os grandes clubes brasileiros (do grupo dos 12 só não passou por Grêmio, Corinthians e Botafogo), diz que as dificuldades no Brasileirão eram esperadas pelo acúmulo de jogos que acontece no futebol brasileiro por conta da pandemia.

- Em uma temporada como essa que estamos enfrentando não tem como você fazer um planejamento. Quem tiver falando que está planejando isso ou aquilo é mentira. Me desculpa, é uma utopia muito grande. O que nós temos é rodada a rodada um número elevado de atletas que ficam de fora de uma partida para outra. E isso tem acontecido com todas as equipes. O acúmulo nesses últimos dois anos trará um prejuízo muito grande ao longo dessa temporada. Eu acho que nós temos que caminhar passo a passo, buscar tranquilidade e equilíbrio porque teremos momentos instáveis dentro das competições.

Apesar do ótimo momento vivido pelo Vozão na Sul-Americana, Dorival enfatiza que não há competição prioritária para ele e seu grupo. Não há empolgação, enfatiza. Muito pelo contrário, precavido, afinal apenas o líder de cada grupo se classifica ao mata-mata na competição, o treinador lembra que um de seus rivais de Grupo G é o Independiente, dono de nove pontos na chave e rival da última rodada, em confronto na Argentina que pode decidir a vaga.

- É um inicio importante, porém não é conclusivo. Nós temos ainda que buscar melhorar, estarmos evoluindo em todos os sentidos, como tem acontecido. Eu acho que esse bom início reflete muito o que os jogadores estão entregando em campo, a dedicação, uma organização que tem sido importante. Nós temos alguns comportamentos que estão sendo respeitados. E quando eu digo isso é no sentido de estarmos cumprindo algumas funções pedidas. Isso tem melhorado alguns aspectos que já vinham sendo trabalhados desde o Tiago (Nunes, antecessor de Dorival no cargo). A cada momento nós conseguimos avançar um pouco mais em tudo o que imaginamos. Nossa expectativa tem que ser contida, para que foquemos em cada adversário em cada resultado para que possamos manter essa vantagem até o final.

E a torcida cearense, como fica? Dorival acredita que a empolgação natural dos fãs pode ser útil para ajudar a equipe na caminhada de uma competição de destaque internacional.

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- O sonho da torcida é real, desde que você se dedique a ele. Porém com todos os aspectos que tem rodeando nosso futebol nos últimos anos, eu não tenho dúvida de que teremos nesta temporada a competição mais difícil de todos os tempos, com muitas alternâncias, onde tudo poderá acontecer. E de repete aquela equipe que busque uma sobrevivência no decorrer da temporada, consiga ótimos resultados finais. Vamos torcer para que tenhamos essa possibilidade. Principalmente em razão do trabalho que essa garotada tem desenvolvendo, a diretoria em uma forma geral. E a confiança do torcedor nos ajuda a fortalecer ainda mais nossa motivação para que passo a passo atingimos tudo aquilo que desejamos.

E para quem conhece tão a fundo as estruturas de trabalho oferecidas nos principais clubes brasileiros, Dorival diz que vê com naturalidade esse crescimento não só do Ceará, mas também do rival Fortaleza, que sob a batuta do argentino Juan Pablo Vojvoda fez a sua melhor campanha na história no Brasileirão do ano passado e conseguiu uma inédita classificação para a Copa Libertadores. Resultados que ele acredita que serão normais a partir de agora.

- Para é natural. As equipes do Norte e Nordeste tem buscado um crescimento e organização, uma restruturação. E isso tem sido fundamental e importante. No nosso Estado acredito que todas as equipes encontraram ou estão encontrando o seu caminho, puxando também as equipes do interior. Todos tem falado a respeito do futebol cearense nos últimos anos e isso reflete muito daquilo que tem acontecido internamente, se preparando muito mais e melhor para o nível das competições que estamos enfrentando, com possibilidades reais de conseguirmos resultados que seriam impossível anos atrás em função do momento que vivíamos.

A campanha de Dorival na Sul-Americana reacendeu o debate sobre o papel dos treinadores brasileiros dentro de seu próprio mercado de trabalho. Nome sempre cogitado nos clubes, o comandante alvinegro diz que pelos motivos de saúde ficou impossibilitado de levar adiante conversas para assumir outros clubes neste período de dois anos que ficou parado.

Não acredita que seja pelo alto número de estrangeiros que estão ocupando os postos nos clubes. Mas também é enfático em seu ponto de vista sobre essa presença estrangeira no futebol, que considera injusta, e utiliza argumentos fortes para embasar seu pensamento.

- Para mim seria um fato normal (os estrangeiros trabalharem aqui), desde que os brasileiros também tivessem oportunidades nos países de origem desses treinadores, o que não acontece. Quando falam que não temos mercado de trabalho no exterior não é isso. É que não podemos entrar em países da Europa. Nunca aconteceu um acerto da Uefa com a Conmebol e com isso os sul-americanos, em geral, são altamente prejudicados. Não acredito que haja descaso (com os brasileiros), mas sim um desrespeito muito grande em função dos nossos ex-treinadores e os atuais em razão do que já fizeram pelo nosso futebol e o reconhecimento que nunca acontece. Isso é um fato normal no nosso país em qualquer profissão. O profissional não tem valor, só ganha algum o dia que ele falta ou não esteja mais no local. Ou não faça mais parte da vida na Terra. Aí sim ele passa a ser reconhecido. E com os treinadores é igual, acontece da mesma forma. O único país do mundo que conquistou cinco títulos mundiais e com treinadores da sua própria casa é o futebol brasileiro.

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