Luiz Gomes: 'Ronaldo e o Cruzeiro, se é ruim com ele, pode ser pior sem ele'
Luiz Fernando Gomes
Luiz Gomes: 'Ronaldo e o Cruzeiro, se é ruim com ele, pode ser pior sem ele'


O Cruzeiro se meteu em uma enrascada. A revelação dos termos reais do acordo para a venda de 90% da SAF para o ex-jogador Ronaldo mostra o quanto o negócio foi bom para o hoje empresário e o quanto foi, no mínimo, arriscado para o clube mineiro. Vamos corrigir o termo: não foi apenas arriscado, foi um mau negócio de fato. Um verdadeiro show de horrores para quem torce ou é sócio do clube.

O investimento de R$ 459 milhões, sabe-se agora, é uma obra de ficção – Ronaldo pode, ao invés de aplicar o dinheiro, tão somente devolver ao clube parte do percentual adquirido da SAF se as condições financeiras assim exigirem. Além disso, a SAF não pagará um centavo sequer pelo uso do nome, do logo, da mascote, da bandeira, dos símbolos que o Cruzeiro construiu em 100 anos de história, um patrimônio intangível sim, mas extremamente valioso.

Para completar, o ex-jogador não assumiria nenhuma dívida do clube - que hoje gira em torno de R$ 1 bilhão - limitando-se a cumprir os termos mínimos exigidos pela lei da SAF que é o repasse de 20% das receitas e 50% de eventuais dividendos. Um cenário em que o Cruzeiro seria obrigado a se desfazer de sua sede social, administrativa e campestre para honrar com a quitação da dívida.

Tudo isso já seria ruim por si só. Para alguns conselheiros, mais do que ruim seria um motivo para entrar com uma ação de lesa patrimônio contra o presidente Sérgio Rodrigues.

Mas uma bomba ainda mais forte caiu sobre a Toca da Raposa na última sexta-feira quando a empresa americana 777 Partners - a mesma que se prepara para investir R$ 700 milhões na SAF do Vasco –, confirmou ter apresentado ao Cruzeiro uma proposta claramente melhor do que a de Ronaldo em termos financeiros e que foi rejeitada pelo clube. As diferenças, segundo matéria do "GE.com" são gritantes: um investimento, este sim, real, de R$ 450 milhões - sendo R$ 250 milhões para adquirir jogadores e reforçar o time -, o pagamento de royalties pelo uso dos símbolos cruzeirenses, além de assumir integralmente a dívida do clube, com um plano real de quitação. Tudo isso por 70% da SAF e não 90% como Ronaldo “ganhou’’.

Pressionados por conselheiros, a diretoria da Raposa e Ronaldo reagiram. O ex-jogador já admite assumir parte da dívida, mas quer em troca que o clube transfira a propriedade de seus dois centros de treinamento, as Tocas 1 e 2, modelos de CTs no país. E que entre com um processo de recuperação judicial, com o intuito de negociar os valores. Um adendo igualmente benéfico para um lado e prejudicial ao Cruzeiro que, ao se desfazer de suas propriedades e ficar com sua capacidade de investimento e gestão amarrada a uma RJ, corre o risco até de desaparecer como clube associativo, um orgulho dos seus sócios e dos mineiros.

Essa novela está longe do fim. Existem chances reais do acordo com Ronaldo andar para trás. Seja de forma amigável ou litigiosa, seja por uma decisão do conselho do Cruzeiro – que vai se reunir para discutir o assunto - ou por uma batalha judicial que sabe-se lá por quanto tempo poderá se estender. Mas aí, cabe uma pergunta: por mais que esteja longe de ter sido um bom negócio essa transação com Ronaldo, que alternativa tem hoje o clube, no buraco em que está metido? Sabe aquela história de que ruim com ele, pior sem ele. É mais ou menos assim.

Essa é a minha última coluna publicada neste LANCE! Foram mais de 15 anos tratando de assuntos do esporte brasileiro, de alegrias, tristezas, acima de tudo das paixões e emoções que especialmente o futebol desperta. Agradeço a todos que participaram de tudo isso, aos editores pelo cuidado de revisão e publicação dessas linhas, aos leitores pela paciência da leitura.

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