Rei da América, resistência e polêmicas: a passagem de Marinho pelo Santos
LANCE!/DIARIO DO PEIXE
Rei da América, resistência e polêmicas: a passagem de Marinho pelo Santos


Chegou ao fim a passagem do atacante Marinho pelo Santos. Após 112 jogos, 41 gols, 17 assistências e 8414 minutos, o camisa 11 foi vendido para o Flamengo por cerca de US$ 1,3 milhão (R$ 7 milhões). Vale lembrar que o jogador renunciou a seu último salário para que a negociação acontecesse de forma mais rápida.

A história de Marinho - no Santos ou não - sempre foi carregada por passagens no mínimo curiosas. Mas foi com a camisa do Alvinegro Praiano que o jogador viveu a melhor fase da carreira e chegou a ser cogitado na Seleção Brasileira.

O começo e o minimíssil aleatório

Marinho sempre foi conhecido por suas brincadeiras nas entrevistas coletivas. Em uma delas, ainda quando lutava por uma vaga no time titular do Santos, após um belo gol contra o Botafogo, nomeou como “minimíssil aleatório”. E pegou.

Em quase todas as transmissões dos jogos, o minimíssil aleatório era lembrado. Em todas as finalizações, gols, o meme do minimíssil aleatório aparecia.

Mas, com o tempo, a brincadeira começou a desagradar o atacante, que parou de dar entrevistas. O problema em si não eram as brincadeiras. Marinho queria ser levado a sério como jogador de futebol. Tinha medo de que, com o tempo, ficasse marcado apenas por brincadeiras.

- Não vou dar nome para esse gol, não. É o trabalho que venho fazendo. Muita gente me conhece só por meme. Então, vocês têm que começar a olhar um pouquinho pra mim também como jogador de futebol. Porque eu sou bom pra c… também - declarou Marinho ao canal Sportv após outro gol em chute de fora da área.

Cobranças públicas

Sobrando em campo e mais à vontade dentro do elenco, Marinho passou exercer funções de liderança no Santos. O clube, à época liderado por José Carlos Peres, tinha direitos de imagem atrasados, o que fez o camisa 11 reclamar abertamente sobre o acontecido.

- Quero fazer um pedido para o nosso presidente, para amanhã, que é segunda-feira, comparecer ao nosso CT para a gente ter uma conversa com ele. Regulariza tudo, fica tudo bonitinho para todo mundo ficar mais feliz - disse em entrevista.

Peres compareceu ao CT Rei Pelé e tentou conversar com o elenco. Fez promessas de pagamento durante a semana. Em seguida, Marinho explicou o acontecido.

- Sobre o episódio de ontem, pedindo publicamente a presença do presidente aqui no clube, hoje ele apareceu aqui, falou conosco sobre as dificuldades do clube. A gente entende isso, a gente sabe, mas a gente tá simplesmente pedindo um posicionamento dele sobre as três imagens (três meses de direitos de imagem) que estão atrasadas, até porque é a última semana e a gente queria ouvir dele o que vai fazer, até porque temos que ter um planejamento, porque 2020 é um ano especial para os torcedores, para todo mundo, para nós, jogadores, com competições importantes, Libertadores. Então a gente simplesmente cobra aquilo que foi prometido. E seguimos firmes. Temos dois jogos para acabar o ano bem, na vice-liderança, e isso é que é o mais importante, com o Santos acima de todos - disse o atacante em suas redes sociais

Rei da América em melhor ano da carreira

Muito se fala sobre a ótima campanha do Santos na Copa Libertadores da América em 2020. O jogador foi eleito o Rei da América. No torneio, marcou quatro gols e deu uma assistência. Na final, contra o Palmeiras, recebeu críticas após uma atuação apagada.

Marinho foi eleito o Rei da América em 2021 (Crédito: Ivan Storti/Santos FC)

- Eu tomei uma pancada no joelho e tratava até de noite. Manhã, treino à tarde, tratamento depois do jogo e depois em casa até uma da manhã. Me preparei para a final e faço o pior jogo meu com a camisa do Santos. Além de termos perdido, eu fui tentar chutar uma bola, dividi com o Luiz Adriano e senti o joelho machucado. Errei em pedir para não sair, mas falariam que eu senti a final. Tentei continuar, mesmo mal, mancando, e falhei - comentou em entrevista ao podcast "Flow".

No geral, viveu o melhor ano da carreira em números: 43 partidas, com 24 gols e nove assistências.

Luta contra o racismo

Marinho é um dos jogadores mais engajados na luta contra o racismo no futebol brasileiro. Em uma oportunidade, na partida entre Santos e Ponte Preta, após o camisa 11 ser expulso, Fabio Benedetti, conhecido como Chef Benedetti, da rádio "Energia 97", falou a seguinte frase.

- Eu vou falar assim: 'Você é burro, você está na senzala, você vai sair do grupo uma semana para pensar sobre o que você fez - disse Benedetti.

Chorando, Marinho usou suas redes sociais para se manifestar contra o acontecido.

- É de sentir na pele. Toda vez eu defendo a bandeira. Quando se passa na pele, se sofre. Agora vim falar sobre o que aconteceu. Por isso brigo pela causa. É horrível passar na pele. Não podemos deixar passar, sei o valor que eu tenho. Fico pensando, tá ligado? Antigamente não tinha voz ativa, passava desapercebido. Muita gente que não tem voz ativa baixa a cabeça a anda. Eu brigo pela causa porque tenho voz. E isso só mostra que quem não tem voz passa por coisa pior. A gente tem aceitado muito ainda. Justiça não pune os preconceituosos, vermes. Mas Deus perdoa, cara. Fica em paz - disse.

Mas, infelizmente, Marinho viveu outros episódios de racismo. Após a eliminar o Grêmio na semifinal da Taça Libertadores do ano de 2021, uma torcedora do time gaúcho fez um comentário de cunho racista:

- Marinho está na profissão errada, Globo contrata ator nego [sic].

Ele rebateu novamente em seu Instagram:

- O ator negro foi contratado pela Globo! Para a semifinal da Libertadores. Atura ou surta!

Ano em baixa, "briga" com Ariel Holan e entrevista polêmica

Em abril de 2021, o Peixe começava sua temporada. Lutando por uma vaga na fase de grupos da Taça Libertadores da América, a equipe treinada por Ariel Holan venceu na Argentina por 3 a 1 e abriu 2 a 0 no Mané Garrincha. Situação confortável que se tornou uma bola de neve.

Ao ser substituído por Holan, Marinho não gostou. Ele não cumprimentou o treinador, passou direto deixando o professor no "vácuo" e se dirigiu ao vestiário. Em seguida, ao perceber o erro, voltou ao banco de reservas. Ao término do jogo, se desculpou nas redes sociais.

- Primeiramente esclarecer que minha atitude foi péssima hoje, após a mudança sai chateado! Não sou insubstituível, não sou dono do time e estou aqui para ajudar, sempre me dediquei e vesti esse manto com muito orgulho! Jogador nenhum acima do clube ou faltar com respeito ao treinador, porém já pedi perdão ao treinador diante do grupo, nunca tomei atitude assim com treinador nenhum, fica aqui minhas desculpas, justo eu vir aqui e falar! Sou homem, e continuarei dando a vida para esse clube, mesmo querendo ficar em campo e ajudar, respeito e sempre irei respeitar qualquer decisão da comissão técnica! Humildemente vim aqui me desculpar e esclarecer! Agora classificado para a fase de grupos e espero que os julgamentos não passem do ponto sobre meu caráter - escreveu Marinho.

Em um dos anos mais difíceis da história do Santos, Marinho participou pouco. Foram 42 partidas, nove gols e quatro assistências. Acumulou lesões, Covid-19 e confusões fora de campo. O Santos brigava para não ser rebaixado quando em uma oportunidade, um dos líderes da equipe foi à imprensa sem o consentimento do clube para expor sua opinião.

- Eu perguntei sobre isso, mas falaram que não tem condição de aumento ou plano de carreira. Não falaram nada e eu disse para pensarem se chegar algo de fora. ‘Me deixa respirar’. Sempre pedi um time que brigasse por título. Soteldo, Luan Peres, Veríssimo, Alison, Pituca… Vi todos saindo e eu não saio também? Mas agora a situação não está boa, então vou continuar. Cheguei pela porta da frente, na primeira divisão, e vou sair com o Santos na primeira divisão. Estou fechado até o fim do campeonato. E que o presidente pense a respeito disso. Não quero sair de graça, pela porta da frente, e respirar. Eu preciso. Eu continuo no Santos, até porque o presidente recusou todas as propostas. Falei para o presidente que estou feliz, mas tenho 31 anos e se for bom para o Santos… Hoje eu não posso falar que vou aposentar no Santos. Falei para o presidente que depois do Campeonato Brasileiro (2020) eu gostaria de almejar coisas para a minha vida deixando a porta aberta. E hoje vejo um clima chato, como se eu tivesse feito muita m… aqui - comentou em live com Ademir Quintino.

- Se me bloquearem de novo, eu fico, mas nunca briguei. Continuei trabalhando. Certo (Palmeiras e Atlético-MG). Mas foram recusadas. Meu contrato é até o fim do ano que vem. Santos precisa continuar na primeira divisão e eu respirar. Faltou o título para mim. Se as propostas foram recusadas, é porque presidente não viu que era momento de sair. Vou me dedicar até o último dia. E vamos ver sobre ano que vem. Se vier alguma situação, espero que o presidente pense também. Recebi proposta para ganhar muito dinheiro. Poderia colocar o clube na Justiça e não coloquei. Não é do meu caráter, eu respeito o clube. Não fiz e nem farei. Mas ficamos cinco meses sem receber. Nunca vou expor a instituição porque isso é chato. Eu não exponho o Santos aqui, mas sim uma situação. Eu precisava ter respaldo e não tive - concluiu.

Após isso, o clima se tornou insustentável. O Peixe aguardava o término da temporada para negociar o jogador com o futebol do exterior. Mas as propostas não apareceram. O Inter demonstrou interesse, mas acabou não formalizando nada.

Começo da temporada 2022

O tempo passou, o jogador testou negativo para Covid-19 e voltou aos treinos. No dia 16 de janeiro, em um domingo, Marinho brincou dizendo que sua praia era o CT Rei Pelé, trabalhando.

- Domingão...a gente está na praia, né, Pato (Sánchez)? Nossa praia aqui. Nossa caipirinha aqui, de laranja (mostra um isotônico). Dia de praia, sol e mar (risos) - publicou em seu Instagram.

Tudo encaminhava para uma permanência, pelo menos momentânea do jogador. Mas mudou de figura com o interesse do Flamengo. O LANCE!/DIÁRIO DO PEIXE apurou, inclusive, que Marinho foi até a diretoria santista pedir para ser negociado com o Rubro Negro.

O Santos se viu “obrigado” a negociar. Haviam duas opções: recusar a proposta do time da Gávea, mantém o atleta insatisfeito no elenco e o perde de graça em dezembro. Ou, negociava de imediato e "amenizava" o ambiente do clube. O atleta já não era mais unanimidade entre os funcionários.

No final, Marinho ficou na história do Santos. Para o bem – ou para o mal.

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