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Após peregrinação, Zé Roberto ainda não sabe quantas promessas faltam após ouro

Técnico da seleção feminina de vôlei, campeão nas Olimpíadas, contou ao iG como foi percorrer o Caminho de Santiago e disse que ainda precisa visitar Nosso Senhor do Bonfim

Aretha Martins - iG São Paulo | - Atualizada às

“Santiago, aí vou eu de novo”, disse José Roberto Guimarães quando a seleção brasileira feminina de vôlei estava ameaçada de não passar sequer para a fase final das Olimpíadas de Londres . O Brasil reagiu, foi campeão, o técnico voltou de Londres com sua terceira medalha de ouro nos Jogos Olímpicos e muitas promessas a serem cumpridas.

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A primeira ele pagou lá mesmo. “Cortei o cabelo no primeiro dia depois dos Jogos”, conta o treinador em entrevista ao iG . Depois, voltou ao Brasil e neste mês percorreu o Caminho de Santiago de Compostela. “Foi terrível. Mas é uma sensação muito boa de poder viver aquele momento único”, comentou.

Normalmente, quem faz as promessas pelos bons resultados é Alcione, casada com o técnico há mais de 30 anos. E Zé Roberto ainda nem sabe o que terá que fazer para agradecer a conquista de Londres. “Eu não sei porque ela não quer falar”, afirma o treinador. Uma coisa é certa. Ainda terá que viajar para a Bahia, visitar o Nosso Senhor do Bonfim, ao lado da mulher.

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Nesta entrevista ao iG , José Roberto Guimarães, que agora comanda o Vôlei Amil, time feminino de Campinas, conta os detalhes do Caminho de Santiago de Compostela, explica como tomava banho de roupa e conseguia separar o uniforme das vitórias para repetir no dia seguinte, releva uma superstição com Sheilla e diz ainda que tem vontade se seguir na seleção.

iG: Por que você decidiu fazer o Caminho de Santiago de Compostela?
Zé Roberto: A história com o Caminho começou quando fui com o Corinthians jogar um torneio chamado Ramon de Carranza, em La Coruña. E como as cidades são próximas, a gente foi fazer uma visita a Santiago para conhecer a catedral. Ali eu vi o pessoal andando e chegando do caminho e falei “poxa, um dia eu vou fazer isso”. Quando a gente ganhou a primeira Superliga, ainda pelo Finasa/Osasco, antes da fase final, eu prometi que iria fazer os 800 km e cumpri. Isso foi em 2003. Foi quase um mês por lá. Agora, em Londres, no momento que a coisa estava meio empepinada, eu falei: “Santiago, aí vou eu de novo”. Foi depois do jogo da China, quando ainda estava aquela situação com a Sérvia e nada resolvido na primeira fase [o Brasil ainda teria que vencer a Sérvia e torcer por uma vitória dos Estados Unidos sobre a Turquia para chegar às quartas de final]. Aí eu fiz, mas dessa vez eu só prometi 150 km porque teria menos tempo para completar.

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iG: Em 2003 você foi sozinho e, agora, a Alcione, sua esposa, o acompanhou...
Zé Roberto: Da primeira vez eu fui sozinho porque eu tinha prometido fazer todos aqueles quilômetros. Agora, como ela faz algumas promessas para eu pagar com ela, eu também fiz uma para ela. Só que eu ainda não sei quais outras ela fez para mim. Ela não quer falar. Sei que ainda vamos para a Bahia, visitar Nosso Senhor do Bomfim, como fizemos em 2008. 

iG: E como foi repetir o caminho? Qual das duas ‘aventuras’ foi a mais difícil?
Zé Roberto: Foi terrível. A primeira vez que eu fiz, eu tinha me preparado. Eu estava andando, correndo, jogando futebol, jogando tênis, fazendo musculação. Todo dia eu estava fazendo uma atividade. Agora eu não estava fazendo nada. Eu fiquei enfurnado no quarto lá em Londres e saia para o treino, refeitório, ginásio e não fiz atividade. Eu sofri muito. A minha mulher sofreu menos do que eu. Tudo doía. O pé, a planta do pé. Toda a articulação de pé, joelho, quadril... Era assim: no final do dia, depois de 10 ou 15 km, começava a pegar. Eu acabei escolhendo uma bota para caminhar que não era muito grossa e como tem muita pedra, você acaba sentindo muito a planta do pé.

Arquivo pessoal
Zé Roberto com camisa de manga comprida, proteção na cabeça e cajado na mão, para manter o equilíbrio na caminhada

iG: Quantas horas vocês andaram por dia? O tempo estava bom para caminhada?
Zé Roberto: Tive que mudar um pouco os meus planos porque queria mostrar todo o Caminho para Alcione. Então, alugamos um carro para fazer o percurso do comecinho até Sebrero. Depois, a gente começou a caminhar. Não deu para cumprir os 150 km porque tinha que voltar para o Brasil, mas acabamos fazendo quase 100 km, com cinco ou seis horas por dia. E quando a gente saiu de Sebrero de manhã, estava chovendo. E ali era um caminho extremamente íngreme e difícil. Tem muita subida, muita descida e muita pedra. Foi penoso. Esse dia de chuva foi o pior. O resto foi com tempo aberto. E a temperatura era de 28 ou 30° e mesmo assim você tem que caminhar com blusa, chapéu para se proteger. O cajado é necessário. Aquilo é que ajuda no equilíbrio.

iG: Qual a sensação ao completar o Caminho?
Zé Roberto: É boa. Quando você paga uma promessa você já conseguiu aquilo que prometeu. E quando chega a Compostela, à igreja, com todos os peregrinos chegando de uma forma ou de outra... A gente teve a sorte de estar o “bota-fumeiro” lá. Era um incenso enorme, de três metros de altura, passando por ali. É uma sensação muito boa de poder estar ali, de poder estar vivendo aquele momento único.

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iG: O que muda para você fazer essas promessas e ter a sua esposa ao seu lado? Em Londres, como em outros jogos, ela levou um terço do tio-avô para rezar para você nos jogos.
Zé Roberto: Faz parte já da nossa família, da nossa maneira de ser. Minhas filhas, minha sogra... a família toda sempre rezou muito. Me deixa tranquilo porque eu já sou assim e também rezo todos os dias. Acho que isso é necessário e dá uma paz maior, uma proteção maior. Lógico que ela ali, rezando e fazendo a parte dela, ajuda também. É uma parceira ferrenha (risos).

Divulgação/CBV
Zé Roberto pede que Sheilla jogue de rabo de cavalo, mas não faça coque no cabelo

iG: Em Barcelona 92, no primeiro ouro, suas superstições ou promessas também envolviam os jogadores, como pedir para o Tande não fazer a barba ao longo das Olimpíadas. Com as mulheres também é assim?
Zé Roberto: Eu não gosto de cabelo preso, por exemplo. Eu não gosto de ver a Sheilla de cabelo preso. Eu sempre pedi para ela soltar. Eu não gosto de vê-la de coque. Não é que não possa, mas quando ela faz coque, eu peço para ela soltar o cabelo porque eu acho que ela fica melhor, ela fica mais bonita. Mas não fico pedindo para as jogadoras, eu não as coloco nas minhas superstições.

iG: Como bom supersticioso, tem algum problema com números? Sei que não gosta do número 4...
Zé Roberto: Na época do masculino, eu não gostava que os jogadores usassem o número 13. Falava que a camisa número 13 era para deixar para mim, para não ficar em quadra. Mas agora a Sheilla usa e eu respeito. Não me incomoda porque sei que faz bem para ela. E para mim, eu não uso o número 4. Isso porque no Japão ou na China o número 4 tem quase a mesma pronúncia que a palavra morte. Tem prédios no Japão que não tem o número 4 e também não é um número que me atraia muito. Eu já joguei com 1, 12, 8, na seleção fui 9. No futebol uso 5. Mas 4, não. Os outros podem usar, eu não.

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iG: Tem alguma coisa que você tenha feito ou prometido nos três ouros?

Zé Roberto: Não. As coisas vão mudando, são de momento. Quando eu estou assim, sozinho, pinta. Eu falo: vou cortar o cabelo se eu ganhar, vou caminhar, vou para Bahia. Eu sempre repeti a roupa quando ganha, em clube ou na seleção. Quando perde, troca.

iG: Em Londres isso valia também? Você até tomava banho de roupa, não era?
Zé Roberto: É, mas sem a calça. Já tinha feito isso outras vezes. Se mandasse para lavanderia, poderia sumir roupa. Para ficar tudo lá e, como nos tínhamos varal no quarto, eu entrava no chuveiro de roupa, lavava com sabonete e já estendia tudo. No dia seguinte, ela já estava pronta. Mas aquilo se tornou um ritual. E era só quando ganhava. A calça a gente tinha uma só e tinha que ser a mesma. A camisa eu trocava. E a camisa eu marquei aquela que a gente ganhou para eu saber que era aquela. Não podia correr o risco de confundir. As da primeira fase eu nem sei onde elas andam (risos).

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iG: Outra coisa que você costuma fazer é raspar o cabelo depois das conquistas. Sua família gostou do visual?
Zé Roberto: Do cabelo é tradição, sempre! Eu já cortei em Campeonato Brasileiro e outros títulos além das Olimpíadas. Em Londres, eu não tinha botado o pé fora da Vila ainda. O único dia que eu saí foi no domingo, quando já tinha acabado tudo. E cortei lá mesmo. Meu neto, o Felipe, assustou. Eu brinquei com ele: “Você vai querer cortar o cabelo como o do vovô?”. Ele disse: “Não, tá muito feio”. A Alcione também quando me viu falou “nossa, tá horrível”.

iG: Agora, um mês depois do ouro olímpico, depois de ter pagado algumas promessas, teria feito alguma coisa diferente?
Zé Roberto: Não. No vôlei, como tudo na vida, é momento. A gente sabia que seria difícil, que o nosso grupo era difícil e que a gente precisava jogar bem para passar. E a gente foi exigido ao máximo e também por isso que foi importante. Para o nosso crescimento, acho que nós tínhamos que tocar o fundo do poço como nos tocamos e aprender algumas coisas que tínhamos deixado de lado. Tudo aquilo que papai do céu mostrou para gente novamente foi importante.

iG: E o futuro, segue na seleção?
Zé Roberto: Não está definido porque eu não tive possibilidade de encontrar com o Ary Graça (presidente da CBV) porque ele está em campanha para a Federação Internacional. É esperar ele voltar para depois a gente conversar. Vontade tem, mas vamos ver o que ele está pretendendo.

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