Líder do ranking nacional e 19º do mundo na prova da fossa olímpica, Rodrigo Bastos dá uma pausa na odontologia para intensificar sua preparação, confiante em voltar a colocar a modalidade no pódio olímpico no ano que vem

As três primeiras medalhas do Brasil (ouro, prata e bronze) na história das Olimpíadas vieram graças ao tiro esportivo, nos Jogos de 1920, em Antuérpia (Bélgica). Quase um século depois, um outro brasileiro esbanja confiança e acredita que tem tudo para repetir o feito no Rio 2016. Praticamente classificado para os Jogos, o dentista paranaense Rodrigo Bastos, de 47 anos. líder do ranking nacional na prova da fossa olímpica e que está entre os 20 melhores do mundo na lista da ISSF (Federação Internacional de Tiro), esbanja confiança e acredita que se conseguir chegar à final, poderá quebrar o jejum.

O atirador brasileiro Rodrigo Bastos lidera com folga o ranking brasileiro na fossa olímpica e está com a mão na vaga  para o Rio 2016
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O atirador brasileiro Rodrigo Bastos lidera com folga o ranking brasileiro na fossa olímpica e está com a mão na vaga para o Rio 2016


"Se eu estiver lá, vou conseguir esta medalha. É claro que meu primeiro objetivo é entrar na final olímpica, quando será outra história, é muita loteria. Mas com certeza estarei muito melhor preparado do que estive em Seul e Atenas", afirmou Bastos, referindo-se às suas outras duas participações olímpicas, nos Jogos de 1988 e 2004. A possibilidade de quebrar um jejum de 96 anos sem medalhas olímpicas no tiro esportivo também não o assusta. "Para mim é bom, prefiro atirar em casa, essa pressão não vai pesar"

Por ser país-sede dos Jogos, o Brasil já tem uma vaga assegurada na fossa olímpica. Embora a CBTE (Confederação Brasileira de Tiro Esportivo) ainda não tenha definido o dono desta vaga, dificilmente ela deixará de ficar nas mãos de Bastos, o mais experiente dos quatro atiradores de elite do país na prova e líder com folga no ranking brasileiro, com 317 pontos contra 113 do segundo colocado, Roberto Schmits.

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Além disso, ele chegou a ocupar o oitavo lugar no ranking mundial da ISSF, caindo para o 19º na lista do mês de maio, após não ter disputado algumas etapa da Copa do Mundo. Mas para chegar no Rio 2016, Bastos terá obrigatoriamente que passar primeiro pelo Pan-Americano de Toronto, em julho, e pelo Mundial da Itália, em setembro

"O planejamento da Confederação para compor a seleção abrange todas as etapas de Copa do Mundo de 2015 e o Mundial de 2015. Fiz as duas etapas da Copa deste ano. Faço a terceira no Azerbaijão e os três melhores vão para o Mundial. Com os resultados que já conquistei, eles precisam atirar muito bem para me alcançar e provavelmente terei vaga no Mundial", explicou.

Em Toronto, Rodrigo Bastos participará de sua quinta edição de Jogos Pan-Americanos
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Em Toronto, Rodrigo Bastos participará de sua quinta edição de Jogos Pan-Americanos

Antes, irá para Toronto participar de sua quinta edição de Jogos Pan-Americanos, competição que disputou pela primeira vez em 1987, em Indianápolis (EUA), quando faturou o bronze na prova por equipes, que não é mais disputada. Depois, disputou os Jogos de Santo Domingo (2003), quando ficou com a prata, Rio de Janeiro (2007) e Guadalajara.

O principal objetivo será ajudar a equipe brasileira a obter mais uma vaga olímpica nesta prova. "Ouro e prata no Pan asseguram vaga nos Jogos do Rio, mas o máximo que cada país pode inscrever nas Olimpíadas são dois atletas. Espero que um deles seja eu, né?", afirmou.

Evolução constante

O otimismo de Rodrigo Bastos não é apenas da boca para fora. Nos últimos anos, ele vem mostrando uma evolução constante na fossa olímpica, que se traduz em resultados importantes em competições internacionais. Como por exemplo no Mundial de Granada (ESP), no ano passado, quando terminou na quinta colocação, melhor posição de um brasileiro na história da competição, após uma polêmica eliminação na semifinal. Ao alegar demora de Bastos para efetuar um disparo, o árbitro acabou punindo o brasileiro. "Fui roubado", diz o atirador, ainda revoltado.

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Apenas um detalhe torna a trajetória esportiva de Rodrigo Bastos ainda mais inusitada: ele divide seu tempo entre treinos na cidade de Curitiba e as atividades como dentista em Guarapuava, interior do Paraná, onde vive. "Lá o clube de tiro não possuí um local adequado para que eu possa praticar e por isso preciso viajar para Curitiba", explica.

Com a atual evolução técnica, acabou entrando para o programa Bolsa Pódio, do Ministério do Esporte. O valor que recebe mensalmente, aliado aos ganhos de seus patrocinadores pessoais (são quatro no momento), ajudaram na decisão de Bastos em dar um tempo na odontologia e focar toda sua atenção no tiro.

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"Venho na terça para Curitiba e volto para casa no sábado, toda semana. Farei isso até o Pan, porque porque vale vaga olímpica. Se der um resultado interessante e eu for confirmado para o Rio, vou ter que parar por mais tempo com o consultório e ficar direto apenas me preparando", explicou Bastos, que deu uma leve cornetada nos critérios usados pela CBTE para a definição da equipe olímpica.

Bastos lamenta os critérios da confederação para formar a equipe olímpica do Brasil
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Bastos lamenta os critérios da confederação para formar a equipe olímpica do Brasil

"Na verdade, a direção técnica da confederação cometeu um erro grande, porque em 2014 fui para duas finais de etapas da Copa do Mundo, fiquei em quinto no Mundial, mas os resultados não contam para a classificação olímpica. Começou tudo do zero. Tudo o que eu fiz em 2014 foi esquecido. Mas não depende de mim a decisão", lamentou.

Perto da aposentadoria [estará com 49 anos em 2016], Rodrigo Bastos também demonstra preocupação com a renovação no tiro esportivo brasileiro. "O atleta de tiro no Brasil demora 30 anos para ser formado, enquanto que na Rússia, EUA ou Itália, um atirador de alto nível é formado em 10 anos. Temos problemas sérios no Brasil, no sentido de preparação. Nosso técnico é italiano, muito bom, mas já tem uma certa idade. Não temos uma formação de um novo técnico e os atletas estão envelhecendo. Eu mesmo estou perto de encerrar a minha carreira. O tiro é um esporte difícil. As pessoas começam e desistem em dois ou três anos", afirmou.

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