Seleção brasileira comandada por Kanela teve Amaury e Wlamir entre os cestinhas do Mundial de basquete, mas tinha espírito coletivo como principal força

Seleção brasileira bicampeã do mundo em 1963
CBB/Divulgação
Seleção brasileira bicampeã do mundo em 1963

No dia 25 de março de 1963, a seleção brasileira venceu os EUA por 85 a 81 no Maracanãzinho lotado e faturou o Mundial de basquete pela segunda vez. Passados 50 anos, os responsáveis por aquele título mantêm vivas as recordações e elegem o espírito coletivo como o grande fator de sucesso daquela equipe.

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“Foi uma conquista extraordinária de um time muito bem entrosado. Era como se jogássemos por música. Todos sabiam onde os companheiros estavam na quadra”, disse ao iG Luiz Cláudio Menon, ala-pivô da seleção de 1963.

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Jathyr Schall concorda com o pensamento do ex-colega. “Era um grupo de amigos. A gente se reúne pelo menos uma vez por ano até hoje. Ninguém tinha inveja de ninguém. Não tinha tempo ruim. O que o Menon falou é a mais pura verdade”, afirmou o ex-ala.

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A força do conjunto tinha dois expoentes, que apareceram entre os cinco principais cestinhas daquele Mundial. Wlamir Marques ficou em terceiro lugar, com média de 18,0 pontos por jogo. Amaury Pasos foi o quarto, com 17,7 pontos por partida.

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“Eram jogadores iluminados, eram as duas colunas do time que nós completávamos”, declarou o ex-pivô Antonio Salvador Sucar. “No jogo contra os EUA, os dois só não fizeram chover. Foi um grande aprendizado vê-los em ação naquele dia”, completou Menon, um dos caçulas daquele elenco, com apenas 19 anos na época.

Uma destas colunas e considerado um dos principais nomes da história do basquete brasileiro, Wlamir se recusa a assumir uma parcela de responsabilidade pelo título maior que a dos demais. “O fato de um fazer mais pontos do que o outro era coisa de ocasião. Muitos dizem que a seleção dependia de mim e do Amaury. É verdade, mas ela também dependia de todos os outros. Era um jogo coletivo, nunca houve individualidade”, disse.

Não era só dentro de quadra que os jogadores procuravam se entrosar. No caminho do Hotel das Paineiras, onde estavam hospedados, até o ginásio do Maracanãzinho, eles gostavam de cantar algumas músicas parodiadas.

“Funcionávamos como uma banda. O Rosa Branca e o Bira, que tinham a voz mais grave, faziam o surdo, mas cada um ali tinha uma função. O clima era de muita risada e descontração”, lembrou-se Menon. “Era algo muito gostoso. A gente chegava para o jogo já aquecido”, recordou Jathyr.

Sem legado

Capitão da seleção, Wlamir recebe o troféu das mãos do ex-presidente da Fiba
CBB/Divulgação
Capitão da seleção, Wlamir recebe o troféu das mãos do ex-presidente da Fiba

O bicampeonato mundial de 1963 é um dos símbolos de uma época vitoriosa do basquete brasileiro. Além da conquista quatro anos antes, a seleção ainda subiu no pódio nas duas edições seguintes da competição: ficou com o terceiro lugar em 1967 (Uruguai) e foi vice-campeão em 1970 (Iugoslávia). Houve ainda duas conquistas de medalhas de bronze em Olimpíadas neste intervalo de tempo: em 1960 (Roma) e em 1964 (Japão).

“Por muitos anos, o Brasil foi uma das quatro principais forças do basquete mundial”, disse Menon. “Conquistamos uma série de resultados expressivos naquela época. Depois disso, o basquete brasileiro foi perdendo terreno por causa do individualismo que ficou mais do que evidente nas gerações posteriores.”

A opinião de Menon não destoa em relação a dos demais jogadores do grupo de 1963. “Não houve legado nenhum”, disse Jathyr. “O que nós deixamos foram os títulos, mas não houve continuidade do trabalho. O basquete no Brasil assumiu outras características depois disso”, analisou Wlamir.

Falta de reconhecimento

A experiência de conquistar um título mundial dentro de casa e as memórias de cada detalhe da campanha vitoriosa são as únicas coisas que os campeões carregaram nas últimas cinco décadas. Entre os responsáveis pelo feito de 1963, há um sentimento uniforme no que diz respeito a falta de reconhecimento.

“Parece que a próxima comemoração vai acontecer só quando fizer 100 anos da conquista”, disse Wlamir. “Ganho material não houve, mas nós já não esperamos nada de políticos. Em 50 anos, muitos governos passaram pelo país e ninguém fez nada. Não seria diferente agora. O Wlamir sempre faz essa colocação. Eu até digo para ele que não adianta, mas ele me responde que alguém precisa falar. Aí eu deixo (risos)”, emendou Jathyr.

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