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Lançada às pressas, campanha tem apenas caráter educativo. Regulamento não foi alterado a tempo e punições aos clubes, que poderiam ter efeito inibidor, não foram implementadas

Fabiana, foi chamada de
Alexandre Arruda/CBV
Fabiana, foi chamada de "macaca" em Minas, em janeiro

Com um grande atraso, e depois de registrar alguns casos de discriminação racial e homofóbica, a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) finalmente decidiu agir. Nesta quinta-feira, lançou um decálogo de princípios contra a discriminação que deverão ser observados nas competições organizadas pela entidade.

Na quarta-feira, durante lançamento da Superliga 2015/16, no Rio, o CEO da CBV, Ricardo Trade, já havia anunciado o lançamento de um "observatório de discriminação".
As medidas foram pensadas poucos dias antes do lançamento da Superliga, motivo pelo qual não foi possível implementar punições drásticas aos clubes, e que teriam maior potencial para inibir atitudes discriminatórias.

"Foi agora que pensamos nessas medidas, depois que vimos uma ação no Campeonato Paulista", diz Trade, referindo-se a um jogo das quartas de final do Estadual, disputado entre Araraquara e Bauru, no ginásio Gigantão, em Araraquara, no início do mês passado. A equipe de Bauru se queixou de que a torcida local teria hostilizado a atleta Fernanda Isis com manifestações de cunho racista.

"Não daria tempo para modificarmos o regulamento para incluirmos punições. Não dá para alterar a regra do jogo quando ele já está praticamente em andamento. Na próxima discussão visando à Superliga, em março, incluiremos esse tema", diz Trade.

O dirigente anuncia algumas das medidas implementadas, que se restringem a uma campanha de conscientização. "Não é somente o decálogo que estamos lançando. Na Supercopa, as equipes entrarão em quadra com faixas com os dizeres 'Não à discriminação', e também nos jogos da primeira rodada da Superliga com transmissão pela TV. Nas mídias sociais, vamos veicular a hashtag com a mesma frase. Além disso, os delegados estarão atentos durante os jogos para fazer denúncias ao STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva)", acrescenta Trade.

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Os episódios de manifestações rascistas em ginásios de vôlei não são nada recentes. Em 2012, Wallace, do Sada/Cruzeiro, foi alvo de provocações rascistas da torcida do Minas. Uma torcedora o chamara de "macaco". Um ano antes, em 2011, Michael, na época central do Vôlei Futuro, de Araçatuba, fora alvo de xingamentos homofóbicos proferidos por torcedores do próprio Cruzeiro. Em janeiro deste ano, a central Fabiana, do Sesi e da seleção, foi chamada de macaca por um torcedor do Minas.

Trade reconhece que a CBV se engaja com atraso nessa luta. "O regulamento da Fifa e o da Conmebol já preveem punições a clubes no caso de manifestações preconceituosas. Está na hora de o voleibol também adotar esse tipo de medida".

leia os preceitos estabelecidos no Decálogo contra a discriminação:

Não ao preconceito - A CBV refuta qualquer forma de juízo preconcebido.

Não à discriminação - A CBV não aceita nenhum ato discriminatório em relação a raça, etnia, nascimento, moradia, língua, religião, condição social ou econômica, posição política, nível de instrução, gênero, opção sexual, idade, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência e qualquer outra motivação.

Não ao privilégio- A CBV também não aceita qualquer tipo de favorecimento.

Estimular a aceitação da diversidade - A CBV estimula iniciativas em favor da diversidade.

Exigir respeito da torcida com relação à condição humana - A CBV não tolera qualquer manifestação de torcida que desrespeite a condição humana de outros torcedores, profissionais do desporto e demais envolvidos em eventos esportivos.

Coibir atitudes discriminatórias nas competições - A CBV cobra de todos os organizadores de jogos e competições que tomem sempre todas as providências necessárias no sentido de coibir quaisquer atitudes discriminatórias.

Zelar pela comunidade do voleibol - A CBV espera atitude proativa de toda a comunidade do voleibol de forma a preservar o ambiente de respeito ao outro.

Invocar a lei - A CBV informa que a prática de discriminação é passível de ser punida de acordo com as normas do Código Brasileiro de Justiça Desportiva e das leis vigentes no país.

Reconhecer a dignidade da pessoa humana - A CBV é solidária à Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas que estabelece que todos os homens nascem iguais em dignidade e direitos.

Fazer valer a igualdade de direitos - A CBV exige respeito à Constituição Brasileira vigente, que explicita que todos os brasileiros são iguais, sem distinção de qualquer natureza.

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