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Carlos Bernardes é um dos juízes mais experientes do circuito e fala sobre a dificuldade de apitar jogos cada vez mais exigentes

Quando Novak Djokovic e Rafael Nadal estão dispostos a maratonas de seis horas, jogando no limite, a bolinha quase sempre triscando as linha, o jogo pode ser fantástico para o espectador, mas um pesadelo para o árbitro, certo? Manter a concentração durante tanto tempo, em um jogo emocionante e desgastante, não podendo errar por milímetros, não parece ser a tarefa mais fácil. Bem, para o brasileiro Carlos Bernardes, que já apitou três finais de Grand Slam e uma de Masters Cup, não precisa de tanto drama assim.

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“Eu gosto muito de tênis, já fiz vários jogos desses dois aí, e é um prazer”, afirma ao iG o brasileiro, agora baseado em Bérgamo, na Itália. “As bolas estão todas próximas da linha, é aquela dificuldade toda, você tem de ser mais ágil como eles também, mas aí a gente conta também com o nível do juiz de linha, que está cada vez melhor, e o hawk eye, que pode ajudar naquelas questões em que eles possam ter uma dúvida.”

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Bem, é verdade. Se no futebol a adesão à tecnologia para solucionar jogadas polêmicas ainda é encarada com muitas reservas, no tênis a revisão gráfica computadorizada de uma bola duvidosa foi adotada a partir de 2006, para aliviar a pressão para cima dos árbitros nos grandes torneios do circuito.

No caso de um duelo entre Djokovic e Nadal , ajuda também o temperamento mais ameno dos dois competidores. “Se você notar, são jogadores bem mais tranquilos do que na época de um John McEnroe ou um Ilie Nastase, que discutiam bastante. Hoje, em vez de discutir, o cara vai lá, pede o desafio e resolve o problema".

Além da máquina
McEnroe, atleta legendário dos Estados Unidos nos anos 70 e 80, realmente era daqueles que podia dar mais espetáculo com a bola parada do que quicando. Mas o tênis de hoje também não é essa calmaria toda. Bernardes já teve um problema com o próprio Nadal em 2010, no ATP Finals. O espanhol supostamente reclamou de um golpe do tcheco Tomas Berdych, o juiz de linha não deu a bola fora, mas o brasileiro se sobrepôs e corrigu a marcação. Berdych, então, desafiou, e o sistema mostrou a bola como boa, positiva para o tcheco. Nadal se irritou em quadra, argumentando que o ponto deveria ser jogado novamente. Protestou muito em quadra contra Bernardes e não se contentou até falar com o supervisor da partida, Tom Barnes.

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Uma situação bem mais delicada, porém, aconteceu neste ano no Aberto da Austrália , em confronto entre o argentino David Nalbandián, inscrito no Brasil Open , e o norte-americano John Isner, pela segunda rodada. Em mais um jogo tenso, decidido apenas no quinto set, com mais de quatro horas, Isner sacava no 17º game e tinha um break-point contra. Um juiz de linha marcou bola fora, mas o árbitro francês Kader Nouni a considerou boa. Nalbandián demorou um pouco, mas pediu o desafio na bola, que foi negado por Nouni – os tenistas são instruídos a pedir o desafio logo de cara, mas nem todos os árbitros são exigentes nesse quesito.

“Aquela foi mais grave”, afirma Bernardes, que precisou aprender a contar em línguas tão diferentes como o tcheco e o japonês, dependendo do próximo torneio que tiver em seu calendário. “O jogador não ouviu a chamada, ficou confuso, porque o juiz de linha chamou fora, o juiz de cadeira corrigiu e a torcida gritou ao mesmo tempo porque pensava que era um ace. Naquela situação você tinha vários fatores que influenciaram o jogador a não pedir o desafio, porque primeiro ele não entendeu, depois foi conversar com o juiz. O juiz falou o que tinha acontecido, depois ele olhou a marca e aí pediu o challenge. Então tinha vários fatores ali que fizeram com que ele demorasse um pouco para captar o que tinha acontecido.”

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“Naquele procedimento, a gente até conversou com o juiz, ele entendeu que ele poderia ter dado o desafio para o Nalbandian, foi um erro pessoal dele. Mas é uma coisa que pode acontecer, porque, na cabeça dele, o Nalbandian perdeu tempo para fazer o challenge”, disse Bernardes, um dos 12 árbitros no nível de Gold Badge (“distintivo de ouro”), o máximo em quatro níveis de qualificação na ATP (Associação dos Tenistas Profissionais).

Quer dizer, nem toda a tecnologia do mundo vai livrar um juiz de polêmicas ou reclamações, abrasivas ou não, de um atleta. Nessa hora, então, é confortante pelo menos saber que o árbitro ao menos tem um assento privilegiado, embora a evolução física dos tenistas represente um desafio iminente.

“Se eles estão mais rápidos, você tem que estar mais ágil também. Mas não precisaria de uma preparação diferente. Precisa de concentração, estar atento e tentar ser o mais honesto possível com eles”, afirma. “Mas, para quem gosta de tênis, está ainda melhor. Os jogos estão muito mais emocionantes, um nível espetacular. Então acho que é algo que nos ajuda bastante a melhorar o nosso trabalho.”

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