Charles Gavin: o direito de ser o que quiser ser
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Charles Gavin: o direito de ser o que quiser ser

O pendão LGBTQIA+ com os tons do arco-íris: no avesso da polarização e rivalidade, em ideia acatada com simpatia por toda a banda / Marcos Hermes

Coluna publicada na edição 1504, de outubro de 2023 – garanta a sua PLACAR no Mercado Livre

“Baterista dos Titãs usa camisa do Confiança durante show em Aracaju — músico vestiu a azulina em apresentaçação da turnê Titãs Encontro na capital sergipana. A atitude deixou a torcida animada e gerou repercussão nas redes sociais”.

A ideia ocorreu momentos antes da passagem de som para a apresentação que faríamos naquela noite, na simpaticíssima Aracaju. Longe de ser uma jogada de marketing, envergar a camisa do time mais tradicional da capital sergipana seria, antes de mais nada, um gesto de identificação, uma homenagem àqueles que não estão na lista dos clubes mais ricos do futebol brasileiro. Quem ama o esporte bretão sabe do que estou falando.

Bem, ao perguntar onde eu encontraria os uniformes dos dois times mais populares de Aracaju, o motorista foi categórico: “A loja do Confiança fica a dez minutos daqui. Já a do Sergipe é do outro lado da cidade, é longe. E, venhamos, o Confiança é uma equipe fundada pelos operários de uma fábrica de tecidos…”. Verdade – a Associação Desportiva Confiança foi criada na expressiva data de 1º de maio de 1936, por três funcionários da Tecelagem Confiança. A princípio, seria uma agremiação esportiva para a prática de basquete e voleibol para seus empregados, apenas. Porém, em 1949, criou-se o time de futebol para disputar o campeonato estadual (seria campeão em 1951). As origens proletárias do Confiança me ganharam. Lembrei-me da partida contra o Flamengo pela Copa do Brasil de 2016, na qual o rubro-negro foi batido pelo placar de 1 a 0, chamando a atenção da imprensa carioca.

Baterista dos @titasoficial, Charles Gavin vestiu o manto proletário durante o show da banda em Aracaju e representou o Dragão! 🤩

Obrigado pelo carinho 👊🏻 pic.twitter.com/WDr15APS2U

— Confiança (@adc_confianca) May 27, 2023

Convencido do que fazer, fui até a tal lojinha e arrematei o uniforme do Dragão. Imaginei que pudesse haver alguma repercussão, o que, de fato, aconteceria. Durante o show, dezenas de imagens destacando a camisa do Confiança, no palco dos Titãs, começaram a circular, a se multiplicar, viralizando nas redes sociais. A reação do público foi vigorosa – acredito que até os torcedores do Sergipe gostaram. Naturalmente, tamanha ressonância na web. Ao final da apresentação, Átila, o chefe da segurança (só o nome já impõe respeito), me provocou: “Professor, eu consigo uma camisa do Bahia. Você usaria o manto no show, amanhã?”. Respondo: “Sim, meu mestre, claro. Adoro o Bahia”.

Na noite seguinte, em Salvador, com ingressos esgotados, tocamos no imponente estádio da Fonte Nova e, conforme prometido, vesti a camisa do EC Bahia. Novamente, o comportamento da massa se revelou um evento à parte, sendo que, em determinados momentos, independente do que estava se passando no palco titânico, notamos algo diferente: pessoas pulavam, esbravejavam e comemoravam como se um lance de perigo de gol ou o próprio gol tivesse acabado de acontecer. E a banda, perplexa, se perguntava: “O que é isso? Certamente, não tem a ver com o que estamos tocando nem dizendo”. Horas depois, checando as redes sociais, entendemos: simplesmente, cada vez que a camisa do Bahia era exibida no conjunto de telões de alta definição, que fazem parte do imenso aparato visual desta turnê, a plateia da Fonte Nova enlouquecia, sacudindo, gritando, berrando, remetendo até ao frenesi do Carnaval de Salvador.

Nosso Átila, torcedor fervoroso do tricolor soteropolitano, me parabenizou: “Arrebentamos, Professor. O povo pirou… E agora? Como vai ser daqui para a frente? Vamos ter que usar a camisa do time de cada cidade que a gente pisar”. No dia seguinte, a reverberação na web do que ocorreu na Fonte Nova foi tremenda. O jornalista Marcelo Cavalcante, amigo que mora em Recife, me alertou: “Rapaz, o que pensa em fazer aqui? A rivalidade está cada vez mais radical. Vai ter que vestir as camisas dos três times. Senão, vai dar problema”. Dito e feito — na chegada ao Recife, fui informado que as camisas de Santa Cruz, Sport e Náutico já estavam a caminho. Mas seria tranquilo para mim – aceitei o conselho. Minha afinidade com a música e o futebol de Pernambuco – a cultura de lá, em si – vem de longa data.

Assim sendo, não haveria razão para declinar do desafio. Apenas que, no show, eu teoria de encontrar um jeito de trocar de camisa entre as músicas. Detalhe: poucos minutos antes de nos dirigirmos ao palco, recebi a do Central de Caruaru, enviada pelos fãs. Em vez de três, agora eram quatro…

A reação do público recifense foi espantosa (o frevo é de lá, lembre-se!). Barulho ensurdecedor, aplausos, gritos, urros e vaias também. “Diversão é solução sim…”. Os Titãs riam, faziam piadas, mas curtiam o desfile esportivo, até porque o futebol sempre foi assunto sério entre nós, objeto de debates infindáveis (Marcelo Fromer e Nando Reis chegaram a ter uma coluna esportiva semanal, nos anos 90, num dos principais jornais de São Paulo). E seria assim ao longo da primeira fase da turnê. Não poderia imaginar, sequer prever, que um gesto, motivado pela paixão pelo futebol, seria algo aguardado e monitorado. As camisas do Botafogo da Paraíba, Ceará, Ceilândia, Gama, Vila Nova, Atlético Goianense, Goiás, Rio Branco, Desportiva Ferroviária e Comercial de Ribeirão foram chegando, uma a uma — um deleite só.

Vale relatar que o interesse pelos clubes (e seus uniformes) que não integram o seleto grupo daqueles que têm muito dinheiro na conta corrente iniciou-se nos anos 70, na adolescência, durante os campeonatos de futebol de botão que eram disputados no meu bairro, em São Paulo. Não me lembro de que forma a mania de confeccionar os próprios times de botão começou, de como virou obsessão. Mas não importa. A Placar, nosso portal para o mundo do futebol na época (não havia transmissões de jogos), nos abasteceu com imagens e reportagens ano após ano. O Campeonato Nacional (de 1971 a 1974) e a Copa Brasil (de 1975 a 1979), títulos que o Campeonato Brasileiro recebeu, com agremiações de quase todos os estados do país, formariam o macrocosmo futebolístico de turma. Recortávamos os escudos dos clubes das várias edições da Placar para montar os times — um universo lúdico onde a imaginação podia realizar o seu trabalho, recriando mitos, reescrevendo histórias. Ali nasceu a forte conexão com as agremiações do Pará, Amazonas, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Alagoas, Espírito Santo, Mato Grosso e por aí vai. Era uma forma de nos relacionarmos com outros lugares do país – e o futebol era o veículo. E de certa forma ainda é – a Copa do Brasil é isso.

À medida que a semana das apresentações no Allianz Parque se aproximava, as cobranças começaram: “E lá em São Paulo? O que vai fazer?”. Eu desconversava… A polarização e a rivalidade, alojadas nos patamares tóxicos e perigosos dos dias atuais, representam uma questão complexa.

“Você não torce para o time que eu torço. Então somos inimigos” – é a mentalidade que vigora hoje. Por isso, vestir uma camisa de determinado clube, nessas circunstâncias, é um ato a ser avaliado com extrema cautela. O espírito esportivo cedeu lugar, involuntariamente, à intolerância e à agressividade. A letra de Desordem, de 1987, que está no show, já anunciava: “Mais uma briga de torcidas/ Acaba tudo em confusão/ A multidão enfurecida/ Queimou os carros da polícia”.

Tal impasse me conduziu de volta aos alicerces nos quais os Titãs edificaram sua obra: diálogo, debate, reflexão e sobretudo respeito. Desse modo, de maneira mais apropriada, em vez de vestir a camisa de um clube, correndo o risco de acirrar ainda mais os ânimos das torcidas adversárias, subi ao palco do Allianz Parque carregando a bandeira do Movimento LGBTQIA+, ideia incorporada por todos os Titãs. E foi assim que, ao final de cada uma das três apresentações em São Paulo, empunhamos a bandeira do arco-íris, reafirmando o direito de cada um de nós ser o que quiser ser, um recado de respeito, inclusão e tolerância a todas as torcidas. Alguém se opõe? Estamos conversados?

*Charles Gavin é músico, apresentador e pesquisador. Nasceu em São Paulo, em 1960. Jogou futebol na várzea paulistana nas posições de quarto-zagueiro e lateral esquerdo até os 23 anos. Em 2001, mudou-se para o Rio de Janeiro. Desde 2011, integra a bancada do programa esportivo Redação SporTV.

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