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No Dia da Consciência Negra, o ex-velocista e medalhista olímpico mostra engajamento, pede punições mais severas contra o racismo e pede que atletas se envolvam mais na luta contra o preconceito

O ex-velocista Robson Caetano, duas vezes medalhista olímpico
TV iG
O ex-velocista Robson Caetano, duas vezes medalhista olímpico


Em um país com 53% da população declaradamente negra ou parda, segundo a última pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), de 2014, e com ícones do esporte de várias raças e credos - a pátria que Pelé e Neymar defendem é a mesma de Gustavo Kuerten e Cesar Cielo -, chega a ser surreal, ou doentio, ver o ódio se manifestar na rua, nos campos, nas quadras e na internet tendo como motivação a cor da pele de alguém. Mas faz parte de uma nação, ou deveria fazer, buscar alternativas para curar suas feridas. Daqui a menos de nove meses o Brasil receberá os Jogos Olímpicos , no Rio de Janeiro. Um evento global, com mais de 200 países envolvidos. Não é uma boa oportunidade para exercer a cidadania e romper com as diferenças?

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Esta foi a reflexão proposta pelo iG Esporte  ao carioca Robson Caetano, de 51 anos, para o Dia Nacional da Consciência Negra, comemorado nesta sexta-feira. Ex-velocista, medalhista de bronze nas Olimpíadas de Seul-1988 (200m rasos) e Atlanta-1996 (revezamento 4x100m rasos), do Mundial de Indianápolis-1987 (200m) e campeão pan-americano em Havana-1991 (100 e 200m), ele diz nunca ter sido alvo de racismo em competições. Em compensação, ao chegar de ônibus a uma festa num baladado hotel do Rio de Janeiro, teve a sua entrada barrada por seguranças.

Robson Caetano mostra engajamento com a causa negra. Acredita que a união dos povos promovida pelos Jogos Olímpicos terá papel de destaque na hora de afastar os mais jovens da discriminação. Ajudaria, porém, se outros ícones do esporte, em atividade ou curtindo a aposentadoria, se envolvessem mais com a causa.

"Racismo é...": Veja o que Robson Caetano respondeu neste vídeo da TV iG

Confira abaixo os trechos principals da entrevista, concedida por Robson Caetano em São Paulo, no último dia 13, após participar de um debate na 4ª Conferência Internacional Racismo no Esporte.

iG: Qual o significado do Dia da Consciência Negra, para você e para o esporte?
RC: Não tinha de ter o Dia da Consciência Negra. Dia da Consciência Negra são todos os dias. É o dia do cidadão, do homem que vai à lubuta, sai para trabalhar, vai para o trampo. Esse é o dia a dia, não tem história. Ter um dia específico significa o seguinte: a gente continua ali, numa condição de: "olha, tome um diazinho aí para vocês curtirem o quanto vocês sofreram". Nossa história é nossa história. Ter um dia para ela não é legal, mas é respeito. É justo e válido. Acho que um dia só é muito pouco. Ah, tem o Dia do Muçulmano? Então ele vai lá para Meca... Não! Eles têm um mês, parece. E a gente ganha só um dia? A gente não pode ficar com esse estigma, tem de ampliar. O Dia do Negro, o Dia da Consciência Negra, isso eu não concordo. O dia da consciência é todo dia, e serve para negro, branco, amarelo, verde, não importa.

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iG:  Por que o racismo ainda é um mal tão presente no Brasil?
RC:  É presente porque não é punido. Vamos mexer no bolso das pessoas que estão fazendo este tipo de coisa, que estão agredindo outras pessoas. Os covardes que vão para a internet, porque agora fica atrás de uma tela de computador e se acha o super-homem. Sabe, vamos mexer no bolso desses caras. Você foi condenado e vai pagar uma multa de não sei quantos mil e pedir desculpas publicamente. Você vai receber um prêmio, não é humilhação. Honestamente, você dizer a um negro: "Olha só, me desculpe porque eu errei e me arrependi", isso deveria ser motivo de orgulho. Reconhecer que negros e brancos têm o mesmo papel, podem viver em paz e harmonia em qualquer ambiente, e mais ainda, está na hora de começar a valorizar o negro no seu trabalho, o negro profissional. Porque aquele cara que está na mesma posição que ele, mas está ganhando mais... Isso está ficando muito chato, começando a encher o saco, e a gente pode fazer valer para as próximas gerações esse pensamento.

Robson Caetano conquistou o ouro nos 100m e 200m do Pan de Havana-91
Divulgação/CBAt
Robson Caetano conquistou o ouro nos 100m e 200m do Pan de Havana-91

iG: Você tem posições bem firmes sobre o assunto, mas parece ser exceção. Tem pouco atleta engajado no Brasil?
RC:  É porque a gente não cria uma manifestação pacífica na Avenida Paulista. Pare para pensar: você tem aproximadamente... Vamos para o universo homossexual. Os gays, lésbicas e simpatizantes, que conseguem reunir um milhão de pessoas na Avenida Paulista. No início, eles levavam pancada, apanhavam, mas hoje fazem uma festa belíssima. Tem começo, meio e fim. O negro passou 388 anos levando pancada, apanhando, depois ele foi jogado no mundo e disseram assim: um abraço. Ninguém está querendo tirar o lugar de ninguém. É claro que, quando você começa a fazer sucesso, e aí independe da cor, diz que a pessoa está cheia de marra porque conseguiu. É tão pequeno, sabe? A gente tem de pensar maior. Nós somos 53% da população brasileira, negros e mestiços. Caramba, gente! E consumidores. Tem negrão aí andando de carro bacana, e muitos. Tem negrão aí que é cirurgião plástico, e dos bons. Onde estão esses caras? A gente tem de ir atrás deles. A gente precisa imobilizá-los para que possam abraçar a causa, que não é de punho cerrado, querendo briga. Nada disso. Pelo contrário.

iG: Como os Jogos Olímpicos de 2016 podem contribuir neste cenário de luta por igualdade e pelo fim do preconceito?
RC:  Uma consciência muito maior, de mudança de paradigma para as próximas gerações. Vamos contar as histórias dos nossos ídolos, dos nossos heróis, e colocar nas escolas. Vamos melhorar a qualidade de ensino. Educação Física, que é área de Humanas, os caras não conhecem a nossa história. Não é a história do negro, é a história do Olimpismo. Eles não conhecem. Você chega perguntando para quem está começando o curso de Educação Física agora quem é (o ex-nadador) Ricardo Prado. "Ih, cara, acho que sei quem é." Muita gente vai saber porque ele está trabalhando em rádio agora, mas a gente precisa se reinventar para ter nossa história respeitada.

iG: O fato de o COI (Comitê Olímpico Internacional) proibir que atletas se manifestem sobre questões polêmicas em Jogos Olímpicos pode atrapalhar?
RC: O veto do COI é mais para proteger o próprio atleta. Hoje, as histórias veladas continuam. Não pode exibir patrocínio, mas o camarada vai lá num Pan-Americano ou numa Olimpíada e coloca um tênis no pescoço. Isso aconteceu, (o ex-nadador americano) Mike Spitz fez isso. Temos como, de maneira inteligente, mandar o nosso recado, qualquer atleta. A zona mista (área de entrevistas pós-competição nas Olimpíadas) está aí para isso. Você pode mandar seu recado ali. Na hora em que o microfone chega, você precisa ter o discurso certo, para não deixar aquelas pessoas com pensamentos todos caóticos numa situação de conforto. Racistas não somos nós, racistas e preconceituosos são os outros.

iG: O COB (Comitê Olímpico do Brasil) cogita pedir que os atletas evitem polêmicas em redes sociais para não perderem foco para os Jogos do Rio...
RC:  Acho errado. Liberdade de expressão. Se você é ofendido e por causa disso fica pequeno, tem alguma coisa errada. Perguntaram para mim se estava sendo feito um trabalho psicológico com os aletas. Não é feito. As pessoas entram na internet, colocam seus posts lá esperando sempre o melhor. Você vai no meu perfil no Facebook e não tem ninguém lá me ofendendo, mesmo porque não fico buscando. Democraticamente falando, é superimportante. O atleta também precisa disso, é só saber usar.

Relembre na galeria de fotos atletas negros que romperam barreiras no esporte:


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