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Aos 40 anos, líbero esperava não ser mais tão necessário, mas Bernardinho não conseguiu superar a saudade do velho Serginho

Líbero ergue o troféu conferido ao melhor jogador do Sul-Americano de Maceió
Divulgação/CBV
Líbero ergue o troféu conferido ao melhor jogador do Sul-Americano de Maceió

O líbero Escadinha completou 40 anos de idade na semana passada. E em plena forma: no Sul-Americano de Vôlei disputado em Maceió, no início do ano, foi apontado como o melhor jogador da competição. As exibições de alto nível do veterano só comprovam que Bernardinho estava coberto de razão ao reconvocá-lo para a seleção brasileira, após três anos de ausência. Ele havia se aposentado da equipe nacional em Londres, ao conquistar em 2012 a medalha de prata olímpica pela segunda vez consecutiva.

iG - Você foi apontado com o melhor jogador do Sul-Americano, uma competição em que a seleção brasileira jogou completa. Esperava estar jogando nesse nível, com essa idade?
Eu sempre me cuidei. Mas não esperava estar sendo contemplado com esse nível de vôlei nessa idade. Estou surpreso com a resposta do meu corpo. Mas, pensando bem, eu não bebo, não fumo, sempre dormi muito bem e não tive grandes lesões na minha carreira, tirando a hérnia de disco, que me obrigou a passar por uma cirurgia na coluna. Claro que não faço o que fazia quando tinha meus 20 anos de idade. Eu dava muito peixinho. Hoje me posiciono melhor para não ter de dar tanto peixinho. Tenho uma explosão natural e uma velocidade para chegar na bola que ainda não perdi. E os movimentos de defesa no vôlei são um sistema automático. A gente recebe também um monte de informações hoje em dia, é tudo mastigadinho. Já sabemos onde a bola vai cair, já conhecemos os jogadores. Tudo fica mais fácil.

Imagino que, quando você resolveu parar com a seleção, era porque estava cansado de uma série de coisas. O que o levou a decidir voltar?
Sempre me importei muito com a seleção. Isso não significa que queira sempre estar nela. Quero que a seleção brasileira esteja bem. Acho que o Bernardinho tinha de testar outros jogadores. Seria muita vaidade da minha parte achar que só eu poderia ser o líbero da seleção. Quando saí, disse que jamais iria negar uma convocação para a seleção, mas preferia que não houvesse necessidade de me chamarem.

E o que pesou para você voltar?
Houve uma pressão muito grande, não só da minha família, que queria me ver na seleção, mas de amigos e colegas. E eu vi que o meu nível de jogo não havia caído, apesar da idade. Os caras que foram convocados não foram bem; foram inconstantes, tiveram altos e baixos.

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O que achou das suas atuações nesse retorno?
Apesar de a gente não ter ido bem na Liga Mundial (o Brasil foi eliminado nas finais, disputadas no Rio, e terminou em quinto lugar), voltei bem. A vida não é fácil, não sabia como o meu corpo iria reagir.

Como você avalia a atuação dos jogadores que atuaram na sua posição na seleção durante o período em que esteve fora?
Querer compará-los a mim seria injusto. Achar que os caras têm de ser os melhores do mundo não dá. É preciso dar tempo ao tempo. O nível técnico internacional é muito alto. Jogar pela seleção é totalmente diferente de jogar em clube. É preciso dar tempo ao tempo. Não dá para pensar que eles vão fazer a mesma coisa que eu, construir o que fiz.

Como vê as gerações que estão vindo aí?
O nível técnico caiu muito. Dói no coração dizer isso, mas é verdade. A gente precisa buscar mais gente, trabalhar essa base. Vejo garotos chegando aqui ao clube (Sesi, um dos principais do país) muito crus aos 17 anos. Caras como o Giba e o Nalbert já arrebentavam nessa idade. Tem meninos hoje que não sabem nem as posições na quadra, com um manchete muito feia, um toque horrível. O material humano continua aí, temos muitos jogadores de dois metros de altura. Mas têm de trabalhar bastante. Temos promessas que são isso: promessas.

Lembro de ter ido cobrir uma final de Campeonato Paulista em Suzano, em 2001, antes de o Bernardinho assumir. Você jogava pelo Banespa, que foi enfrentar o Suzano, que tinha um patrocínio da Zip.net. Fomos entrevistar você na quadra. Pelo seu desempenho, já se especulava que poderia ser convocado para a seleção. Perguntamos isso, e você dizia que não acreditava que seria chamado. Era modéstia da sua parte?

Eu tinha uma mentalidade totalmente diferente. Sabia que queria muito um lugar para mim no vôlei. Sabia também que tinha um potencial, mas não sabia que poderia ter um papel tão importante como líbero. Não sabia que poderia inovar um sistema tático. Porque o líbero não pode se limitar a passar e defender. Tem de saber levantar, fazer tudo muito bem, e tem de comandar, se comunicar com todo o time, ser um técnico dentro da quadra. Líbero calado, para mim, não existe.

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Li uma entrevista sua em que dizia que o vôlei passará muito rápido na sua vida, e que você não busca prêmios individuais, e que em breve você vai estar em casa, empinando pipa. Você vai fazer isso mesmo?

O que eu quis dizer é que é preciso ter os pés no chão. Nunca me iludi com o glamour de ser jogador. Iludir-se com isso é palhaçada. Sempre digo que tinha o sonho de ser jogador, e agora tenho o sonho de parar. Fora daqui, sou uma pessoa comum. Vou ao banco e pego fila, não quero nenhum privilégio. Quando vou ver jogos do Corinthians, vou de metrô ao Itaquerão. Esse vírus da vaidade eu não peguei.

Você já jogou com muita gente na seleção brasileira. O que acha da geração que está jogando agora?
É uma geração muito boa, mas é diferente. Naqueles anos em que ganhávamos tudo, jogávamos com muita velocidade, os jogadores eram mais habilidosos. Hoje a seleção tem mais força, mais altura. Mas são bons, também.

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O que é possível esperar da seleção nas Olimpíadas?
Está tudo muito equilibrado. Tem cinco, seis equipes no mesmo nível: Brasil, Polônia, Rússia, Sérvia, França, Estados Unidos. O Brasil pode ganhar a medalha de ouro, pode ficar em sexto lugar.

E a Itália?
Não gosto muito da Itália, mas pode colocar nessa lista também.

E o que o Brasil tem de fazer para sobressair nesse bloco tão homogêneo?
Nossa vontade de ganhar tem que ser maior do que a dos outros. A gente vai ter  de querer muito mais do que eles.

Historicamente o Brasil não ganha muito dentro de casa. Mesmo quando a seleção ganhava tudo, disputava competições em casa e não ganhava. Chegou a perder Copa América para os Estados Unidos quando estava no auge.
Não acredito em nenhum paradigma desses. Acho que tudo isso é conversa. Se você se preparar bem, bem de verdade, vai ser campeão.