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Antonio Garnero deixa baladas e namoradas famosas para trás e pedala de olho em vaga na Olimpíada. Esta semana, compete no Mundial de Ciclismo de Estrada de Richmond, na Virgínia


Garnero é um dos principais cilistas de estrada do Brasil
Arquivo pessoal
Garnero é um dos principais cilistas de estrada do Brasil

Foi uma mudança meio repentina para quem não segue o ciclismo com atenção. O nome do executivo Antonio Garnero, que era encontrado com mais facilidade no noticiário econômico ou em sites especializados no acompanhamento da vida alheia, inesperadamente pipocou no meio esportivo. Conhecido como vice-presidente de um império, o grupo Garnero, do Banco Brasilinvest, "Pippo", que costumava circular na noite a bordo de aviões como Priscila Fantin e Daniela Cicarelli, foi visto cruzando a linha de chegada do Campeonato Brasileiro de Ciclismo de Estrada, em São Carlos, em primeiro lugar, após percorrer 187km em 4h41min, no ano passado.

Pippo deixou os negócios da família e se tornou profissional de ciclismo apenas aos 25 anos de idade. Hoje, aos 32, é um ciclista de ponta, ao menos do Brasil, e vai representar o país no Mundial de Richmond, no estado norte-americano da Virgínia, que começou no último sábado.

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Desde os 12 anos de idade, Antonio já competia em provas de ciclismo. Nessa idade, já pedalava pelas estradas da França, sem contudo se atrever a fazer o mesmo no Brasil. “Nas estradas do Brasil, o ciclismo é um esporte de alto risco. Na França eu me sinto superseguro. Não tenho receio de que roubem o meu equipamento. E o esporte é muito apreciado lá. Os motoristas gostam e nos saúdam, buzinam. Aqui insultam a gente, te mandam ir trabalhar. Você às vezes está na quinta hora de um treino, depois de pedalar 160km, e te chamam de vagabundo”.

Antonio já tinha vontade de se dedicar ao esporte desde a adolescência, mas preferiu fazê-lo apenas depois de se “estabelecer profissionalmente”, em suas palavras. O esporte teve que esperar que se graduasse, pós-graduasse e trilhasse a carreira de executivo.

“Eu sempre soube que poderia me destacar no ciclismo. Treinava com medidor de potência, e os números me davam um parâmetro. Tinha um treinador, o José Dantas, que me garantia que eu estava no mesmo nível dos melhores”.


Dado o potencial físico, o desafio do executivo seria trocar as incursões pela noite e as mulheres pela vida regrada de atleta. “O ciclismo é um esporte muito exigente, não permite meio-termo. Não é como o futebol, em que a gente vê os jogadores tomando cerveja, fazendo churrasco. No ciclismo, não se pode sair à noite, beber, tomar sobremesa. Vence quem for mais disciplinado, porque a relação peso/potência é fundamental para o ciclista”. Por incrível que possa parecer, Antonio diz que não sente falta de seu antigo estilo de vida. “Para falar a verdade, se pudesse,  teria seguido a carreira esportiva desde os meus 15 anos de idade”.

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Em dezembro, o ciclista vai se casar com Carol Buffara, empresária que criou fama ao dar dicas de como manter a boa forma em blogs e Instagram. O fato de ela também ser adepta de um estilo de vida saudável os aproximou. “Esse é um dos motivos pelos quais nos demos superbem”.

A transição da vida de executivo para a de ciclista de dedicação exclusiva foi acompanhada pelo preparador físico norte-americano Hunter Allen, responsável por lhe enviar as planilhas de treinamento semanalmente.

Em Richmond, Antonio acredita que ele e o outro representante do país no Mundial, Kléber Ramos, tenham possibilidades de ficar entre os dez melhores. No evento-teste para a Olimpíada, o paraibano Kléber ficou em sétimo lugar. A duríssima prova, com percurso de 165km, com duas voltas em um percurso que inclui a escalada até a Vista Chinesa, no Alto da Boa Vista, sob temperatura de 30ºC, com sensação térmica de 35ºC, Garnero não completou. Apenas 29 dos cem competidores concluíram o trajeto.

Ainda assim, o ex-executivo apreciou o circuito e o considera compatível com suas características. “É uma prova para escaladores”. O que Antonio não esperava eram as tachinhas colocadas no asfalto, que furaram seus pneus por duas vezes, forçando-o a abandonar.

O ciclista não afasta a possibilidade de obter uma vaga para a Olimpíada. “Vai depender dos resultados da temporada. Tem que ter uma consistência e estar bem no meio do ano que vem”. Como país-sede, o Brasil já tem direito a duas vagas para as provas de estrada no masculino.

De qualquer forma, o ciclista que veio do alto da pirâmide social se considera plenamente integrado ao meio de um esporte que, no Brasil, é praticado por atletas provenientes de estamentos bem mais baixos.

“O esporte une as pessoas e transcende a condição social. Todos se respeitam. O que vale é a força nas pernas. De modo que o respeito mútuo se desenvolve naturalmente, e todos sabemos as dificuldades com que lidamos ao longo de uma competição”.

Bem-sucedido, Garnero não precisaria de nenhum MBA para constatar que o ciclismo brasileiro carece muito de investimento. “O ciclismo no Brasil está muito subdesenvolvido. Vemos em outros países grandes ciclistas despontando já na categoria juvenil. Com 19, 20 anos, já são grandes atletas. É que existe uma estrutura e uma perspectiva que permite a eles apostar desde muito jovens numa carreira no esporte”.






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