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A baiana começou a nadar aos 2 anos, como medida cautelar de sua mãe, preocupada com uma criança que não parava quieta. Hoje é recordista brasileira de medalhas em Mundiais

Ana Marcela Cunha ganhou bronze em Kazan em prova olímpica, os 10km
Satiro Sodre/SSPress
Ana Marcela Cunha ganhou bronze em Kazan em prova olímpica, os 10km

Para alguém que hoje faz do ato de desafiar o mar a sua profissão, não deixa de ser irônico que Ana Marcela Cunha tenha começado na natação aos dois anos de idade, como uma forma de medida de segurança preventiva. É que ela, daquelas crianças que não conseguia parar quieta em um cômodo, frequentava uma escolinha em Salvador que contava com uma piscina em suas instalações.

“Eu era uma menina hiperativa, e minha mãe, então, me colocou para nadar, com medo de que pudesse acontecer alguma coisa mais grave”, relembra, em entrevista ao iG . Tanta precaução dava mais tranquilidade à mãe, Ana Patrícia. E acabou, involuntariamente, moldando uma atleta de elite. Hoje, 20 anos depois, a filha é a recordista brasileira em termos de medalhas em Mundiais, de qualquer modalidade, depois de sair da última edição, em Kazan, na Rússia, com um ouro, uma prata e um bronze pela maratona aquática. “Comecei cedo, desse jeito, e fui pegando gosto. Nunca parei até chegar a esses bons resultados.”

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O curioso, a partir daí, foi a escolha de qual tipo de prova adotar. Para alguém que se assume agitada, era normal deduzir a opção por provas mais rápidas, explosivas, como os 50m livre, os 100m borboleta, ou algo do tipo. Mas, não. Aos oito anos, Ana Marcela já estava no mar soteropolitano para disputar sua primeira prova como atleta mirim. O progresso foi tão rápido que, aos 16, já estaria em Pequim para inaugurar a modalidade no calendário olímpico dos Jogos de 2008. Terminou com o quinto lugar, uma grata surpresa.

Ana Marcela Cunha conquistou a primeira medalha do Brasil em Kazan
Satiro Sodre/SSPress
Ana Marcela Cunha conquistou a primeira medalha do Brasil em Kazan


A verdade é que, em Salvador, existe uma tradição pelas competições de fundo, de maior duração. Junte esse costume com os mais de 40 km de extensão do litoral da capital baiana, e você tem um cenário que contraria o ciclo natural de jovens nadadores. “O normal é começar na piscina e depois ir para o mar. Fiz o contrário. Mas sempre gostei e rendi mais no mar, mesmo”, afirma. “Foi algo natural para mim. É totalmente diferente. Você tem de observar várias coisas e tentar se livrar dos choques com os outros atletas."

Provas longas pedem muita energia, mas de outra forma. Os competidores precisam de paciência, levando em algumas provas mais de cinco horas para finalizá-las. Como fazer, então, no caso de alguém mais irrequieto? Como dosar a explosão temperamental com a cautela mais estratégica? Foi algo que ela passou a administrar com o tempo. “Cada prova tem o seu plano, a sua estratégia. Você tem de saber o que fazer a cada etapa de competição. Precisa de resistência e tem de saber economizar energia para o final. Tem de segurar essa hiperatividade para os últimos 200, 50 metros de prova”, diz.

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Nos períodos normais de treinamento, Ana Marcela afirma passar em média de quatro a cinco horas n’água. Com exercícios físicos, a carga diária de trabalho pode chegar a nove horas. É a preparação necessária para se chegar a seis medalhas em provas de águas abertas nos últimos três Mundiais. São duas de cada cor, tendo ganhado agora na Rússia o ouro pelos 25km e o bronze pelos 10km em provas individuais, além de uma prata por equipes mistas 5km.

Em 2005, aos 13, Ana Marcela ainda alternava competições de mar em piscina. Aqui, competia em Portugal
Divulgação
Em 2005, aos 13, Ana Marcela ainda alternava competições de mar em piscina. Aqui, competia em Portugal

Na volta para casa, visitando familiares em Salvador, passou 16 dias em regime leve de treino – leve para os padrões da modalidade, com algo em torno de 5.000m de nado por sessão. Ainda assim, topou participar, no último domingo, de um evento-teste para o Rio 2016 na praia de Copacabana, em percurso de 10km. Estava 4 kg acima do seu peso de competição, chegou a se atrapalhar com uma vara de alimentação e, por fim, ainda bateu na raia da reta final. Com tantos obstáculos, comprovando a ótima fase, ainda ganhou a prata. O ouro só escapou por 1,2s, ficando com uma adversária de respeito: a britânica Keri-Anne Payne, bicampeã mundial em 2011 e 2013 e prata nas Olimpíadas de Londres 2012, sempre pela distância de 10.000m.

Quando saiu da água, não estava nada ofegante na hora de falar jornalistas e organizadores. Foi como se as mais de duas horas de nado fossem fáceis. Seguindo sua lógica, dá para entender: em Kazan, ela já havia nadado 25km, mais que o dobro, ficando precisamente 5h13min47s em ação. Em 2014, ela já encarado a Travessia Capri-Napoli, na Itália, com um trajeto de 36km, estabelecendo um recorde de 6h24min45s. “Quando você chega aos 10km, fica mais fácil, por saber que já nadou muito mais que isso”, diz.

Agora, vai se preparar para disputar duas etapas da Copa do Mundo em outubro, na China e em Hong Kong. Depois, voltará a competir pelo Campeonato Brasileiro. Até as Olimpíadas, nada de férias. Com tanta energia gasta assim em treinos e competições, a nadadora ainda é hoje alguém agitada fora d’água? “Bem menos, é verdade, mas ainda sou sempre a mais motivada do grupo. Fico enchendo o pessoal.”

Nesta terça-feira, em cerimônia para celebrar uma parceria que envolve projetos educativos entre o Sesi-SP e o COB (Comitê Olímpico Brasileiro), a baiana deu uma amostra desse comportamento. A nadadora estava no palco, sentada, acompanhada por alguns medalhistas olímpicos e pan-americanos. Era a turma do esporte, logo atrás de alguns dirigentes, com Carlos Arthur Nuzman, o presidente do COB e do comitê organizador do Rio 2016 entre eles. Depois de alguns discursos mais longos, um coral de jovens se posicionou ao pé do palanque, para se apesentar.

Durante a canção, ela se animou, mesmo que muito deslocada em relação ao seu hábitat natural – o mar. A maratonista batia palmas e tentava fazer os demais atletas entrarem no clima. Não deu certo. “Fiquei tentando puxar o ritmo com eles, mas ninguém pegou. Ficaram ali mais sérios”, conta. “Acho que a gente não muda depois que nasce desse jeito, né? Pode maneirar um pouco. Mas mudar a gente não muda, não”, completa, rindo.

Confira as modalidades olímpicas em que o Brasil tem brilhado em cenário global:


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