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O dono de cinco medalhas olímpicas minimiza a questão da poluição e discursa contra as raias em mar aberto, nas quais os velejadores brasileiros não têm muita familiaridade


Robert Scheidt ficou em quarto no Aquece Rio
Wander Roberto/Inovafoto
Robert Scheidt ficou em quarto no Aquece Rio

Robert Scheidt é conhecido no Yacht Club de Santo Amaro, na zona sul da capital paulista, desde os seus oito anos de idade, quando navegava, com um chapeuzinho de marinheiro, num barco da classe Optimist. Herdeiro das tradições da agremiação, cujo primeiro nome foi Clube Alemão de Vela, alterado durante a Segunda Guerra Mundial por determinação da ditadura de Getúlio Vargas, Scheidt deu continuidade à linhagem inaugurada por Wolfgang "Putz" Richter, o velho Putz, o primeiro do clube a representar o Brasil numa edição dos Jogos Olímpicos, em Londres-1948.

Aos 42 anos, o garoto que cobria a cabeleira loira com o chapeuzinho de marinheiro vai se tornando, a cada dia, um velho lobo do mar. É com essa sabedoria que ele vai tentar a glória de obter sua sexta medalha olímpica, novamente na classe Laser, que deixara em 2005, justamente por ser um tipo de barco que exige maior vigor físico.

A classe em que embarcara em 2006, a Star, foi excluída do programa olímpico, e Scheidt teve que retornar à Laser. Depois de amargar o 15º lugar no Mundial de Kingston, no Canadá, Scheidt melhorou o suficiente para conquistar a prata no Pan de Toronto, no mesmo lago Ontário do Mundial, e a quarta colocação no evento-teste Aquece Rio, na semana passada.

Mesmo não sendo mais o Scheidt dominante de outros tempos, aquele que conquistou dez títulos mundiais na Laser, ele aposta alto em suas condições de alcançar o pódio mais uma vez em sua última Olimpíada.

"Vela não é um esporte só físico. É também um esporte estratégico, mental e tático. É um jogo de xadrez no qual também se emprega a parte física, em que se tem que tomar decisões rápidas, e a experiência conta. Claro que a Laser é uma classe mais física do que a Star, mas em nenhum momento senti que meu físico fosse um problema", disse o velejador, em entrevista no tradicional clube de Santo Amaro, nesta terça-feira.

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Scheidt usa essa inteligência na hora de falar sobre a Baía de Guanabara. Como os brasileiros estão mais acostumados a velejar nas raias internas, onde têm mais chances de vitória, eles minimizam o grau de importância do lixo flutuante. Boa parte dos adversários prefere a disputa para as raias em mar aberto, onde não há lixo. O diretor executivo da Federação Internacional de Vela, Peter Sowrey, ameaça vetar as raias localizadas no interior da Baía, justamente por causa da poluição.

"Seria um erro muito grande. As raias da Baía são muito conhecidas, são as raias em que todos os clubes do Rio de Janeiro fazem suas regatas, são raias boas, raias técnicas. Além disso, você tem situações meteorológicas em que dentro da Baía dá para ter regata porque tem vento e fora não dá. No evento-teste, tínhamos zero nós fora e ventos de dez nós dentro. Você corre o risco de fazer as Olimpíadas com umas três regatas apenas. Ninguém quer isso. Queremos as 10 ou 11 regatas", diz o veterano. "Meus adversários consideram as raias (internas) difíceis, mas ao mesmo tempo sabem que vão testar a habilidade de todos. Os atletas de ponta, os talentosos, gostam disso. Acho que tem havido um excesso de críticas com as raias internas - a pergunta que acabo ouvindo mais vezes é da poluição. Tivemos boas condições no Aquece Rio, sem detritos. Fomos favorecidos pela falta de chuvas, que agravam o problema".

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A evolução desse jogo político vai influir fortemente na esfera esportiva. Nos Jogos de Sydney, os australianos tiveram sucesso em levar a disputa para bem perto da costa, onde havia particularidades que os levavam a chamar o local de "máquina de lavar", devido ao complexo quadro de correntes marítimas. O mesmo ocorreu em Atenas e em Weymouth, onde foram disputadas as regatas dos Jogos de Londres. O lixo da Baía de Guanabara, entretanto, está jogando contra as pretensões brasileiras, de utilizar o fator casa para navegar com vantagem devido à familiaridade com as condições náuticas.

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