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Recordista mundial da categoria nos 400m medley, nadador do Corinthians é a maior esperança de medalha do Brasil na competição que começa nesta terça-feira, em Cingapura


Brandonn conhece a fundo a piscina do OCBC Aquatic Centre
Satiro Sodre/SSPress
Brandonn conhece a fundo a piscina do OCBC Aquatic Centre

Brandonn Almeida deixou de ser um desconhecido para o grande público, que não acompanha natação a fundo, nos Jogos Pan-Americanos de Toronto. No Canadá, o garoto de 18 anos, que mais se parece com um enxadrista ou um estudante de mecatrônica, demonstrou que é mesmo um nadador, e dos bons. Até mesmo vizinhos de seu prédio descobriram o que fazia o rapaz magro e com óculos de armação grossa que encontravam no elevador acompanhando o Pan pela TV.

"Até o pessoal do meu prédio me reconhece agora. Fiquei meio assustado", disse Brandonn, que notou também um grande progresso em sua popularidade caminhando na rua e no Itaquerão, onde foi acompanhar um jogo do Corinthians.

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A partir desta terça, Brandonn entra em ação no Mundial Júnior de Cingapura, seu grande objetivo nesta temporada. Por essa competição, ele abriu mão de participar do Mundial Absoluto, de Kazan. "Vou ter muitas oportunidades de nadar o Mundial Absoluto, mas este é o último ano em que poderei participar do Mundial Júnior", diz o atleta, numa manhã de agosto, logo após concluir um de seus treinos no Conjunto Aquático Mário Cardoso Xavier, no Parque São Jorge.

Em Cingapura, Brandonn será uma estrela. Ele é simplesmente o recordista mundial júnior, com o tempo registrado no Pan (4min14s47). "O Mundial Júnior é a minha competição neste ano. Estou treinando para ela desde o início do ano. Se fosse para Kazan depois de Toronto, teria que viajar pouco tempo depois para Cingapura, com mais uma adaptação de fuso horário. Seria muito desgastante".

Brandonn conquistou ouro nos 400m medley no Pan
Satiro Sodré/Divulgação CBDA
Brandonn conquistou ouro nos 400m medley no Pan

O foco em Cingapura é tão explícito que Brandonn retomou os treinamentos voltados para essa competição dois dias depois de conquistar o ouro nos 400m medley, ainda em Toronto. Porém, ele ainda teria pela frente, no Pan, um desafio nada leve, os 1500m, prova em que teve uma reação fantástica, depois de ficar meia piscina atrás dos líderes, e conquistou o bronze de forma emocionante. "Por causa do cansaço, não estava me sentindo bem no início da prova. Mas no decorrer dela fui me aquecendo. Não tinha noção de que estava tão atrás, mas percebi que conseguia me aproximar cada vez mais. Quando vi a gravação da prova depois, fiquei surpreso".

Raçudo, Brandonn tem uma grande identificação com o Corinthians. Sócio desde a infância, é o único integrante do clube na delegação do Pan que é cria das divisões de base do Parque São Jorge, a versão aquática dos jogadores formados no "Terrão", o mítico campo meio desprovido de grama de onde saíram Casagrande, Viola e Zé Elias.

"Frequento o clube desde pequeno. Participava de tudo, passava o fim de semana aqui. Pude acompanhar a evolução das instalações, e isso é muito legal. Esta piscina nem tinha blocos direito, as raias eram horríveis, a sala de musculação quase não tinha aparelhos. Hoje o clube me oferece toda a estrutura necessária. Nem penso em ir para o exterior. Acho que seria proveitoso fazer apenas alguns camps (estágios de treinos)".

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Após atravessar décadas como coadjuvante em competições nacionais, o Corinthians voltou a ser campeão do Campeonato Brasileiro Absoluto, hoje chamado Maria Lenk, em 2014, depois de 48 anos de jejum. O gerente técnico de natação competitiva é Carlos Matheus, neto do ex-presidente Vicente Matheus e treinador de Brandonn.

O ressurgimento do Corinthians se tornou possível graças justamente ao investimento na base. Beneficiário desse trabalho, Brandonn despontou nacionalmente em seu segundo ano de juvenil, aos 16 anos, quando conquistou o bronze no Troféu José Finkel. No ano seguinte, venceu a competição. Os resultados podem parecer precoces, mas já são fruto de anos de dedicação. Afinal, Brandonn decidiu ser nadador profissional na infância.

Brandonn já fez, neste ano, por duas vezes, a marca exigida para ir aos Jogos Olímpicos do Rio, que é 4min16s71. Mas só serão validados os tempos obtidos no Open, em dezembro, em Palhoça (SC) ou no Maria Lenk de 2016, em abril, no Rio. Os dois melhores nadadores dos 400m medley hoje, no Brasil, são Thiago Pereira e Brandonn.

Em 2008, ano em que o Finkel foi disputado no Corinthians, Brandonn acompanhou a competição da arquibancada, aos 11 anos de idade. "Eu estava assistindo. Peguei umas 15 toucas de nadadores que eu admirava. Uma delas era do Thiago". Hoje, a admiração é recíproca. "O Brandonn é um dos grandes nomes do futuro da natação brasileira. A gente ainda vai ouvir falar muito dele", disse o vice-campeão olímpico dos 200m medley.

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Recordista mundial júnior, Brandonn sabe que precisa evoluir muito nas disputas do absoluto. "Preciso melhorar principalmente o borboleta e o peito, em que fico muito atrás do resto da galera. O que me ajuda são meus crawl e costas, que são bem melhores do que os de outros atletas", diz o jovem paulistano, que precisa também de fortalecimento muscular. "O meu nado submerso e as viradas eu vou melhorar com o tempo. O pessoal mais velho tem mais força do que eu, e faz os fundamentos com melhor desempenho".

Brandonn só vai cair na piscina do OCBC Aquatic Centre para as eliminatórias dos 400m medley no sábado. Nesta terça, a maior esperança de bom resultado do Brasil reside no 4x100m livre. Felipe Souza tem o segundo melhor tempo entre os inscritos na prova (49s16), e Pedro Spajari tem o décimo (49s87).

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