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Jamaicano inicia o Mundial de atletismo longe das melhores marcas e contra um rival que não perde a 2 anos: Justin Gatlin, o velocista que enfrenta descrença geral após o uso de doping

Bolt não aparece nem entre os 5 primeiros do ranking dos 100 e 200m deste ano
Ian Walton/Getty Images
Bolt não aparece nem entre os 5 primeiros do ranking dos 100 e 200m deste ano


Usain Bolt anda contrariado. O mais recente escândalo de doping que abalou a IAAF (Federação Internacional de Atletismo) levou mais uma nuvem de descrença e críticas a pairar sobre o Mundial de Pequim, que começa neste sábado na capital chinesa. O velocista se diz triste pelas informações publicadas pela mídia europeia de que um total de 146 medalhas distribuídas entre 2001 e 2012 estariam sob suspeita, com casos de doping acobertados pela entidade.

"Isso realmente tomou o centro das atenções. Tudo o que tenho ouvido durante as últimas duas semanas é doping, doping, doping. A maioria das questões é sobre doping, é realmente triste", afirmou.

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Ironicamente, a notícia bombástica divulgada pela TV alemã “ARD” e pelo jornal inglês “Sunday Times” desviou o foco de um tópico que envolve diretamente o jamaicano: o mesmo estádio Ninho do Pássaro que o consagrou nas Olimpíadas de 2008 pode testemunhar o fim de seu reinado. O astro jamais entrou em uma competição de alto nível tão ameaçado como neste Mundial.

Lidando com uma lesão no joelho em 2014, afastado de algumas provas devido a dores pélvicas nesta temporada, Bolt não chegou nem perto de suas melhores marcas nas suas provas prediletas: os 100 e 200m rasos. Ao mesmo tempo, viu o norte-americano Justin Gatlin emergir com as melhores marcas em ambas as distâncias nos últimos dois anos.

Gatlin vence os 200m no campeonato norte-americano, com melhor marca do ano: 19s57
Christian Petersen/Getty Images
Gatlin vence os 200m no campeonato norte-americano, com melhor marca do ano: 19s57


Se formos levar em conta apenas os resultados de 2015, Gatlin tem os quatro melhores tempos dos 100m rasos, correndo como se estivesse guiado por um relógio: 9s74, 9s75 (em duas ocasiões) e 9s78. Essa consistência vem desde o ano passado, período em que marcou sete das dez marcas mais rápidas no percurso. Comparando, o jamaicano venceu em julho uma competição em Londres com 9s87 no cronômetro – o equivalente apenas ao sexto tempo mais rápido do ano.

Antes de alcançar Gatlin, o bicampeão olímpico precisa ainda superar seu compatriota Asafa Powell (que fez três vezes mais velozes este ano e ainda igualou a marca de Bolt em outras duas vezes). Trayvon Bromell e Tyson Gay, dos Estados Unidos, Keston Bledman, de Trinidad e Tobago, e Jimmy Vicaut, da França, são os outros velocistas à frente no ranking.

Nos 200m, Gatlin também encabeça o ranking, com as duas melhores provas da temporada: 19s57 e 19s68. Nessa distância, em que é o atual tricampeão mundial, Bolt tem apenas a 19ª prova por ora, com 20s13. Somando os 100 e os 200m, o norte-americano está invicto a 27 provas, desde 2013. Neste período, porém, nunca duelou com o jamaicano.

“Esta é a primeira vez que Bolt, como campeão, pode ser testado. Gatlin está voando. Ele está numa missão, e é certo que ele vai fazer uma corrida para 9s7. Bolt vai precisar acertar tudo em sua largada e manter o ritmo para defender seu título”, afirma o britânico Colin Jackson, bicampeão mundial dos 110m com barreira e hoje comentarista da “BBC”.

No retorno ao estádio olímpico de Londres, Bolt faz 9s87
Paul Gilham/Getty Images
No retorno ao estádio olímpico de Londres, Bolt faz 9s87


Bolt pode parecer vulnerável neste ano, mas há alguns detalhes a seu favor. Ele correu poucas vezes na temporada, até ter certeza de que estaria recuperado fisicamente. Em Londres, no dia 24 de julho, ele já melhorou consideravelmente em relação aos 10s12 que havia feito em um evento-exibição no Rio de Janeiro. Esta seria apenas a marca de número 68 no ano. “Essa prova só foi uma questão de me deixar pronto para o que vem pela frente”, disse, na ocasião, na capital inglesa. Além disso, quando fez 20s13 nos 200m em Ostrava, na República Tcheca, estava correndo debaixo de chuva, sem dar o máximo de si na pista, para se preservar.

Acima de tudo está o currículo do jamaicano. Seus recordes mundiais, de 9s58 e 19s19, ainda estão bem abaixo dos melhores tempos que o veterano Gatlin vem cravando.  De 2008 para cá, só perdeu o ouro dos 100m em Daegu 2011, quando queimou a largada. De resto, em todas as provas que largou, dominou as provas dos 100m, 200m e 4x100m.

De Pequim 2008 para cá, em grandes eventos, quando conseguiu largar, Bolt está invicto, vencendo o ouro dos 100m, 200m e 4x100m tanto em Mundiais como Olimpíadas. A sequência só foi quebrada quando ele queimou a largada dos 100m no Mundial de Daegu 2011. Hoje com 29 anos, para tentar seguir nesse nível, ele precisa mudar sua rotina, tanto a diária como a de competições. “Tenho de ser muito cuidadoso e ter em mente tudo o que está ao meu redor para assegurar que estarem pronto para competir”, diz.

No Mundial de 2013, Bolt superou Gatlin
Paul Gilham/Getty Images
No Mundial de 2013, Bolt superou Gatlin


Talvez o maior rival de Bolt ainda seja ele próprio. Mas Gatlin surge como uma verdadeira ameaça. O que não deixa de ser irônico num momento em que o doping volta com tudo ao noticiário do atletismo. O norte-americano, campeão olímpico dos 100m e 200m em Atenas 2004, já foi suspenso duas vezes devido ao uso de substâncias proibidas. Em 2001, levou gancho por dois anos, e a segunda em 2006, que foi revista duas vezes a primeira em 2001, por dois anos, e a segunda em 2006, que foi revista três vezes: de banimento definitivo para oito anos, depois de cooperar com as autoridades em investigação, e para quatro anos, após uma apelação.

Quando retornou às pistas, estava mais rápido do que no início de carreira nos anos 2000, marcando seus melhores tempos. Seu alto rendimento não é bem aceito na comunidade do atletismo. “Isso mostra duas coisas: ou ele ainda está usando drogas que melhoram o desempenho, ou as drogas que ele já usou ainda estão fazendo um trabalho fantástico”, ironizou Dai Greene, o campeão mundial dos 400m com barreira. “Não há como ele conseguir correr tão bem assim neste estágio de sua carreira.”

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Enfrentando a descrença dos concorrentes, Gatlin não perde uma prova desde os 100m da etapa de Bruxelas da Diamond League, no dia 6 de setembro de 2013, pela qual terminou em quarto. O ouro, claro, foi para Bolt. Os rivais agora se reencontram dois anos depois, com as eliminatórias dessa distância serão disputadas às 8h20, deste sábado (horário de Brasília). As semifinais e a final serão no domingo. A revanche, pelos 200m, será na quinta-feira. Com os dois na pista, a IAAF espera que o doping, enfim, fique em segundo plano. 

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