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Pernambucana quer voltar ao povoado de Barra da Tapera para recarregar as energias após uma excelente temporada, com a conquista dos torneios de Bogotá e Florianópolis


Teliana Pereira com o troféu do WTA de Florianópolis
Cristiano Andujar/Divulgação
Teliana Pereira com o troféu do WTA de Florianópolis

Teliana Pereira está preparada. Já sabe que, depois de viver a glória de erguer seu segundo troféu da WTA, em Florianópolis, no último final de semana, vai apanhar muito no restante da temporada, perder bastante nas quadras duras, que não são sua superfície preferida. Mas, depois de atravessar todo esse percurso, ela pretende se reabastecer energeticamente no povoado de Barra da Tapera, no sertão pernambucano, que deixou ainda na infância para se estabelecer, com a família, em Curitiba, onde iniciou sua vida no tênis aos oito anos de idade, como pegadora de bolinhas.

"No final do ano quero voltar lá. Quero muito levar minha mãe e meu pai. Acho que ele nunca mais voltou a Pernambuco. Imagine...Faz 20 anos que moramos em Curitiba. Nunca esqueço minhas origens. É claro que fiquei muito tempo sem voltar lá, mas ir é importante, porque dá muita força. Quando estou na quadra, penso em tudo o que minha família ralou no sertão nordestino, onde mal tem água, tudo é muito duro. Cresci com isso, com esses valores. Meus pais sempre me ensinaram a lutar muito pelo que se quer, porque nada cai do céu. Quero ir lá e dar um sonho para as pessoas", diz Teliana, que gostou de ser chamada de "tenista de alma sertaneja" num texto do ex-treinador Paulo Cleto.

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Teliana alcançou uma posição sonhada por muito tempo. É a 48ª do ranking, mais alta posição alcançada desde 1988, quando Niege Dias chegou a ser a 31ª. Foi uma longa e sofrida escalada desde 2010, quando caiu para o posto 540 depois de passar por duas cirurgias no joelho.

Depois de perder todos os patrocínios, Teliana foi empurrada por vaquinhas das quais participavam vários amigos que a conhecem desde os tempos em que pegava bolinhas na academia do francês Didier Rayon.

"Eu montava meu calendário e não tinha condições de ir para o torneio. Aí cada um me ajudou com o quanto podia e eu conseguia viajar. Isso com certeza me ajudou bastante a lutar mais. É importante ter essa gratidão. Não jogo só por mim, nunca joguei. Jogo pela minha família, por quem me ajudou. Isso me fortalece nos momentos difíceis".

Um desses momentos difíceis ocorreu uma semana antes do torneio de Florianópolis. Sua participação em Bad Gastein, na Áustria, durou sete games. Foi abreviada pelo joelho direito da pernambucana, que ela chama de "bipolar" - ele já perdeu parte do menisco e a cartilagem, extraídas em cirurgias. Às vezes dói, às vezes não. 

"Cheguei de lá arrasada, desgastada. Nem sabia se ia jogar em Florianópolis. Não criei expectativa, e acho que isso me ajudou. Fui evoluindo aos poucos e, depois que passei o jogo, em que estava muito irritada, mentalmente fui melhorando, porque vi que estava no lucro".

Olhando para a frente, Teliana, que é uma incansável devolvedora de bolas, pretende desenvolver a agressividade, para tornar os pontos mais curtos e sofrer menos desgaste físico. "Não acho que eu tenha o melhor saque, a melhor direita, a melhor esquerda. Tenho uma defesa muito boa e me movimento superbem pela quadra. Como confio muito na minha defesa, fico mais atrás, e aí corro muito mais. Tenho que pensar no físico, no corpo. Claro que não posso pensar num jogo só dando pancada. Mas na quadra rápida preciso ser mais ofensiva para poder me desenvolver".

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A correria de Teliana já a levou longe. Hoje, sua posição no ranking, entre as 56 melhores do mundo, lhe dá direito de entrar direto na chave de simples da Olimpíada. Dessa forma, abre passagem para outra brasileira ingressar no torneio via convite, que cabe ao anfitrião.

"Acho que pensar em medalha é um pouquinho ganancioso demais. Quero primeiro entrar e, uma vez dentro, tudo pode acontecer. Sei como é jogar em casa e ganhar uma medalha, como aconteceu no Pan do Rio, claro que numa escala menor".

"Uma vez lá dentro", como diz Teliana, ela poderá participar também de uma dupla mista. Tanto Marcelo Melo como Bruno Soares, os integrantes de uma dupla que tem plenas condições de subir ao pódio, já disseram que gostariam de jogar com Teliana.
Habilidosa, ela desvia como pode ao responder à pergunta sobre qual dos dois escolheria para formar dupla. "Eu me dou superbem com os dois . Não quero me comprometer. Independentemente do parceiro, eles vão ter que me levar nas costas, porque faz tempo que não jogo duplas. Meu jogo em duplas não está tão bom assim".

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De qualquer forma, Teliana está ansiosa para poder jogar em casa novamente, com a mãe na arquibancada, para poder reviver parte das emoções que sentiu em Florianópolis. "Ganhar com ela ali foi muito especial. Ela viu tudo o que eu estava passando. Posso ganhar no futuro o maior torneio da minha vida, mas Florianópolis será sempre muito especial".


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