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Eduardo Paes também torce para que as investigações da Lava Jato não afetem as obras dos Jogos Olímpicos do Rio 2016

Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro
Buda Mendes/Getty Images
Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro


Faltando um ano para os Jogos de 2016, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, se diz "otimista" de que as investigações da Lava Jato não comprometerão o andamento das obras olímpicas, mas admite que há coisas que estão fora de suas mãos.

"Acho que é um risco para o país. Estamos falando da maioria das empresas do país que estão envolvidas (na investigação)", afirmou em entrevista em inglês à BBC News.

"Acho que temos que separar as pessoas que fizeram (atos de corrupção) das companhias. Pelo menos é o que eu espero", diz ele, afirmando considerar as investigações algo positivo para o país.

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Embora empreiteiras investigadas pelo escândalo estejam à frente de grandes obras para os Jogos – como Odebrecht, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão – ele procura separar as construções olímpicas. "Aqui não tem Lava Jato. Lava Jato é no nível federal. Eles têm que responder por si."

Paes afirma que as obras da prefeitura estão no prazo, minimiza a preocupação com as obras estaduais do metrô – "Não estamos construindo o metrô para as Olimpíadas" – e acredita que a meta de tratar 80% do esgoto que vai para a Baía de Guanabara acabe ficando em apenas em 60% até 2016. "Os Jogos eram uma boa desculpa, mas foram uma oportunidade perdida neste caso", diz.

Paes levou a reportagem da BBC News para uma visita guiada pelo Parque Olímpico e diz que costuma visitar o local todo domingo para acompanhar o progresso das instalações. "Não é fácil fazer as Olimpíadas. É como ser dois prefeitos", compara.

Eduardo Paes com o jamaicano Usain Bolt em pista de atletismo no Rio de Janeiro
Divulgação/Prefeitura do Rio
Eduardo Paes com o jamaicano Usain Bolt em pista de atletismo no Rio de Janeiro


Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

BBC Brasil - O país está passando por diversos problemas que podem trazer dificuldades para a Olimpíada. Temos a crise econômica e o governo federal cortando o orçamento de diversos ministérios, inclusive o do Esporte. Temos as investigações da Lava Jato comprometendo mais e mais construtoras que estão fazendo as obras olímpicas. Há risco de isso comprometer as obras?

Eduardo Paes - Em primeiro lugar, não há nenhum escândalo envolvendo obras olímpicas. Nenhum. Não há casos de sobrepreço. A maioria das obras está sendo feita pela cidade. Aqui não tem Lava Jato. Lava Jato é no nível federal. Então eles têm que responder por si. Aqui está tudo bem.

Em segundo lugar: a maioria dos recursos vem do setor privado, então essas dificuldades não vão prejudicar a Olimpíada. E a maioria do dinheiro (público) vem da prefeitura, e nós estamos em boa forma. Temos um grau de investimento mais alto que o do governo federal.

Não é fácil fazer uma Olimpíada, cada dia tem um problema diferente, mas estou bastante confiante de que vai dar tudo certo e vamos entregar tudo no prazo. Estou bastante otimista.

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BBC Brasil - As investigações da Lava Jato não envolvem as obras olímpicas mas envolvem as empresas responsáveis por elas. Não podem comprometer o trabalho?

Paes - Acho que isso é um risco para o país. Estamos falando da maioria das empresas do país que estão envolvidas (na investigação). Acho que temos que separar as pessoas que fizeram (atos de corrupção) das companhias. Pelo menos é isso que eu espero. Mas há coisas que não posso alcançar. Estão fora das minhas mãos. O que posso dizer por ora é que as investigações já começaram há mais de um ano, e este foi o ano no qual mais produzimos aqui. Então estou otimista de que não haverá problemas.

Eu gosto do que está acontecendo no país. Eu acho positivo. Claro que não tenho orgulho disso, queria mais que não tivéssemos um escândalo, mas acho positivo que as pessoas sejam penalizadas pelos seus erros. Não vejo a Lava Jato como um problema, vejo como algo bom para o país.

BBC Brasil - A prefeitura tem enfrentado questionamentos do Ministério Público e algumas ações judiciais, como as que pediram a paralisação das intervenções na Marina da Glória e no Estádio de Remo da Lagoa, contestando a construção de arquibancadas temporárias no espelho d’água. Como o senhor vê esses questionamentos?

Paes - Acho que é algo que acontece em todos os lugares. Este é um país democrático. O sistema jurídico funciona. É normal que as pessoas recorram à Justiça dizendo "há algo errado aqui, isto é ruim para o meio ambiente".

E o juiz fale para parar e verificar o que está acontecendo lá. E então você explica. Eu acho normal. Faz parte do dia a dia dos governos ter que prestar esclarecimentos. Neste país as instituições funcionam. Por isso digo que a Lava Jato é uma característica positiva do Brasil.

Temos um sistema jurídico que funciona a despeito do desejo daqueles que estão no poder. E isso é bom. Temos instituições democráticas e temos orgulho disso.

BBC Brasil - O senhor diz que as obras de responsabilidade da prefeitura estão no prazo, mas há outras obras com cronogramas bastante apertados, como a do metrô para a Barra, essencial para conectar o resto da cidade ao parque olímpico. Recentemente um relatório do TCE-RJ (Tribunal de Contas do Estado do Rio) disse que não havia espaço para qualquer atraso. Como o senhor lida com isso?

Paes - Esta é a única grande obra que não está sob nossa responsabilidade (da prefeitura). Posso falar um pouco pelo governo do Estado. Em primeiro lugar, não foi uma promessa da campanha olímpica construir a linha de metrô.

Na verdade, no dossiê, nós apresentamos 17 projetos de legado. Hoje estamos executando 27 projetos de legado. Não era essencial para as Olimpíadas construir o metrô. Mas as Olimpíadas foram uma boa desculpa para construir os 20 quilômetros de metrô. Desde o início sabíamos que seria difícil, mas ficará pronto.

BBC Brasil - Mas o Rio tem um trânsito caótico com engarrafamentos terríveis. E os Jogos serão realizados em quatro áreas muito distantes. Se o metrô não ficar pronto será muito difícil para chegar aos eventos.

Paes - Esquece isso, não é esta a questão. Não estamos construindo o metrô para as Olimpíadas. O metrô é para o dia a dia da cidade, para esse trânsito caótico, para as pessoas que moram aqui. Para termos um melhor sistema de transporte público.

As Olimpíadas são 15 dias. Você dá férias para todo mundo. Não queremos que os cariocas saiam da cidade porque temos orgulho do nosso povo, então vamos pedir que fiquem na cidade. Mas não é essa a questão, o metrô, o BRT, a revitalização da região portuária, essas são obras para a cidade.

BBC Brasil - Mas as pessoas ficam céticas por tantas promessas não cumpridas, como o caso da Baía de Guanabara. Neste caso, a Olimpíada também não era a desculpa perfeita para corrigir o problema?

Paes - O que quero dizer é que estamos fazendo muito mais do que prometemos no dossiê olímpico. E geralmente não é este o caso. Mas essas são duas obras que não estão comigo. A Baía de Guanabara e o metrô. São questões estaduais.

Para a baía estamos falando da região metropolitana, dos municípios que têm conexão com a baía. Melhorou (o saneamento), mas não vamos chegar aos 80% de esgoto tratado, vai passar para 60%. É melhor do que era. Para as Olimpíadas não é um problema porque as competições vão ser realizadas bem na entrada da baía.

Mas é uma má notícia para a gente, para os moradores da cidade, do Estado do Rio, que não terão a baía totalmente limpa. Os Jogos eram uma boa desculpa, mas foram uma oportunidade perdida neste caso. Eu concordo com isso.

As obras no Parque Olímpico do Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca
Matthew Stockman/Getty Images
As obras no Parque Olímpico do Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca


BBC Brasil - O senhor já chegou a falar que teve momentos em que a prefeitura teve que adiantar dinheiro para obras, como em Deodoro, para as coisas andarem. Nestes últimos anos já houve riscos de obras importantes pararem, de os recursos secarem? É preciso muita ginástica para as coisas andarem?

Paes - Não é fácil fazer a Olimpíada. É como ser dois prefeitos. Você tem o dia a dia da cidade para gerenciar e tem a Olimpíada. Você tem que trabalhar mais, 20 horas por dia, sete dias por semana. Todo domingo venho inspecionar os trabalhos para ver como estão indo.

Mas é uma grande oportunidade, e o bom é que temos encontrado as respostas certas para os problemas que aparecem. E provavelmente vamos continuar encontrando soluções para as dificuldades que aparecerem no próximo ano.

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