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Política da vela faz Star pagar por sua independência, reclama Lars Grael

Dono de duas medalhas olímpicas, velejador fala ao iG sobre motivos que levaram Isaf a excluir classe Star do programa do Rio 2016

Pedro Taveira, iG São Paulo | 13/05/2011 14:03 - Atualizada em 16/05/2011 09:20

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A menor possibilidade de que a classe Star da vela seja realmente afastada do programa dos Jogos de 2016 é assustadora para o Brasil. Dono de quatro medalhas nas últimas quatro Olimpíadas, o país perderia em casa sua categoria mais premiada neste esporte. Mais que isso, a exclusão poderia significar o fim da carreira olímpica de monstros como Torben Grael, Bruno Prada, Marcelo Ferreira e Robert Scheidt.

Foto: Gazeta Press Ampliar

Lars Grael vê exclusão da Star com derrota terrível à vela internacional e ao esporte brasileiro

A discussão sobre o tema vem desde novembro de 2010. Na última semana, foi definido pela Isaf (sigla em inglês para Federação Internacional de Vela) que a Star realmente não fará parte do Rio 2016, o que é péssimo para as ambições brasileiras nos Jogos. O assunto, porém, não está encerrado. Nova reunião em julho e uma assembléia da entidade, marcada para novembro deste ano, ainda deixam no ar a possibilidade de uma reviravolta.

Cabe, neste caso, ao COI (Comitê Olímpico Internacional) e ao CO-Rio (Comitê Organizador dos Jogos de 2016) a tarefa de influenciar a Isaf para que a entidade volte atrás em sua decisão. Isto já ocorreu nas Olimpíadas de Sydney, em 2000. A classe Star foi excluída do programa em 1997 e, depois de muitas discussões (e politicagem), retornou no ano seguinte.

Medalhista olímpico em Seul 1988 e Atlanta 1996, Lars Grael falou com exclusividade ao iG sobre esta decisão da Isaf de retirar a Star das Olimpíadas do Rio de Janeiro, bem como todo o processo político por trás desta escolha e as tentativas do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) em reverter o quadro. Para Lars, isto é possível, sim, mas não está mais nas mãos de quem deveria estar: os velejadores.

iG: O que representa para o Brasil a saída da classe Star do programa dos Jogos do Rio de Janeiro?
Lars Grael: Uma derrota terrível para a vela internacional. Das classes olímpicas, a Star é a que reúne os principais nomes da vela mundial. No Brasil, mais do que isso, é uma classe onde o país concentra seus grandes nomes, como Torben Grael, Robert Scheidt, Marcelo Ferreira, Bruno Prada e outros. Então é você ceifar que esses velejadores, que tanto deram para a vela brasileira, possam participar dos Jogos Olímpicos, uma vez que não temos mais como participar de outra classe que não seja a Star. E é uma classe na qual o Brasil deposita suas maiores chances de medalha. Basta observar que nas cinco últimas Olimpíadas o país obteve quatro medalhas na Star. Acho que isso pode vir a diminuir a importância da vela nos Jogos do Rio de Janeiro e, sobretudo para o esporte brasileiro, é muito ruim.

iG: Você consegue enxergar algum culpado para essa decisão?
Lars Grael: O culpado principal seria a própria Isaf, que seria suscetível ao lobby de alguns países e dos interesses mercadológicos dos fabricantes de barcos. A classe Star, por exemplo, permite que cada pessoa construa seu barco. Não tem um fabricante oficial. Já nas outras classes você tem um monopólio privado. Então essas classes que têm interesses mercadológicos a defender fazem lobby eficiente com países com menos tradição na vela tentando obter voto. Mas não podemos culpar apenas os grupos de países ou outras classes que estão fazendo seu papel. A própria classe Star internacional tem certa culpa nisso porque, nos últimos tempos, menosprezou sua relação com a Isaf e esse menosprezo gerou um desgaste que deteriorou a relação da Star e a federação, que optou por enquadrar a classe fazendo esse afastamento do programa olímpico. Eu prefiro crer que isso é provisório. Na historia da Star, a classe já foi afastada dos Jogos de Berlim, em 1936, de Montreal, em 1976, e chegou a ser afastada dos Jogos de Sydney, mas antes das Olimpíadas chegarem já havia sido restituída. Acho que é um processo meramente político, onde os argumentos técnicos são de muita pouca valia e é no ambiente político que se trava a disputa.

Foto: Getty Images

Robert Scheidt e Bruno Prada comemoram conquista da medalha de prata nos Jogos de Pequim, em 2008

iG: Justamente sobre política, o Robert Scheidt fala que Austrália, Nova Zelândia e países da Ásia fizeram muito lobby para a retirada da Star. O peso político destes países é tão grande a ponto de conseguir isso?
Lars Grael: Austrália e Nova Zelândia têm uma grande tradição. São países que tem na vela um esporte nacional. Então eles são muito atuantes no jogo de bastidores, mas têm pouca tradição na Star e defendem outras classes. Países de Ásia, Oriente Médio e África optam por classes mais populares, nas quais os barcos são mais simples, e não a Star que, digamos, é a “Fórmula 1” das classes olímpicas. Mas eles não levam em consideração que a Star representa mais de 50% dos velejadores de barco de quilha do planeta. Ao tirar a Star das Olimpíadas, você tira uma representação muito grande de um setor da vela mundial, que são os barcos de quilha e os velejadores pesados. As classes que sobram são para atletas de médio porte. É uma decisão estrategicamente ruim até porque os grandes nomes da vela mundial, aqueles que se lançam para regatas volta ao mundo, tem na Star sua classe de atividade olímpica. Esses nomes se afastam das Olimpíadas e a vela passa a ser uma competição para atletas jovens e leves. Quem perde com isso é o movimento olímpico internacional e a vela.

iG: Pelo fato de acontecer isso bem nos Jogos do Rio, acha que faltou empenho do COB em reverter essa situação?
Lars Grael: Muito pelo contrário. Sou obrigado a reconhecer o quanto que o COB está empenhado nesse assunto. O presidente fez um trabalho corpo a corpo com vários comitês olímpicos internacionais, com a própria Isaf, com o COI e mandou uma carta sustentando apoio à classe Star para todos os conselheiros da federação internacional. Na verdade, o lobby contrário era mais forte do que esse movimento. Mas o presidente do COB defende a Star pela questão técnica da importância e relevância da classe, o que ela gera, ou geraria, de público para os Jogos do Rio e defendendo também os interesses de chances de medalha da equipe brasileira. Nesse sentido, somos obrigados a reconhecer que nossa maior chance, hoje, da Star voltar ao programa olímpico não se deve aos velejadores ou à associação da classe Star internacional. Nós depositamos nossa confiança no Nuzman e no COB.

Foto: Getty Images Ampliar

Torben Grael e Marcelo Ferreira foram campeões olímpicos na classe Star em Atenas 2004

iG: Em 1997, isso aconteceu na Austrália, que é contra a Star, e a classe acabou voltando...
Lars Grael: Isso foi uma disputa política dentro da Isaf. Ela era historicamente presidida por velejadores de Star. E naquele momento o candidato à presidência da Isaf era o brasileiro Peter Siemsen, que perdeu por míseros votos para o candidato canadense, que representava um voto contrario à situação, à classe Star. A forma dele enquadrar a Star, que passou a ser oposição, foi tirá-la das Olimpíadas para depois então ele barganhar uma nova relação com a classe. E o mesmo presidente que tirou se empenhou em colocar de volta, era o Paul Henderson. Hoje ele defende abertamente que a Star esteja nas Olimpíadas e critica duramente a decisão da Isaf em retirá-la.

iG: Essa decisão de maio sobre a exclusão é a final ou ainda há a possibilidade da classe voltar ao programa dos Jogos?
Lars Grael: No âmbito do conselho da Isaf, ela supostamente é final. Mas cabe recurso. Eles definiram nessa reunião a modalidade das classes, mas ainda haverá uma reunião em julho e uma outra assembleia em novembro, que há espaço para se apresentar uma nova votação e reinserir a Star. Tem todo um jogo político pela frente. Da mesma forma que a Star saiu para Sydney e em 1998 foi reinserida, há espaço para essa discussão continuar até 2014. Tem que haver agora uma maturidade da parte da classe Star e da Isaf para melhor o relacionamento e o papel do CO-Rio, junto com o COI, é muito importante para que possa ser resgatado o status olímpico da Star. Ou seja, ainda há espaço para que a classe seja devolvida.

iG: Sinceramente, como você vê as chances disso ocorrer?
Lars Grael: Sinceramente, eu acho que nós ainda conseguiremos que a classe Star volte às Olimpíadas. Ainda faço fé de que esse entendimento ocorrerá. Nesse meio tempo, haverá eleição na Isaf e nós sabemos que o candidato favorito defende abertamente a Star nos Jogos Olímpicos. Ou seja, dentro da própria Isaf vai haver muita contestação.

iG: Mas, caso seja confirmada a exclusão da Star, qual seria o caminho natural dos velejadores brasileiros?
Lars Grael: A maior parte dos velejadores da Star no Brasil é renomada e experiente, mas todos estão acima dos 40 anos de idade. Para estes velejadores, não restaria qualquer opção na vela olímpica. Seria decretar o fim das trajetórias olímpicas de Torben Grael, a minha, de Marcelo ferreira e tantos outros que realmente não teriam a menor possibilidade ser competitivos em outras classes. Já o Robert Scheidt e o Bruno Prada, que estariam numa situação também difícil, poderiam tentar velejar nas classes Finn ou Tornado misto. Embora, para eles, assumidamente seria um retrocesso uma vez que chegaram ao topo da cadeia alimentar da vela olímpica. Andar numa classe mais jovem é um desafio difícil, porem possível. Para mim e para o Torben seria o fim de linha na vela olímpica, o que não representa ser fim na vela. A gente pode continuar tranquilamente velejando na Star, que manterá seu calendário internacional prestigiado, como ainda temos a opção da vela oceânica, os veleiros clássicos e tantas outras.

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