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Supermosca brasileiro, cujo promotor é Don King, luta no final de janeiro contra chinês que foi bicampeão olímpico no boxe amador. Se vencer, poderá ser desafiante ao título mundial

Natan treina duro para o combate em Xangai
Jonathan Roberts Photography
Natan treina duro para o combate em Xangai

Desde que Adoniran Barbosa compôs "Trem das Onze", o Jaçanã, no extremo da zona norte de São Paulo, entrou para o imaginário coletivo como um lugar muito, muito distante. Mas é de lá, de tão longe, que despontou um boxeador que está incrivelmente perto de um título mundial do boxe. O supermosca (até 52,1631kg) Natan Coutinho voou rapidamente a essa condição. Depois de fazer apenas 11 lutas como amador, venceu todas as 12 lutas profissionais que disputou, dez delas por nocaute. Empresariado por Mauro Katzenelson, filho de Abraham Katzenelson, falecido empresário de Eder Jofre, Natan assinou contrato com a Don King Productions. No dia 30 de janeiro, o brasileiro vai enfrentar o chinês Zou Shiming, uma parada duríssima, em Xangai. Shiming foi bicampeão olímpico (2008-12), bronze em Atenas-2004 e tricampeão mundial amador. 

Mas o que Dong King, promotor de lutas de Mike Tyson, George Foreman e Evander Holyfield, entre outros, enxergou no supermosca brasileiro, desconhecido até mesmo por muita gente que acompanha o boxe brasileiro? Natan não chegou a vencer sequer a Forja dos Campeões, tradicional torneio de boxe organizado pela Federação Paulista, e foi eliminado na primeira rodada no Paulista e no Luvas de Ouro.

Além do antigo interesse por puglistas brasileiros, o que o levou a assinar com Edson "Xuxa" Nascimento e Peter Venâncio, King se impressionou com o estilo irreverente de Natan, além do cartel impecável, com mais de 80% das lutas resolvidas pela via rápida. "Enviei vídeos das lutas do Natan para a Dana Jamison (vice-presidente de operações de boxe da Don King Productions) e ela gostou do estilo do menino, que é muito novo e pegador, promete bastante", diz Katzenelson.

Zou Shiming, dono de um currículo de assustar: tricampeão mundial, bicampeão olímpico como amador
Jonathan Moore/Getty Images
Zou Shiming, dono de um currículo de assustar: tricampeão mundial, bicampeão olímpico como amador

Natan nunca lutou mais do que seis rounds num combate. O duelo com o chinês está previsto para 12. Com 21 anos, o paulistano aposta alto numa preparação física pesada para fazer frente ao consagrado asiático, que tem 34 anos e se impõe no ringue por ser tecnicamente um craque. A pegada, porém, não é das melhores - em suas sete lutas como profissional, soma uma derrota e seis vitórias, sendo apenas uma por nocaute. Em março, Shiming perdeu a invencibilidade em Macau - foi superado por pontos, após 12 assaltos, pelo tailandês Amnat Ruenroeng, que conservou o cinturão da Federação Internacional de Boxe (FIB).

No caso de uma vitória, Natan deve herdar as posições que o chinês possui. Shiming é o sétimo no ranking dos moscas (até 50,8023kg) da Federação Internacional e da Organização Mundial de Boxe e o décimo no Conselho Mundial. Se ficar entre os oito melhores, o brasileiro pode se tornar desafiante ao título mundial no combate seguinte.

Sparrings são feitos com amadores da academia Coliseu, de Guarulhos
Reprodução/Facebook
Sparrings são feitos com amadores da academia Coliseu, de Guarulhos

Natan se submete a uma dura rotina de preparação física, fazendo corridas de cerca de 90 minutos na Serra da Cantareira, com trechos de quatro a cinco quilômetros de subidas íngremes. Os sparrings Jonathan Soares, Aldeir Silva, Andrés Gregório e Aldo Diou, talentosos amadores orientados pelo técnico Jefferson Acácio na tradicional academia Coliseu, de Guarulhos, procuram simular o estilo do bicampeão olímpico e dão trabalho a Natan. "Eles não respeitam os mais velhos e me amassam mesmo".

Apesar de todo o otimismo que cerca Natan, é bem verdade que, da lista de seus 12 adversários, não há nenhum grande nome. Ele não fez ainda nenhum combate internacional, sequer põs os pés fora do país. "Dizem que eu nunca lutei contra ninguém. Mas o que ninguém diz é que enfrentei caras com 20 quilos a mais do que eu. Se levo um golpe de um cara desses, caio para fora do ringue".  Um desses adversários mais pesados, Darli Pires, é um meio-médio-ligeiro, seis categorias acima dos supermoscas.

Para sobreviver nessas condições, Natan tratou de desenvolver a esquiva. Uma das chaves de seu plano de lutas contra o chinês é não permitir que o adversário o "ache" no ringue. "O Shiming é um cara rápido. Joga bastante jab, dá bastante toque, toca e sai, no estilo do boxe amador. Mas acho que o meu jogo encaixa no dele. Ele deixa brechas na curta distância. Tenho que encurtar e pegar - com upper, cruzado, gancho, numa intensidade muito alta. Talvez a juventude faça a luta pender para mim. Ele tem a experiência. O bolo é para ele. Vai lutar habituado ao clima, ao fuso horário. Mas eu quero esse bolo", diz Natan. 

Natan cobiça "o bolo" faz tempo. Tanto que se prontificou a pagar a bolsa de seu primeiro adversário para poder estrear como profissional, no Clube Sociedade Elite Itaquerense, em fevereiro de 2013. "Eu queria muito lutar como profissional, mas não conhecia ninguém que pudesse me empresariar. Então resolvi pagar a bolsa do meu adversário, R$ 300. É duro pagar para baterem na gente, mas foi esse o caminho".

Katzenelson viu o vídeo da luta, gostou e assumiu a função de manager do garoto. O segundo combate já foi contra Darli. Mesmo muito mais pesado, o meio-médio-ligeiro foi nocauteado no quarto assalto.

Natan se empolgou e começou a forjar seu estilo irreverente. Faz "manivela" com o punho, gosta de usar calções com cores berrantes, dança no ringue. Mandou fazer um calção que imagina que Conan, o Bárbaro, usaria se lutasse boxe. Em Xangai, vestirá um no "estilo Superman, como se a cueca estivesse por cima". "Gosto de chamar a atenção das crianças. São os fãs mais sinceros que posso ter. Sou pequeno e magro, pareço uma criança, e acho que é por isso que elas se identificam comigo. É importante o boxeador ter um estilo. Isso me faz diferente dos demais. O Hector Macho Camacho era assim, o Nassem Hamed também. Isso tudo faz parte do marketing do boxe".

Por falar em crianças, Natan começou a lutar justamente por ser parecer com uma. "Sempre fui pequeno. Lembro que eu tinha 13 anos e uma bicicleta muito bonita. Com este meu tamanho, logo chegaram oito moleques e me tomaram. Não pude fazer nada. Foi nessa época que pedi aos meus pais para me colocarem numa academia de jiu-jítsu". Três anos depois, ainda pequeno, mas lutador de jiu-jítsu e de muay-thai, colocou outro ladrão para correr. O início no boxe se deu por uma lesão no joelho, que o obrigou a passar por cirurgia. "Não podia mais chutar, resolvi entrar no boxe. Deu muito certo".