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Presidente da Federação Paulista de Boxe, Newton Campos foi ao Zaire como repórter da Gazeta Esportiva e praticamente não dormiu para escrever a "reportagem de sua vida"

Aos 89 anos, Newton Campos respira boxe 24 horas por dia. Ele é o responsável por manter ativa a modalidade em São Paulo, como presidente da FPB (Federação Paulista de Boxe), organizando dois grandes torneios amadores ao longo do ano, um deles o tradicional "Forja de Campeões". Fora do Brasil, seu prestígio é comprovado pelo fato de ter ocupado a vice-presidência do WBC (Conselho Mundial de Boxe, da silga em inglês) durante anos, sendo atualmente membro honorário da entidade.

Aos 89 anos, Newton Campos ainda é o presidente da Federação Paulista de Boxe. Em 1974, ele viu de perto a luta histórica entre Muhammad Ali e George Foreman
Divulgação
Aos 89 anos, Newton Campos ainda é o presidente da Federação Paulista de Boxe. Em 1974, ele viu de perto a luta histórica entre Muhammad Ali e George Foreman



Mas o maior orgulho de Campos talvez seja não como cartola e sim como jornalista. Foi na condição de repórter do jornal "A Gazeta Esportiva" - atualmente fora de circulação e que sobrevive apenas na internet - que Newton Campos pôde acompanhar de perto o histórico combate entre Muhammad Ali e George Foreman pelo título dos pesos pesados, em 30 de outubro de 1974, no Zaire (atual República Democrática do Congo).

"Aquela foi a reportagem da minha vida, jamais irei esquecer aquele dia", diz Campos, que conta com uma memória privilegiada, apesar da idade avançada. E recorda bem o sufoco que enfrentou para chegar ao local da luta: ele fez praticamente um bate-volta entre São Paulo e Zaire, tendo chegado e saído de Kinshasa em apenas sete horas.

E mais: Quarenta anos depois, duelo entre Ali e Foreman ainda encanta os fãs do boxe

"Poucos dias antes da luta, o diretor de redação da Gazeta me perguntou se eu queria cobrir o combate. Eu quase caí da cadeira e disse que sim. Aí ele me mostrou uma passagem aérea que seria de um corredor do Zaire que desistiu de participar da São Silvestre", lembrou Campos. A Gazeta Esportiva era a organizadora da prova pedestre, disputada tradicionalmente no dia 31 de dezembro, e tinha permuta com agências de turismo. O problema é que, como não teria hotel em Kinshasa, ele precisaria voltar logo após a lutar terminar.

Foi então que começou a epopéia do jornalista, que pegou um voo até o Rio de Janeiro e de lá embarcou para Johannesburgo, na África do Sul, de onde pegaria uma conexão para Kinshasa. A chegada estava prevista para às 22h do dia 29, sendo que a luta começaria às 3h da madrugada do dia 30.

Único brasileiro

Após chegar à capital do Zaire, Campos ainda conseguiu um fotógrafo local para auxiliá-lo na cobertura. Logo depois, partiu para o Estádio Nacional, onde seria realizado o combate. Teve tempo inclusive de conhecer o renomado escritor americano Norman Mailer, que estava há várias semanas no Zaire para acompanhar a luta. "Ele falava espanhol e pudemos trocar várias ideias sobre boxe, que ele adorava", afirmou.

Newton Campos relembra que era o único jornalista brasileiro no local para acompanhar a luta. "O combate foi transmitido pelo Brasil pela extinta TV Tupi, com narração de Mario Moraes e comentários de Eli Coimbra. Só que eles fizeram do estúdio e eu estava lá no estádio", relembra, orgulhoso.

Relembre em fotos com o foi o duelo entre Muhammad Ali e George Foreman

O presidente da FPB se exalta ao relembrar o que viu em cima do ringue em Kinshasa. "Que clima foi aquela luta. A torcida era toda a favor de Ali, que era muito mais técnico e hábil do que Foreman, cuja força física era espetacular", comparou. E Campos disse que por pouco a vitória de Ali não ocorreu mais cedo. "No sétimo assalto, Ali fez Foreman balançar e ele só não caiu porque foi salvo pelo gongo".

Após a vitória de Muhammad Ali sobre George Foreman ter sido sacramentada, começava a segunda parte da epopéia do repórter: sair correndo do estádio para o aeroporto. "Não teria como esperar as entrevistas, mas já sabia tudo o que eles iriam dizer. Minha preocupação era pegar o voo de volta", disse Campos. Com os filmes na bagagem, ele conseguiu uma carona e rumou para o aeroporto, chegando em cima da hora de fechar o voo.

Como levou uma máquina de escrever portátil, Campos foi escrevendo a reportagem da luta, entre um cochilo e outro, e escreveu um texto com mais de 300 linhas. Depois de todas as conexões, ele desembarcou no Rio de Janeiro às 20h do dia 30, ou seja, ainda a tempo de emplacar seu material na edição da Gazeta.

"Liguei para São Paulo e perdi para reservarem o espaço na edição. Quando cheguei à redação, fui aplaudido de pé", Campos, emocionado. Ele cuidou pessoalmente da edição da matéria, que levou o título "Ali volta a ser rei". Esperou até a 1h30 da madrugada até o jornal rodar e poder pegar um exemplar, para guardar como recordação. Sua única frustração é não ter mais sua edição. "Emprestei para um amigo que nunca mais me devolveu". Restaram, porém, as lembranças de uma cobertura histórica.


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