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Depois de peregrinar por dez anos pelas divisões inferiores da modalidade, brasileiro se sagra campeão da Major League Baseball no dia em que completou 30 anos de idade

Paulo Orlando se tornou o primeiro brasileiro a ser campeão d Major League Baseball
Ed Zurga/Getty Images
Paulo Orlando se tornou o primeiro brasileiro a ser campeão d Major League Baseball

Paulo Orlando, primeiro brasileiro a se tornar campeão da Major League Baseball, pensou muitas vezes em "jogar tudo para o alto". Mas ele não se refere àquelas rebatidas clássicas, que vão para as alturas. O jardineiro externo diz que pensou em desistir do esporte. E não é para menos. "Paulão", como é conhecido nos campos do Brasil, peregrinou por dez anos pelas várias divisões inferiores até conseguir vestir a camisa do Kansas City Royals na MLB, também chamada de "as grandes ligas".

"Pensava em algum jeito de ajudar a família. Em alguns momentos achei que era hora de arrumar um emprego e largar o beisebol. Por sorte, minha família foi muito paciente e sempre me deu apoio", diz Orlando, que se sagrou campeão justamente no dia em que completou 30 anos. "Fui contratado meio tarde, mas desde moleque pus na cabeça que queria ser atleta profissional", diz o teimoso jardineiro.

A vida de Paulo Orlando, entretanto, não virou um conto de fadas. Não ainda. No final do mês, ele volta para o Cardenales de Lara, para disputar o campeonato da Venezuela, onde ele diz ser muito mais conhecido do que no Brasil. O campeonato venezuelano é uma das chamadas "ligas visíveis". Seu desempenho será observado pelos estatísticos dos Royals. Os dados serão enviados para o manager Ned Yost. Mas a confiança do paulistano é grande em suas chances de ocupar uma das 25 vagas na equipe na próxima temporada. "Ele sempre confiou em mim, e apresentei um bom desempenho, sempre ajudando na defesa", diz o campeão, por telefone, de Kansas City.

Orlando é modesto. Ele foi chamado por Yost em abril, e chegou pronto: foi apontado como o melhor homem da partida em sua estreia, foi o primeiro jogador a conseguir três rebatidas triplas (quando o jogador percorre três bases após rebater) em suas três primeiras partidas da carreira e o primeiro a conseguir cinco triplas nos sete primeiros jogos. No dia 1º, no terceiro e decisivo jogo da World Series, contra o New York Mets, Orlando conseguiu sua primeira corrirda na série, e contribuiu para a virada. No final, Kansas venceu por 7 a 2.

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A festa na maior cidade do Missouri foi grandiosa. Kansas, que tem 470 mil habitantes, foi sacudida por 800 mil torcedores, segundo o prefeito, na recepção aos jogadores. Não era para menos: os Royals não eram campeões desde 1985. "A cidade parou mesmo", diz Orlando, que diz não ter se esbaldado nos festejos. "Nossos familiares puderam ir para o campo, tiramos fotos. Depois tomamos champanhe".

Orlando conheceu a modalidade aos 12 anos de idade. A mãe dele trabalhava como faxineira na casa do médico Hideo Ueno, que treinava o time infantil do Clube Santo Amaro. "Eu não conhecia o esporte. Fui apenas em um fim de semana. Tentei dar umas rebatidas e pegar umas bolas".

Na época, Orlando ainda pensava em ser jogador de futebol, mas não foi atrás de testes e peneiras em clubes. Quem "atravessou seu caminho" foi o atletismo. Ele recebeu convites para correr e chegou a ser atleta do Pinheiros. Disputava provas de velocidade e foi finalista do Mundial Juvenil de Grossetto, em 2004, nos 400 m. Ele até hoje aproveita essa base no atletismo para disparar quando a bola voa e alcançar as bases.

Veja lances do jogo em que Paulo Orlando se torna o primeiro jogador da liga a fazer três rebatidas triplas em seus três primeiros jogos:

O brasileiro entrou no radar do beisebol norte-americano graças a uma indicação do cubano Orlando Santana, que chegou a ser técnico da seleção brasileira e hoje é olheiro (scout) do Chicago White Sox. Ele ficou três anos disputando ligas inferiores por equipes ligadas ao sistema da equipe de Illinois. Em 2008, foi negociado com os Royals.

Na próxima temporada, Orlando quer se firmar. Sua evolução nos últimos anos foi grande. Em 2014, foi titular absoluto do Omaha Storm Chasers, equipe vinculada aos Royals na Triple A, a segunda divisão. Ele registrou um belo desempenho, participou do Jogo das Estrelas e foi campeão. Na mesma temporada, estava à disposição dos Royals nos playoffs. Na World Series do ano passado, os Royals deixaram o título escapar para o San Francisco Giants. O brasileiro passou vários anos disputando as ligas invernais (para os norte-americanos) em países da América Central, como Panamá e República Dominicana, e na Venezuela.

O salário mínimo da MLB é de US$ 507,5 mil ( por temporada, que vai de abril até o início de outubro), o equivalente a R$ 1,9 milhão. Para efeito de comparação, seu salário nos tempos de Triple A, o último degrau antes das Grandes Ligas, era de US$ 2,2 mil por mês. Ele tinha que economizar ao máximo para enviar dinheiro à família em São Paulo - tem uma filha de cinco anos de idade, Maria Eduarda. Ainda bem que Orlando não jogou tudo para o alto, só a bola.

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