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Sem verba da Lei Agnelo/Piva, CBBS se mantém do trabalho de funcionários não remunerados e parceira com a Liga Americana

Os brasileiros Yan Gomes e André Rienzo entraram para a história do beisebol brasileiro ao serem os primeiros a disputarem a MLB (Major League Baseball), a liga profissional dos Estados Unidos. Apesar do feito, a realidade da modalidade no país é bem diferente. Sem incentivos financeiros, a CBBS (Confederação Brasileira de Beisebol e Softbol) sobrevive graças a "trabalho voluntário" e parceiros americanos para organizar suas competições.

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Estádio Mie Nishi tem escolinha, que aposta na formação de atletas de beisebol
Arquivo da Secretaria de Esportes, Lazer e Recreação
Estádio Mie Nishi tem escolinha, que aposta na formação de atletas de beisebol

A crise financeira do beisebol brasileiro agravou-se em 2008, quando a modalidade foi excluída da programação olímpica após os Jogos de Pequim. A decisão fez com que a confederação parasse de receber as verbas da Lei Agnelo/Piva, que prevê 2% da arrecadação bruta das loterias federais sejam 85% destinados ao COB (Comitê Olímpico Brasileiro) e 15% ao CPB (Comitê Paraolímpico Brasileiro).

De acordo com o presidente Jorge Otsuka, a CBBS se mantém por conta do trabalho voluntário dos "funcionários" - que não possuem nenhum vínculo empregatício -, da Lei de Incentivo ao Esporte, contribuição dos clubes e ajuda da Liga Americana para organizar os torneios. A discrepancia com outras modalidades é tão grande que, se comparada ao futebol, as premiações dos torneios de beisebol representam apenas 0,01% do valor pago pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) ao vencedor do Campeonato Brasileiro. Enquanto a CBF paga cerca de R$ 9 milhões, a CBBS premia a melhor equipe com R$ 1 mil.

"Nós cobramos taxas de participação dos clubes (ao total 59). Pagamos os prêmios das competições e, às vezes, a viagem da diretoria técnica da confederação. Em determinados torneios contamos com a participação de clubes dos Estados Unidos e eles patrocinam o prêmio em dinheiro. Geralmente para prêmio individual pagamos R$ 100 para cada atleta, R$ 1 mil para a equipe campeão, R$ 500 para o segundo colocado e R$ 300 para o terceiro", afirmou Otsuka ao iG ..

A falta de dinheiro colaborou para o êxodo de atletas para outros países. Sem conseguir profissionalizar jogadores, o Brasil logo se tornou um polo atrativo para os estrangeiros, principalmente os Estados Unidos. Ao menos uma vez por ano, os americanos participam de torneios no Brasil e ajudam a confederação com o intuito de descobrir novos talentos e, posteriormente, contratá-los. 

Foi por intermédio dessa aproximação que o Brasil conseguiu disputar o World Baseball Classic, o Mundial de Beisebol, no Japão, em fevereiro. Sem capital para custear o gasto de cerca de R$ 800 mil, a CBBS contou com a solidariedade da MLB, que cobriu custos dos treinamentos da seleção brasileira, concentração e até uniforme da equipe. Dos 28 atletas convocados para a competição, 82% deles jogavam fora do país, sobretudo, nos Estados Unidos e Japão. 

Reginatto é destaque nos Estados Unidos pelo Tampa Bay Rays
Arquivo pessoal
Reginatto é destaque nos Estados Unidos pelo Tampa Bay Rays

Um desses jogadores era o curitibano Leonardo Reginatto, que defende o Tampa Bay Rays. Observado por um olheiro na cidade de Marília, no interior de São Paulo, o terceira base pediu investimentos ao esporte no país. "O beisebol merece, com certeza, um incentivo a mais do Brasil. Eu acredito que haveria mais investimentos se fosse um esporte olímpico, porque todos assistem. O reconhecimento seria muito melhor e o apoio também", declarou Reginatto em entrevista ao iG , momentos antes de voltar ao país para passar férias. 

Jorge Otsuka também comentou as transferências de atletas para o exterior. "Os (atletas) que jogam no Brasil, geralmente, não se sustentam com o beisebol. Eles têm uma outra profissão e continuam no esporte por amor. A diferença é muito grande. Os que se destacam aqui, vão para os Estados Unidos após os 16 anos".

São Paulo mantém primeiro estádio de beisebol brasileiro

Mie Nishi, situado no bairro Bom Retiro em São Paulo, foi o primeiro estádio de beisebol construído pela administração pública. Inaugurado em 1958, o local recebeu os Jogos Pan-Americanos de 1963, o Torneio da Amizade de 1996 e os Jogos Sul-Americanos pela Odesur em 2002. Atualmente, ligado à Secretaria de Esportes, Lazer e Recreação, é utilizado para a formação de futuros atletas.

"Na verdade, no Brasil ainda não temos formação esportiva. O atleta vai adquirindo conhecimento, potencial até se tornar profissional. Primeiro damos a iniciação ao esporte e depois aulas de quase 100% beisebol. Quando achamos que um garoto tem capacidade técnica, ele continua, caso contrário, ele encerra e acaba priorizando outra profissão", afirmou Olívio Sawasato, diretor do estádio e presidente da federação paulista de beisebol.

Sawasato, assim como o presidente da CBSS, não poupa críticas: "Falta de espaço na mídia, que cobre 100% futebol. Nós não temos espaço. E a falta de investimento não acontece somente no beisebol, como também nos outros esportes. Nós temos 28 modalidade olímpicas e a maioria é desconhecida pelo público. Falta iniciação e mais ações políticas. É lamentável".

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