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Maior atleta olímpico brasileiro era um apaixonado pelo esporte

Salto triplo entrou por acaso na vida de Adhemar Ferreira da Silva, bicampeão em Helsinque-1952 e Melbourne-1956

Pedro Taveira, iG São Paulo | 03/03/2011 07:58

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Foto: Reprodução

Capa do jornal "Gazeta Esportiva" no dia seguinte ao primeiro ouro olímpico de Adhemar

Sujeito quieto, mas animado. Brincalhão, mas focado em seus objetivos. Sentimental. Ressentido com uma suposta falta de reconhecimento, mas que sempre atendeu bem os jornalistas. Um gênio. Quando se pergunta sobre Adhemar Ferreira da Silva a quem fez parte de sua vida, nenhuma resposta foge destas citadas.

Adhemar, filho pobre de pai ferroviário e mãe lavadeira, é até hoje o único brasileiro a conquistar duas medalhas de ouro em Olimpíadas consecutivas. Nascido em 29 de setembro de 1927, foi um menino de pernas finas e compridas, biotipo propício para o atletismo. Mas tinha que trabalhar na infância para ajudar os pais em casa.

Foi por acaso que o esporte entrou em sua vida. Através de um amigo que treinava no São Paulo, Adhemar conheceu e se encantou pelo salto triplo. Saltou mais de 12 metros em sua primeira tentativa, algo extraordinário para um iniciante. Logo caiu nas graças e passou a ser orientado pelo alemão Dietrich Gerner, de quem “herdou” personalidade seca e fria.

Em Londres-1948, em sua primeira participação nos Jogos Olímpicos, Adhemar não foi bem. Não passou da eliminatória e amargou o 14º lugar. Quatro anos mais tarde, sem a presença de seu técnico, que não pode ir a Helsinque, e criticado pela imprensa nacional, deu show. Então detentor do recorde mundial com 16,01m, bateu a marca quatro vezes (a última com 16,22m) na mesma tarde e sagrou-se campeão olímpico. O público, extasiado com seu feito, o ovacionou de tal forma que ele foi orientado pelos organizadores do evento a percorrer o estádio para agradecer. Estava criada a volta olímpica.

Na volta para o Brasil, foi oferecida a ele uma casa como forma de premiação pela façanha. Focado no esporte, Adhemar rejeitou, pois na época não era permitido a atletas amadores receber prêmios financeiros. Preocupado com sua imagem, Adhemar temeu que, como “profissional”, tivesse que abandonar as competições.

O bicampeonato veio em Melbourne-1956 com novo recorde olímpico: 16,35m. O título, no entanto, esteve ameaçado por uma dor de dente, só solucionada dois dias antes da prova final. Em 1960, nos Jogos de Roma, uma tuberculose ganglionar afetou o rendimento do atleta e começou a colocar fim a sua carreira.

Foto: Arquivo pessoal Ampliar

São Paulo foi o primeiro clube de Adhemar Ferreira da Silva no atletismo

Além das conquistas olímpicas, Adhemar ganhou 10 campeonatos brasileiros, cinco sul-americanos e três Jogos Pan-Americanos. Como homenagem aos recordes mundiais de 1952 e 1955, o São Paulo ostenta até hoje duas estrelas douradas sobre seu distintivo – é o único clube que concede tal honra a alguém que não é do futebol.

Exemplo também longe das pistas, Adhemar era formado em quatro faculdades. Foi escultor pela Escola Técnica Federal de São Paulo, bacharel em Educação Física na Escola do Exército, em Direito na Universidade do Brasil e em Relações Públicas na Faculdade Cásper Líbero. Atuou também como jornalista e falava fluentemente inglês, espanhol, italiano, francês, alemão, finlandês e japonês e foi Adido Cultural na Embaixada Brasileira em Lagos, na Nigéria, entre os anos de 1964 e 1967. O ex-atleta sempre dizia que se não fosse pelo esporte, teria ido para a marginalidade.

Mas Adhemar Ferreira da Silva se mostrava ressentido com a suposta falta de reconhecimento por seus feitos no Brasil, o país do futebol. Na Austrália, ficou comovido por ter recebido espaço em uma página de livro que trazia os 100 maiores atletas olímpicos de todos os tempos. No exterior, sim, ele era muito valorizado. Mais do que em sua casa.

Abordado por uma equipe de TV italiana nos Jogos de Seul, em 1988, Adhemar negou a entrevista. Apenas uma brincadeira daquele que, quando competidor, vagava pela Vila Olímpica tocando seu violão. Quando questionou se os europeus o conheciam, ouviu a resposta: “Quem não conhece o grande Da Silva do Brasil?”.

Até 2000, Adhemar trabalhou para o setor de esportes do jornal “Estado de São Paulo” e também na organização do Gran Prix de Atletismo. Em 1996, se tornou coordenador da área de esportes da Faculdade de Santana, que posteriormente passou a ser UniSant’Anna, em São Paulo. Morreu em 12 de janeiro de 2001, aos 73 anos, vítima de parada cardíaca. A única biografia escrita sobre ele, feita ainda em vida, está nas páginas de “Herói Por Nós: Adhemar Ferreira da Silva, o Ouro Negro Brasileiro”, de Tânia Mara Siviero.

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