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Ex-ginasta inicia carreira no ski aerials e sonha até em disputar um dia as Olimpíadas de inverno

Há pouco mais de um ano, após sofrer uma fratura na mão e ser cortada das Olimpíadas de Londres, Laís Souza sabia que estava dando adeus à ginástica artística. Depois de penar com inúmeras lesões no joelho direito ao longo da carreira, que a obrigaram a passar por oito cirurgias, ela sentia que havia chegado a hora de parar. Só não contava que poderia seguir como atleta, mas nos esportes na neve. Desde o último mês de maio, ela integra a equipe brasileira de ski aerials, uma das modalidades do esqui estilo livre, modalidade que faz parte do programa das Olimpíadas de inverno. Com poucas chances de vaga para os Jogos de Sochi 2014, ela está animada em fazer carreira no novo esporte.

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“Estamos abrindo um novo campo, isso é bacana. É um esporte novo, mesmo para o Brasil. Algumas pessoas acham que essa é uma coisa muito distante da nossa realidade, mas dá para encarar numa boa”, afirma Laís. E a adaptação parece estar sendo rápida mesmo. No último final de semana, ela competiu no campeonato americano de aerials, em Park City, no estado de Utah (EUA) e conseguiu duas medalhas de bronze, as primeiras de uma atleta brasileira nesta modalidade. “Consegui fazer tudo limpinho, acertando todas as acobacias que escolhemos. Essa medalha tem como significado mais um passo dentro deste esporte”, comemora a ex-ginasta, que completou 25 anos no último dia 13.

Laís Souza conquistou as primeiras medalhas no ski aerials durante o campeonato americano
Divulgação
Laís Souza conquistou as primeiras medalhas no ski aerials durante o campeonato americano

Para chegar até aqui, porém, Laís Souza teve que superar o frio, medos e literalmente aprender o básico do esqui. A CBDN (Confederação Brasileira de Desportos na Neve) decidiu criar uma equipe de ski aerials por entender que se trata de uma modalidade de fácil adaptação ao Brasil, mais do que outras modalidades de esqui, como o alpino. Por contar com elementos de acrobacia, que são realizadas após o salto - os esquiadores descem uma rampa de cerca de 25 metros e depois saltam em um half (curva), quando então realizam as manobras -, optaram por convidar atletas da ginástica artística.

Em maio, foi realizada uma seletiva no Ski Mountain Park, em São Roque (SP), quando acabaram selecionadas Laís e Josi Santos, ex-ginasta do Pinheiros. Mesmo com remotas chances de classificação para as Olimpíadas de Sochi, na Rússia - o objetivo é classificar uma equipe completa somente nos Jogos de 2022 -, a CBDN resolveu já colocar as duas para competir em etapas da Copa do Mundo, em janeiro, para adquirir experiência.

Medo de altura

Além da experiências, as competições que Laís e Josi estão disputando têm servido para as ex-ginastas perderem o medo da descida na rampa. “Quando fomos para um período de treinos e competições na Finlândia, foi um pouco medonho no começo. Tive que ter um pouco de coragem para me jogar na neve e cair. A gente ainda está se encaixando. Os treinos estão começando a melhorar agora”, explica Laís.

Mesmo assim, tombos e sustos são rotina no treinamento das brasileiras. “A gente caia bastante nos treinos da ginástica, mas é completamente diferente. Na verdade, o salto inteiro tem que ser focado, porque você tem que descer esquiando, a 50 km/h para saltar. Depois, tem a rampa, quando você não pode bobear nenhum instante, porque tem o perigo do esqui virar no ar. E a fase aérea, com 3m de altura e a chegada praticamente no chão, com esqui de 1m60 de comprimento”, diz a ex-ginasta.

Os equipamentos necessários para saltar no aerials também atrapalham na adaptação, diz Laís. “Antes, a gente competia usando um collant e descalças. Agora, saltamos com, no mínimo, cinco quilos a mais, por causa das botas e da roupa pesada, sem contar o frio intenseo, o esqui e a alteração que o vento pode causar na hora do salto.”

Leia mais sobre as Olimpíadas de inverno no blog Espírito Olímpico

Laís Souza representou o Brasil em duas Olimpíadas na ginástica artística
Getty Images
Laís Souza representou o Brasil em duas Olimpíadas na ginástica artística

A necessidade de uma adaptação rápida faz com que a dedicação das atletas seja intensa. Depois de um rápida passagem pelo Brasil para passar as festas de final de ano, as duas ex-ginastas retornarão ao ritmo pesado de treinos em Park City, onde irão se preparar para três etapas da Copa do Mundo em janeiro, nos EUA e Canadá, a partir de 10 de janeiro.

E a rotina não assusta a quem já encarava coisa semelhante na ginástica artística. “A gente vem de uma modalidade muito rígida, de muitas horas de treinamento, por isso não estranho muito. A intensidade dos treinos é pesada, mas diferente”, diz Laís. “No aerials, eu faço dez saltos por dia, com intervalo de uns dez minutos entre um e outro. Na ginástica, eu fazia dez saltos em um minuto”, compara.

Animada com a conquista das primeiras medalhas, a ex-ginasta olímpica, que representou o Brasil nas Olimpíadas de Atenas (2004) e Pequim (2008), não se ilude com as chances de conseguir vaga para os Jogos de inverno em Sochi. “Em todas estas provas que estamos competindo, já estamos somando pontos. Mas sei que obter uma vaga será muito difícil e esse nem é mesmo o nosso objetivo”. Frustração se a vaga não vier? “Nem um pouco, imagine. Já tenho muito o que comemorar. Não tenho nem quatro meses completos no esqui. O importante é estar abrindo portas para novos atletas”, afirma Laís.

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